Com a publicação no Diário Oficial do Estado na última segunda-feira (30), o governador Eduardo Corrêa Riedel sancionou a Lei nº 6.563, de 27 de março de 2026, que institui a juruva (Baryphthengus ruficapillus) como ave símbolo dos domínios da Mata Atlântica em Mato Grosso do Sul. A decisão oficializa um reconhecimento que já vinha sendo construído pela comunidade científica e por projetos de educação ambiental no Estado — e que agora ganha força institucional para pautar políticas de conservação.
A espécie não foi escolhida ao acaso. A juruva carrega características que a tornam uma representante legítima do bioma: dependente de florestas bem conservadas, sensível à fragmentação de habitat e com distribuição concentrada justamente nas regiões onde a Mata Atlântica ainda resiste em Mato Grosso do Sul.
Uma espécie que exige floresta de verdade
A juruva pertence à família Momotidae e se distingue visualmente pela combinação de cores intensas — dorso esverdeado, ventre alaranjado, máscara negra e manchas escuras no peito. Mas o que torna essa ave especialmente relevante do ponto de vista ecológico é o seu comportamento alimentar e reprodutivo, ambos diretamente atrelados à qualidade do ambiente florestal.
A espécie se alimenta de frutos, insetos e pequenos vertebrados, desempenhando papel ativo na dispersão de sementes dentro da floresta. Para nidificar, escava túneis em barrancos de terra, o que exige a presença de bordas naturais e solos expostos em ambientes protegidos. Qualquer perturbação intensa no habitat compromete diretamente o seu ciclo reprodutivo.
Predominante nas regiões Sudeste e Sul do Brasil, a juruva também registra populações em Mato Grosso do Sul, Bahia e Goiás, sempre associada a remanescentes florestais mais estruturados. A presença da espécie em uma área funciona, na prática, como um indicador da qualidade da cobertura vegetal local — o que reforça o valor simbólico e científico da escolha.
Do projeto de votação à lei estadual
A trajetória da juruva até a sanção da lei passou por um processo participativo relevante. Em junho de 2025, a espécie foi selecionada como símbolo da Mata Atlântica sul-mato-grossense por meio de votação conduzida pelo projeto “Amigos e Amigas das Aves”, iniciativa coordenada pela UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) em parceria com outras instituições.
Esse tipo de mobilização tem peso real na construção da consciência ambiental regional. Quando uma comunidade participa da escolha de um símbolo, ela passa a reconhecê-lo como parte da sua identidade — e tende a reagir com mais engajamento diante de ameaças ao habitat da espécie escolhida.
“A Mata Atlântica de Mato Grosso do Sul é um fragmento isolado e extremamente vulnerável. Tornar uma espécie dependente desse bioma um símbolo oficial é uma forma de dar visibilidade política a um ecossistema que ainda carece de proteção efetiva”, destaca o ornitólogo Luís Fábio Silveira, curador do Museu de Zoologia da USP e referência nacional no estudo de aves brasileiras.
O que muda na prática com a lei
A Lei nº 6.563 vai além do reconhecimento simbólico. O texto prevê que o Poder Executivo estadual poderá adotar medidas concretas para divulgar e utilizar o símbolo em campanhas educativas, materiais institucionais e eventos ligados ao meio ambiente. Aliás, a legislação explicita o objetivo de incentivar a educação ambiental, estimular pesquisas sobre a fauna regional e ampliar a atenção para a preservação da ave e do seu habitat.
Na prática, isso abre caminho para que a imagem da juruva passe a integrar comunicações oficiais do Estado, projetos pedagógicos nas escolas e iniciativas de turismo de observação de aves — segmento que cresce de forma consistente no Brasil e que pode gerar renda para comunidades próximas a remanescentes de Mata Atlântica.
“Quando uma espécie ganha reconhecimento legal, ela passa a ter mais chances de ser incluída em planos de manejo, programas de monitoramento e até em critérios para licenciamento ambiental. O símbolo vira argumento técnico e jurídico”, explica o biólogo Jean Paul Metzger, professor da USP e um dos principais pesquisadores brasileiros em ecologia de paisagem e fragmentação da Mata Atlântica.
Mata Atlântica em MS: um bioma que pede atenção
Mato Grosso do Sul abriga remanescentes da Mata Atlântica principalmente na sua porção leste e sul, em uma faixa que cruza municípios como Dourados, Ivinhema e Mundo Novo. Esses fragmentos representam uma das fronteiras mais pressionadas do bioma, cercados pela expansão agrícola e pela urbanização.
A Mata Atlântica já perdeu mais de 85% da sua cobertura original em todo o Brasil. O que restou está, em grande parte, fragmentado em pequenas manchas isoladas, o que dificulta o fluxo genético entre populações de espécies como a própria juruva. Nesse contexto, a criação de corredores ecológicos e a manutenção de áreas de preservação permanente nas margens de rios e topos de morro são medidas indispensáveis para garantir a sobrevivência da espécie a longo prazo.



