Há algo de profundamente simbólico em plantar árvores dentro de um hospital. Não em canteiros decorativos, mas como parte de um sistema vivo, pensado para interagir com quem está internado, com quem acompanha e com quem cuida. É exatamente isso que está acontecendo no Hospital Infantil Waldemar Monastier, em Campo Largo, na Região Metropolitana de Curitiba, onde o projeto “Saúde & Natureza” deu início a uma experiência inédita na rede pública de saúde do Paraná.
A iniciativa implanta um segmento florestal terapêutico baseado em Sistemas Agroflorestais (SAFs) nos espaços externos da unidade, unindo os princípios da agroecologia à prática da humanização hospitalar. É uma combinação que, até então, não existia no SUS paranaense.
O que a ciência diz sobre natureza e recuperação
A fundamentação do projeto não é intuitiva — é científica. Estudos sobre os efeitos do contato com áreas verdes no ambiente hospitalar mostram resultados consistentes: a proximidade com elementos naturais vivos atua na redução dos níveis de cortisol, o hormônio do estresse, na diminuição da pressão arterial, no alívio da ansiedade e no fortalecimento do sistema imunológico. Esses efeitos se aplicam tanto aos pacientes quanto aos acompanhantes e às próprias equipes de saúde, que convivem diariamente com o desgaste emocional das internações.
Para crianças, o impacto é ainda mais significativo. O ambiente hospitalar é, por natureza, um lugar de ruptura. Tira a criança da rotina, do espaço conhecido, do convívio com amigos. Criar zonas de reconexão com o mundo natural dentro desse mesmo ambiente é uma forma de devolver algo do que o internamento subtrai.
Uma floresta planejada por estudantes de agroecologia
A execução do projeto conta com a participação direta de estudantes do 5º semestre do curso superior de Agroecologia do Instituto Federal do Paraná (IFPR) de Campo Largo, que são responsáveis pelo planejamento executivo e pelo manejo da área. A parceria entre o hospital, administrado pela Fundação Estatal de Atenção em Saúde (Funeas) e vinculado à Secretaria da Saúde do Paraná (Sesa), e o IFPR coloca a formação técnica a serviço de uma demanda real de saúde pública.
A primeira fase, com conclusão prevista para julho deste ano, já prevê o plantio de mais de 60 mudas de espécies nativas e árvores frutíferas. Além da instituição federal, o projeto conta com apoio da Prefeitura de Campo Largo, da Sociedade Chauá e do Núcleo de Estudos em Agroecologia (NEA), o que o transforma em uma ação intersetorial com múltiplos parceiros comprometidos com a continuidade.
Mais do que paisagismo: um espaço de reabilitação
O espaço que está sendo construído não tem fins apenas estéticos. O planejamento prevê áreas destinadas a atividades integrativas de reabilitação e uma futura estrutura voltada especificamente para práticas terapêuticas ao ar livre. A proposta se integra ao programa “Humanizamente”, ação já existente no hospital e focada em minimizar o desgaste causado pelos longos períodos de internamento infantil.
“O internamento hospitalar é um período de grande desgaste emocional, especialmente para as crianças e suas famílias. Ao transformarmos o ambiente do Hospital Infantil de Campo Largo, com uma floresta terapêutica, estamos unindo a eficiência da biologia molecular e dos tratamentos convencionais ao poder integrativo da natureza. É o Paraná inovando e mostrando que o cuidado em saúde pública se faz também com acolhimento e respeito ao bem-estar integral do paciente”, afirmou César Neves, secretário de Estado da Saúde do Paraná.
A diretora-geral do hospital, Karina Chiquitti, reforça a dimensão transformadora da iniciativa para quem vive o dia a dia da unidade. “A expectativa é consolidar o projeto como um modelo inovador de integração entre ensino, serviço de saúde e sustentabilidade. Mais do que um espaço físico, o projeto pretende construir uma nova experiência de cuidado, acolhimento e conexão com a vida”, destaca.
Um modelo replicável para o SUS
O aspecto mais relevante do projeto vai além de Campo Largo. Uma floresta terapêutica dentro de um hospital público, desenvolvida com mão de obra técnica local, parcerias interinstitucionais e custo acessível, é precisamente o tipo de inovação que pode ser replicado em outras unidades do país. A agroecologia, nesse contexto, deixa de ser apenas um modelo produtivo para se tornar uma ferramenta de cuidado.
O SUS paranaense, ao apostar nessa combinação, sinaliza que humanização hospitalar não se resume a decoração ou conforto visual. Ela envolve repensar o ambiente como parte ativa do processo de recuperação, especialmente quando o paciente é uma criança que precisa, acima de tudo, sentir que o mundo lá fora ainda existe.
