Existe uma contradição geográfica no coração de um dos projetos agroindustriais mais estratégicos do Brasil. O jaborandi é uma planta nativa de regiões úmidas da Amazônia, acostumada à sombra das árvores e às encostas inclinadas do Pará e do Maranhão. Hoje, parte significativa da aposta nacional de produção dessa espécie está instalada em uma fazenda plana de 66 hectares no semiárido do Piauí, sob temperaturas que chegam a 40 °C durante praticamente o ano inteiro.
Essa aparente contradição é, na prática, o centro da inovação. O projeto, desenvolvido pela Centroflora em parceria com a Unidade Embrapii Tecnologias em Química Verde, do Senai, busca ampliar a produção de jaborandi no Brasil e elevar o teor de pilocarpina, o principal ativo extraído da planta e um dos compostos farmacêuticos mais requisitados no mercado global. Desde o início das pesquisas, o investimento acumulado chega a R$ 2,5 milhões.
Por que a pilocarpina importa tanto
Quem nunca ouviu falar do jaborandi certamente já conviveu com alguém que usou um de seus derivados. A pilocarpina é o princípio ativo presente em colírios para glaucoma e em comprimidos indicados para xerostomia, condição caracterizada pela dificuldade de produzir saliva. Esse segundo uso é especialmente relevante para pacientes que passaram por tratamentos de radioterapia na região da garganta, uma complicação frequente após o tratamento de cânceres de cabeça e pescoço.
O composto integra medicamentos comercializados em cerca de 80 países, incluindo China, Japão, Coreia do Sul, Estados Unidos e boa parte da Europa. Para chegar às prateleiras das farmácias, ele precisa obedecer às exigências da farmacopeia internacional, o que impõe controle rigoroso durante toda a cadeia de extração e purificação.
“No fitoterápico, utiliza-se o extrato da planta quase diretamente como medicamento. No nosso caso, isolamos o princípio ativo. Para se ter uma ideia, de aproximadamente 60 toneladas de planta conseguimos extrair cerca de 250 quilos do produto puro”, explica Luciene Costa Vasconcelos, gerente industrial da Centroflora.
Isso significa que a eficiência do processo industrial começa muito antes da fábrica. A quantidade e a qualidade da pilocarpina extraída dependem diretamente de como a planta foi cultivada, manejada e colhida no campo.
A ciência de fazer o jaborandi crescer fora de casa
Adaptar uma planta ao ambiente oposto do seu habitat natural exige muito mais do que irrigação e fertilizantes. O jaborandi, no seu ambiente de origem, cresce sob sombra densa, em solos com composição biológica específica e com umidade constante. Em Parnaíba, no litoral do Piauí, nada disso existe de forma natural.
A solução encontrada pela equipe passou por um caminho que combina agronomia, química e microbiologia. Os pesquisadores coletaram amostras de solo tanto na fazenda piauiense quanto nas regiões nativas da espécie para entender como as diferenças químicas e biológicas do substrato influenciam o desenvolvimento da planta e, principalmente, a concentração de pilocarpina nas folhas.
“Um dos grandes desafios foi justamente adaptar essa planta a um ambiente completamente diferente do seu habitat original. Não basta apenas germinar a planta e colocá-la na terra. Era necessário entender também as condições biológicas e químicas do solo de origem e compará-las às da nossa região”, afirma Vasconcelos.
Uma das soluções práticas foi o uso de sombrite na fase inicial de cultivo, quando as mudas ainda permanecem nos tubetes. A estrutura reduz a intensidade do sol e permite uma adaptação gradual ao clima. Sem esse cuidado, até 70% das mudas podem morrer antes de se desenvolverem, segundo a gerente. O processo é lento por natureza: o teor de pilocarpina começa a subir de forma significativa apenas após um a dois anos no solo, com irrigação, adubação e manejo adequados. Atingir o índice considerado ideal, entre 0,7% e 1%, leva de dois a três anos.
O detalhe que define a produtividade
A colheita do jaborandi não é uma operação simples de cortar e processar. A pilocarpina se concentra principalmente nos 50 centímetros superiores da planta, o que torna a altura e a técnica da poda um fator determinante de produtividade. Uma poda mal executada não apenas reduz o rendimento, mas pode comprometer a sobrevivência das mudas menores.
O manejo correto tem ainda outro efeito interessante: estimula a planta a produzir mais ativo como resposta de defesa. “As podas funcionam como uma espécie de estímulo de defesa para a planta, fazendo com que ela produza mais ativo. Então existe todo um manejo gradual para acelerar esse processo”, explica Vasconcelos.
Dependendo da forma como o corte é realizado, a planta rebrota com mais galhos e forma uma touceira maior, o que amplia a superfície foliar disponível para a colheita seguinte. Esse conjunto de variáveis, incluindo altura do corte, adubação, irrigação e composição do solo, é exatamente o que a pesquisa em andamento busca sistematizar e otimizar.
De onde vem a matéria-prima hoje
A fazenda em Parnaíba ainda está em fase de implantação do cultivo. Por isso, a produção atual da Centroflora depende majoritariamente do extrativismo: cerca de 90% da matéria-prima vem da extração em áreas nativas e apenas 10% do plantio cultivado. Esse modelo, porém, é conduzido de forma estruturada, com contratos junto a cooperativas no Pará e no Maranhão, fornecedores qualificados e orientações técnicas para evitar danos às plantas nativas.
A escolha da região dos tabuleiros litorâneos do Piauí para sediar o projeto não foi aleatória. A área conta com incentivos do governo federal, disponibilidade de água, clima previsível e baixa ocorrência de eventos climáticos extremos como geadas, fatores que tornam o ambiente favorável a um cultivo de ciclo longo como o do jaborandi.
Plantas que há um ano e meio mediam cerca de 50 centímetros se aproximam hoje de um metro de altura, sinal de boa adaptação ao sistema de irrigação por pivô e às condições locais. O próximo passo do projeto é identificar os indivíduos com melhor adaptação e maior teor de pilocarpina para replicá-los em escala, acelerando a transição do extrativismo para o cultivo agroindustrial controlado.
O projeto ilustra com precisão o que acontece quando agronomia, química, biologia e biotecnologia trabalham sobre o mesmo problema. Uma espécie nativa brasileira, com mercado garantido em oito dezenas de países, ganha escala produtiva, rastreabilidade e valor agregado sem sair das fronteiras do país.
