Entre os dias 18 e 24 de maio, qualquer pessoa com um celular na mão e disposição para sair de casa pode se tornar parte de um dos maiores esforços coletivos de monitoramento da biodiversidade já organizados no Brasil. A Semana Nacional da Biodiversidade, iniciativa da ampBio — Aliança pelo Monitoramento Participativo da Biodiversidade Brasileira —, convoca cidadãos de todo o país a registrarem espécies de fauna e flora nos ambientes ao redor, seja em um parque urbano, numa beira de estrada rural ou em meio à mata nativa.
A proposta é direta: observar, fotografar e compartilhar. Os registros feitos durante a semana devem ser enviados pelo aplicativo iNaturalist, plataforma gratuita e já consolidada mundialmente que funciona como uma rede social da natureza, onde usuários publicam fotos de espécies, recebem identificações colaborativas e alimentam bancos de dados científicos acessados por pesquisadores e gestores públicos.
Dados que saem do campo e chegam às políticas públicas
O que diferencia a Semana Nacional da Biodiversidade de uma simples campanha de conscientização é o destino dos dados gerados. Cada registro publicado no iNaturalist contribui para um acervo consultado por instituições de pesquisa, universidades e órgãos ambientais na construção de políticas públicas de conservação. Áreas com alta concentração de registros podem embasar decisões sobre criação de unidades de conservação, corredores ecológicos e programas de restauração de habitats.
Aliás, a iniciativa surge em um momento estratégico para o país. Com a COP30 marcada para novembro de 2025 em Belém, o Brasil enfrenta pressão internacional crescente por dados concretos e transparentes sobre o estado de sua biodiversidade. Nesse contexto, iniciativas de ciência cidadã como essa deixam de ser apenas educativas e passam a ter peso político e científico real.
A mobilização conta com a participação confirmada de organizações como SAVE Brasil, Instituto Fauna Brasil, Observatório de Biodiversidade, Sociedade Botânica do Brasil e Fundação Florestal, o que garante capilaridade técnica e cobertura em diferentes biomas e regiões do país.
Como funcionar na prática
A participação exige um passo anterior à semana de campo: a inscrição, que deve ser feita até o dia 13 de maio por meio de formulário disponível no Instagram do Instituto ConservAção Brasil. A organização orienta que o participante já defina, antes de se inscrever, o tipo de ação que pretende realizar, seja uma saída individual, uma atividade com escola, um grupo de produtores rurais ou uma expedição organizada por empresas e institutos.
Durante os dias da semana, o participante registra o que encontrar, planta, animal, fungo ou qualquer organismo vivo, e publica a fotografia no iNaturalist com a localização do avistamento. A plataforma, disponível para celular, tablet e computador, permite que outros usuários ao redor do mundo ajudem a identificar a espécie registrada, o que torna cada observação um dado cientificamente validado.
Contudo, participar não exige conhecimento técnico prévio. O iNaturalist possui uma função de identificação automática por inteligência artificial que sugere o nome da espécie a partir da foto enviada, facilitando o processo para quem está dando os primeiros passos na observação da natureza.
Uma aliança criada para durar
A ampBio foi fundada em 2025, durante o evento ConservAção Brasil, com a missão de unir pessoas em torno da biodiversidade nacional por meio de educação, cultura e produção de conhecimento. A aliança reúne nomes com trajetória consolidada no setor ambiental brasileiro: Enrico Tosto, presidente da Rede Brasileira de Naturalistas; Fábio Roque, coordenador do PPPBio Pantanal; e Celina Yoshirara e Nondas Okiama, diretores do Instituto ConservAção Brasil.
“O convite fica: para quem entende a importância, convoque e convença aqueles que ainda não entendem. Porque a partir do momento que você tiver 10 minutos tentando observar um passarinho ou qualquer outro animal, você vai ser encantado — é natural”, afirma Nondas Okiama, um dos idealizadores do projeto.
Por isso, a Semana Nacional da Biodiversidade não se limita ao público já engajado com a pauta ambiental. O esforço deliberado de inclusão de escolas, grupos comunitários e produtores rurais aponta para uma estratégia de longo prazo: ampliar a base de observadores, diversificar os territórios monitorados e construir uma cultura de relação com a natureza que vá além do período de uma semana.
“As pessoas precisam se permitir viver algo diferente. Esse momento de natureza é benéfico para nossa saúde mental e física — estamos falando de saúde única, e isso envolve a biodiversidade. Os dados que buscamos coletar podem resultar no desenvolvimento de políticas públicas e outras ações de pesquisa”, completa Okiama.
O Brasil abriga cerca de 20% de toda a biodiversidade do planeta, distribuída em seis biomas com características e pressões distintas. Dessa riqueza, porém, uma parte significativa ainda é pouco documentada, especialmente em regiões de difícil acesso ou com menor presença de instituições de pesquisa. Mutirões como esse têm o potencial de preencher lacunas que levam anos para serem supridas pela ciência convencional, e fazem isso com escala, velocidade e distribuição geográfica que nenhuma expedição científica isolada consegue replicar.
As inscrições para a Semana Nacional da Biodiversidade seguem abertas até 13 de maio, pelo Instagram do Instituto ConservAção Brasil.
