A ofensiva dos Estados Unidos ao Irã reacendeu uma tensão que o agricultor familiar brasileiro conhece bem: a de produzir com custos crescentes e receita incerta. Desta vez, o estopim veio de fora, mas os efeitos chegam direto à porteira. A Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores Familiares do Estado do Paraná (Fetaep) monitora com atenção os reflexos do conflito no Oriente Médio sobre o campo paranaense e já projeta um cenário de pressão nos próximos meses, especialmente sobre o diesel e os insumos agrícolas.
O óleo diesel é o ponto de maior preocupação imediata. Combustível indispensável para o plantio, a colheita e o escoamento da produção, ele responde por parcela significativa dos custos fixos de qualquer propriedade rural, independentemente do porte. Para a agricultura familiar, cujas margens de lucro já operam em níveis historicamente estreitos, qualquer alta no bombeamento representa uma pressão que dificilmente é repassada ao preço final do alimento.
“Os combustíveis já subiram e nossa preocupação é que as margens da agricultura familiar estão muito apertadas. Com esse conflito, a tendência é que a situação se agrave, aumentando os custos para produzir e transportar alimentos”, avalia Alexandre Leal, presidente da Fetaep.
Fertilizantes na mira da instabilidade internacional
O diesel não é o único insumo vulnerável à instabilidade geopolítica. O mercado internacional de fertilizantes, historicamente sensível a conflitos em regiões estratégicas, também entra na equação. O Brasil importa parcela expressiva dos nutrientes utilizados na produção agrícola, e qualquer desequilíbrio nas rotas de abastecimento ou nas cotações internacionais se traduz, em semanas, em custo maior na prateleira das revendas agropecuárias do interior do Paraná.
Para o agricultor familiar, a combinação de diesel mais caro com fertilizantes pressionados forma um cenário particularmente adverso. Diferentemente do produtor de grande escala, que pode diluir custos em volumes maiores de produção ou travar parte dos insumos com antecedência, o pequeno produtor costuma comprar o que precisa na hora em que precisa, ficando mais exposto às variações de curto prazo.
Propostas que chegam antes do prejuízo
A Fetaep não se limita ao diagnóstico. A entidade já articula um conjunto de propostas concretas a serem apresentadas aos governos estadual e federal, com foco em reduzir os efeitos da conjuntura internacional sobre quem produz alimentos no campo paranaense.
Entre as medidas defendidas estão a ampliação de linhas de crédito rural com juros subsidiados, a prorrogação de dívidas dos produtores e o avanço na discussão de soluções estruturais, como a aprovação de um projeto de lei para securitização das dívidas rurais. Essas ferramentas, na avaliação da entidade, funcionam como amortecedores em momentos em que o ambiente externo foge ao controle do produtor.
“O nosso compromisso é acompanhar essa situação e propor ações que ajudem a diminuir os impactos na vida dos trabalhadores e trabalhadoras do campo, garantindo condições para que a agricultura familiar continue produzindo alimentos e gerando renda”, reforça Alexandre Leal.
A securitização das dívidas rurais, em especial, representa uma pauta antiga da agricultura familiar brasileira que ganha novo fôlego diante de um cenário de custos crescentes. O mecanismo permitiria reorganizar passivos acumulados por pequenos produtores, abrindo espaço no orçamento para absorver novas pressões sem comprometer a continuidade da produção.
O campo paranaense na linha de frente
O Paraná ocupa posição central na produção de alimentos do país, com destaque para grãos, leite, aves e suínos, atividades que dependem diretamente de diesel e de insumos com preços atrelados ao mercado internacional. A agricultura familiar responde por grande parte dessa produção e por boa parte da segurança alimentar das famílias brasileiras, o que torna o monitoramento da Fetaep mais do que uma ação sindical: é uma função estratégica para o abastecimento regional.
A entidade seguirá acompanhando os desdobramentos do conflito e seus efeitos sobre o custo de produção no campo paranaense. O cenário ainda é incerto, mas a orientação da Fetaep é clara: agir antes que o prejuízo chegue antes das propostas.
