Quando a Embrapa apresenta novas cultivares, o que está em jogo vai além da genética das plantas. Está em jogo a capacidade de o produtor brasileiro ocupar janelas de mercado que hoje pertencem ao produto importado ou simplesmente ficam vazias por falta de material adaptado. Foi com essa perspectiva que a empresa apresentou, durante o Dia de Campo para Jornalistas da AgroBrasília 2026, três lançamentos que chegam ao mercado com propostas complementares: dois trigos tropicais voltados a segmentos distintos da indústria e uma cultivar de cebola pensada para colheita justamente quando a oferta nacional escasseia.
O evento, realizado na manhã de 15 de maio no Parque Tecnológico Ivaldo Cenci, no PAD-DF, reuniu 15 representantes de veículos de imprensa e assessorias de comunicação. A AgroBrasília 2026 acontece de 19 a 23 de maio, com entrada franca, e os lançamentos acontecem na vitrine da Embrapa durante a feira.
Trigo no Cerrado: da farinha de pão ao biscoito salgado
O Brasil tem uma relação curiosa com o trigo. É o segundo maior importador do grão no mundo e, ao mesmo tempo, avança sistematicamente em pesquisas para adaptar a cultura ao clima quente e seco do Cerrado — uma fronteira que, até poucos anos, parecia improvável para a triticultura nacional. Os lançamentos BRS Savana e BRS Cracker são a expressão mais recente desse avanço.
“O trigo não é como o milho e a soja, que são vendidos por peso. Os moinhos exigem uma qualidade da farinha, e boa parte dessa qualidade começa com a cultivar”, explica Jorge Chagas, pesquisador da Embrapa Trigo, que participou da apresentação às equipes de imprensa.
A BRS Savana foi desenvolvida para panificação, destino de 80% de todo o mercado brasileiro de farinhas. Indicada para o cultivo de sequeiro após a soja, deve ser plantada para colheita em junho, período de baixa no fornecimento de outros grãos, o que abre espaço estratégico no calendário do produtor. O material já está sendo cultivado nas fazendas sem irrigação, o que reduz o custo de produção e amplia o perfil de adotantes.
A BRS Cracker segue uma lógica diferente e, por isso, é igualmente relevante. Voltada à produção de farinha para biscoitos e bolachas salgadas, a cultivar preenche um nicho que a indústria nacional mal consegue atender com material produzido domesticamente. O nome já diz tudo: cracker é como a bolacha salgada é conhecida em inglês, e a cultivar foi desenvolvida com as características técnicas específicas que os moinhos exigem para esse tipo de produto.
“É um material de nicho, os moinhos vão adquiri-lo sob encomenda”, afirma Chagas, destacando que a BRS Cracker é indicada para cultivo irrigado sob pivô central, com plantio em maio e colheita em setembro. O lançamento oficial das duas cultivares está marcado para 20 de maio, às 15h, na vitrine da Embrapa dentro da feira.
Durante a visita, os jornalistas também conheceram a BRS 264, atualmente o campeão de produtividade nacional, com registro de 160 sacas por hectare sob irrigação na propriedade de Paulo Bonato, em Cristalina (GO), e a BRS 404, voltada ao cultivo de sequeiro — um portfólio que mostra a amplitude da pesquisa com trigo tropical conduzida pela empresa.
A cebola que vale mais por chegar na hora certa
Se o trigo aposta na adaptação ao Cerrado como diferencial, a BRS Belatriz joga com o calendário. A nova cultivar de cebola desenvolvida pela Embrapa Hortaliças foi pensada para uma janela específica: o período de verão, que resulta em colheita entre maio e junho, justamente quando a oferta de cebola nacional cai e os preços sobem.
“A cebola BRS Belatriz tem plantio recomendado para o período verão, o que resulta na colheita dos bulbos por volta dos meses de maio e junho, época que é considerada entressafra no mercado. Com isso, os produtores conseguem obter um bom preço no mercado”, explica Raphael Melo, pesquisador da Embrapa Hortaliças, que apresentou a cultivar aos jornalistas durante o Dia de Campo.
Além do timing de mercado, a BRS Belatriz foi desenvolvida com atenção às condições climáticas adversas que caracterizam o período de cultivo. A resistência às altas temperaturas e umidades, combinada com boa tolerância às principais doenças da cultura, torna a cultivar viável em regiões onde o calor e a chuva costumam limitar a produção de cebola no verão. O resultado chega ao consumidor na forma de um produto de qualidade numa época em que o produto nacional costuma ser mais escasso e caro. O lançamento acontece no dia 21 de maio, às 10h, no estande da Embrapa.
Um portfólio mais amplo numa feira estratégica
Os três lançamentos são apenas a ponta de um portfólio extenso que a Embrapa apresenta na AgroBrasília 2026. Cultivares de arroz de terras altas, feijão, forrageiras, girassol, mandioca, maracujá, pitaya, soja e sorgo estão na vitrine, ao lado de sistemas integrados como o Fruticultura Integrada com Lavouras e Hortaliças (Filho) e consórcios de Integração Lavoura-Pecuária. A apresentação geral das tecnologias ficou a cargo do analista José Maria Camargos, da Embrapa Cerrados.
A AgroBrasília funciona das 8h30 às 18h, de 19 a 23 de maio, no Parque Tecnológico Ivaldo Cenci, na BR-251, km 5, no PAD-DF, com entrada franca ao público.
