A doença mais temida da maçã brasileira tem pesquisadores catarinenses na sua caça

Estação Experimental da Epagri em Caçador combina análise genética avançada, novos fungicidas e tecnologia de pulverização para enfrentar a Mancha Foliar de Glomerella

A doença mais temida da maçã brasileira tem pesquisadores catarinenses na sua caça

Foto: Pablo Gomes / Epagari

Santa Catarina responde pela maior fatia da produção nacional de maçã, e boa parte desse resultado sai do Meio-Oeste catarinense, especificamente da região de Caçador. Manter essa liderança, porém, exige enfrentar um adversário persistente: a Mancha Foliar de Glomerella, doença fúngica que ataca as macieiras no verão, provoca queda prematura de folhas e compromete diretamente a produtividade e a rentabilidade dos pomares.

Para combatê-la com mais eficiência, a Estação Experimental da Epagri em Caçador concentra hoje uma das pesquisas mais completas já desenvolvidas sobre o tema no país.

Uma frente de batalha, três estratégias simultâneas

O trabalho dos cientistas da Epagri avança em três direções ao mesmo tempo. A primeira é a busca por novas moléculas capazes de controlar o fungo causador da doença, testando tanto substâncias inéditas quanto fungicidas já existentes com o objetivo de aumentar a eficiência no campo. A segunda envolve tecnologia de aplicação: novos atomizadores e pulverizadores, incluindo modelos de torre, estão sendo testados para reduzir o volume de calda utilizado nas lavouras e melhorar a cobertura dos pomares. A terceira, e talvez a mais estrutural, é a pesquisa genética — o caminho mais longo, mas com o maior potencial de transformar definitivamente a forma como a maçã brasileira é cultivada.

A variedade Gala, a mais produzida e comercializada no Brasil, é também a mais vulnerável à Mancha Foliar de Glomerella, o que torna a pressão sobre os produtores ainda mais intensa durante os meses quentes.

“É uma doença preocupante e que prejudica muito a produtividade e a rentabilidade do produtor. Por isso, a partir do momento em que os nossos estudos começarem a ter resultado, vamos tentar incorporar ao manejo para facilitar a vida dos produtores, tornando a atividade mais sustentável”, afirma o engenheiro-agrônomo e pesquisador Claudio Ogoshi.

Dentro dos genes da resistência

A fronteira mais avançada da pesquisa está na análise transcriptômica de macieiras resistentes à doença. A técnica permite mapear o perfil de expressão de todos os genes envolvidos na resposta da planta ao ataque do fungo, identificando com precisão os mecanismos de defesa ativados em cada estágio da infecção. Trata-se de uma das abordagens mais rápidas e confiáveis disponíveis hoje para esse tipo de investigação biológica.

O objetivo é ir além do que já existe. Atualmente, as variedades com resistência à Mancha Foliar de Glomerella contam com a proteção de um único gene, o que limita a durabilidade dessa resistência ao longo do tempo. A proposta da Epagri é identificar outros genes envolvidos nesse processo e, por meio de melhoramento clássico — com hibridações e seleção de plantas resistentes — reunir todos eles em um único cultivar novo, mais robusto e duradouro.

“Hoje a gente trabalha com uma resistência de um único gene, e isso faz com que a durabilidade desta resistência possa não ser tão longa. Então, o nosso objetivo é tentar descobrir outros genes relacionados à resistência a esta doença. Assim, conseguiremos incluir todos estes genes num único novo cultivar de macieira via melhoramento clássico, fazendo hibridações e seleção das plantas resistentes”, explica o engenheiro-agrônomo e pesquisador Marcus Vinícius Kvitschal.

O que muda para o produtor

O impacto prático de um cultivar com resistência forte e duradoura vai muito além da questão fitossanitária. Hoje, o controle da Mancha Foliar de Glomerella exige um número elevado de aplicações de fungicidas ao longo da safra, o que representa custo operacional significativo, maior exposição de trabalhadores a produtos químicos e pressão ambiental sobre os pomares. Um cultivar geneticamente resistente reduziria de forma expressiva essa dependência de insumos, tornando o cultivo mais simples, mais barato e com menor pegada ambiental.

É exatamente essa equação que motiva o projeto. “A Mancha Foliar de Glomerella é a doença mais terrível para o setor da maçã brasileira. É extremamente grave, agressiva e de difícil controle. Não existe forma mais fácil e barata de controlar uma doença numa planta do que via resistência genética. É muito mais fácil, barato e sustentável trabalhar com cultivares resistentes. E este é o propósito do projeto que estamos desenvolvendo”, conclui Marcus Kvitschal.

A pesquisa de Caçador representa, portanto, uma aposta de longo prazo na competitividade de toda a cadeia produtiva da maçã brasileira — da lavoura à prateleira. O caminho é exigente, como toda pesquisa de melhoramento genético inevitavelmente é, mas o destino aponta para uma fruticultura catarinense mais resiliente, rentável e preparada para sustentar sua posição de referência nacional.

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