Um solo criado há séculos por povos pré-colombianos na Amazônia está no centro de uma das descobertas mais relevantes para o reflorestamento brasileiro dos últimos anos. Pequenas quantidades da chamada terra preta da Amazônia (TPA), aplicadas em mudas de ipê-roxo (Handroanthus avellanedae), foram suficientes para aumentar em até 88% o diâmetro do tronco e em 55% a altura das plantas nos primeiros 180 dias de campo, em comparação com mudas que não receberam o tratamento. Os resultados são de uma pesquisa conduzida por cientistas do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP), da Embrapa Amazônia Ocidental e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), publicada na revista científica BMC Ecology and Evolution.
O dado chama atenção não apenas pelo número, mas pelo que ele revela sobre a lógica do solo. A terra preta amazônica não superou os substratos convencionais porque tem mais fósforo, nitrogênio ou potássio. O diferencial está em algo menos visível e muito mais complexo: os microrganismos que ela carrega.
O solo que os povos antigos deixaram para trás
As terras pretas da Amazônia, também conhecidas como terras pretas de índio (TPI), são formações antrópicas resultado da ação de populações pré-colombianas que, ao longo de séculos, depositaram matéria orgânica, restos alimentares, ossos e fragmentos de carvão vegetal no solo. Esse processo acumulativo gerou um horizonte escuro, fértil e biologicamente ativo que contrasta radicalmente com os Latossolos e Argissolos predominantes na Amazônia, geralmente pobres em nutrientes e com alta acidez.
Hoje, essas formações são protegidas por lei e reguladas pelo Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGen), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. O uso direto é proibido, mas autorizado para fins científicos mediante aprovação formal, exatamente o caminho percorrido pelos pesquisadores para conduzir o experimento.
“Estudamos as terras pretas há mais de 20 anos e testamos diversas formas de uso. A ideia é entender o que elas têm de melhor para as árvores crescerem mais rápido e mais fortes em áreas degradadas”, afirma Tsai Siu Mui, professora do Cena-USP e coordenadora do projeto financiado pela FAPESP.
Fungos como protagonistas do crescimento
A pesquisa partiu de sementes de ipê-roxo e de paricá (Schizolobium amazonicum), cultivadas no viveiro da Embrapa Amazônia Ocidental, em Itacoatiara, no Amazonas, em dois tratamentos distintos: terra preta ou fibra de coco. Após 15 dias, as mudas foram transferidas para área de campo experimental em Manaus, plantadas diretamente no solo, sem adubação química, sem herbicidas e com manejo manual de plantas daninhas, recebendo apenas água da chuva. Seis meses depois, todas as plantas estavam vivas, mas as diferenças de desenvolvimento entre os dois grupos eram expressivas.
No paricá, espécie notoriamente adaptada a solos degradados, o crescimento também foi positivo, com aumento de 20% na altura e 15% no diâmetro do tronco. A resposta menor em relação ao ipê-roxo tem explicação técnica: por ser naturalmente mais tolerante a condições adversas, o paricá demanda menos da microbiota do solo para se desenvolver.
A análise microbiológica revelou que o fator determinante não foi a composição química do substrato, mas a diversidade e a qualidade dos fungos presentes. A adição de terra preta promoveu um aumento imediato da matéria orgânica disponível, o que favoreceu a proliferação de fungos decompositores capazes de ciclar os nutrientes com mais eficiência e torná-los acessíveis às raízes das plantas.
“O determinante não foi a quantidade de nutrientes em si, que não muda muito, mas os microrganismos, que eram bem diferentes, especialmente os fungos. Nas plantas tratadas com terra preta há uma reorganização da microbiota em torno das raízes, com um recrutamento mais eficiente de microrganismos benéficos e uma redução de patógenos”, explica Anderson Santos de Freitas, primeiro autor do estudo e doutor pelo Cena-USP com bolsa da FAPESP.
Essa reorganização da rizosfera, a camada de solo diretamente influenciada pelas raízes, é um dos aspectos mais significativos do trabalho. A TPA não apenas alimenta a planta: ela cria um ambiente microbiano favorável, recrutando aliados e suprimindo oportunistas.
Recuperação de áreas degradadas como horizonte prático
O experimento integra um projeto de pesquisa mais amplo sobre feedbacks planta-solo na floresta amazônica e em sistemas agrícolas no estado do Amazonas. O contexto não poderia ser mais estratégico: o Brasil detém o maior passivo de áreas desmatadas do mundo tropical, e a recuperação florestal de qualidade ainda esbarra em custos altos, baixo índice de sobrevivência das mudas e crescimento lento nas primeiras fases de estabelecimento.
Quando o desmatamento ocorre, sobretudo para formação de pastagens mal manejadas, o solo perde rapidamente sua biota funcional. A diversidade microbiana cai, os ciclos de nutrientes se interrompem e o terreno se torna progressivamente menos capaz de sustentar espécies florestais exigentes. É exatamente nesse ponto que a terra preta demonstra seu potencial como ferramenta de restauração.
“Quando se desmata, principalmente para pastagem, a tendência é que o solo seja mal manejado, o que leva a uma perda muito rápida de microrganismos e nutrientes. O objetivo é recuperar a floresta e os serviços ecossistêmicos nessas áreas”, destaca Tsai Siu Mui.
O ipê-roxo, espécie com ocorrência na Amazônia e na Mata Atlântica, é particularmente relevante nesse contexto. Além do valor ecológico como espécie nativa, a madeira do ipê tem expressivo valor econômico e pode integrar sistemas de exploração florestal sustentável, tornando o reflorestamento financeiramente viável para o produtor rural.
Da terra preta ao bioinsumo: o que vem depois
O experimento durou três anos no total. Os dados publicados correspondem aos primeiros 180 dias, e os pesquisadores já trabalham na análise do período completo, que deverá resultar em novos artigos. Paralelamente, o laboratório liderado por Tsai no Cena-USP acumula mais de 200 microrganismos isolados de amostras de terra preta coletadas ao longo de duas décadas de pesquisa. Cada um desses isolados está sendo analisado quanto à sua função específica no solo e nas plantas.
O objetivo de longo prazo é desenvolver soluções microbiológicas que possam ser reproduzidas em escala, seja por meio da síntese de inoculantes baseados nos fungos e bactérias identificados, seja pela compreensão dos processos que permitem recriar as condições da TPA em solos degradados. O uso direto das terras pretas continuará proibido e restrito à pesquisa científica autorizada, mas as respostas que elas carregam podem, no futuro, ser replicadas e aplicadas em programas de reflorestamento, recuperação de áreas de preservação permanente e sistemas agroflorestais em todo o território brasileiro.
