Rondônia não é o primeiro nome que vem à cabeça quando o assunto é pecuária premium. Mas os números do primeiro trimestre de 2026 contam uma história diferente: o estado registrou crescimento de 80% no uso de genética angus, resultado divulgado pelo Programa Carne Angus Certificada durante o Rondônia Angus Show, evento realizado no âmbito da Rondônia Rural Show, em Ji-Paraná. Para entender o que esse número significa, basta comparar com o restante do país — no mesmo período do ano anterior, o crescimento médio da raça no Brasil foi de 31%.
A diferença entre os dois índices não é coincidência e ela traduz uma mudança de mentalidade que vem ganhando força entre os pecuaristas do Norte: a percepção de que melhorar a genética do rebanho já existente pode ser mais rentável do que simplesmente ampliar o número de cabeças.
A lógica por trás do avanço
O principal indicador desse movimento é o aumento na comercialização de sêmen angus no estado. Maychel Borges, gerente nacional do Programa Carne Angus Certificada, acompanha de perto essa transição e enxerga nela uma oportunidade concreta de estruturar uma nova etapa da pecuária rondoniense.
“A nossa função é auxiliar o pecuarista rondoniense a entender o processo de certificação e mostrar como ele pode atingir os critérios que o programa exige”, afirma Borges, indicando que o trabalho não se limita à genética, mas passa pela formação técnica do produtor para que ele possa acessar os benefícios reais da certificação.
Esses benefícios são tangíveis. A parceria do programa com grandes frigoríficos garante bonificação para os animais certificados, o que cria um incentivo financeiro direto para quem adere à raça e segue os protocolos de manejo exigidos. Em Rondônia, onde a proximidade com frigoríficos de grande porte é uma realidade, esse fator tem peso considerável na decisão dos produtores.
Meio-sangue como porta de entrada
Um dos elementos centrais para entender o crescimento é o papel do animal meio-sangue angus. Para produtores que trabalham com rebanhos zebuínos e ainda não migraram completamente para raças taurinas, o cruzamento com angus representa um caminho intermediário acessível, com resultados expressivos em rendimento de carcaça e qualidade de carne.
Mateus Pivato, diretor-executivo da Associação Brasileira de Angus, vê nesse contexto uma combinação favorável que dificilmente se repete em outros momentos do setor.
“É um mercado bastante aquecido, o que possibilita esse aumento na comercialização de genética”, observa Pivato, destacando que a valorização dos animais meio-sangue angus, somada ao cenário positivo da pecuária de corte em geral, contribuiu diretamente para o resultado registrado em Rondônia.
O avanço local, portanto, não é um fenômeno isolado — nasce da interseção entre um mercado nacional aquecido, uma estratégia regional bem orientada e um produtor progressivamente mais atento à rentabilidade por animal, não apenas ao volume do rebanho.
Do campo ao prato: a certificação como valor de mercado
Durante o evento em Ji-Paraná, o programa foi além das discussões técnicas. Criadores, consumidores e visitantes participaram de degustações com cortes certificados: picanha, maminha, fraldinha red e chorizo angus. A proposta era concreta — colocar a carne na mesa para que o argumento da qualidade fosse sentido, não apenas apresentado em dados.
Essa aproximação entre campo e consumidor final é parte de uma estratégia mais ampla. A Rota Angus 2026, com início previsto para julho em Theobroma e percurso até Colorado do Oeste, estende essa lógica pelo interior do estado. O Concurso de Carcaças Angus Rolim de Moura, programado para novembro, fecha o calendário com um objetivo preciso: demonstrar, com resultados mensuráveis, o que acontece quando genética, manejo e nutrição são tratados como sistema integrado.
“O Concurso de Carcaças Angus mostra, na prática, como genética, manejo e nutrição podem se transformar em carcaças de alta qualidade e maior valor agregado”, resume Borges.
Rondônia no radar da pecuária premium
O crescimento de 80% em um trimestre é expressivo por si só. O que o torna ainda mais relevante é o contexto em que acontece: um estado que historicamente foi associado à expansão extensiva da pecuária começa a se reposicionar como produtor de carne com rastreabilidade, critério genético e acesso a mercados de maior valor.
Esse reposicionamento não acontece por acaso. Ele é resultado de um conjunto de fatores que raramente se alinham ao mesmo tempo: demanda aquecida, incentivo financeiro via bonificação, programa de certificação estruturado e uma cadeia de eventos que mantém o tema vivo dentro do calendário rural do estado. Quando esses elementos funcionam juntos, o número no fim do trimestre faz sentido.
