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Megapragas híbridas no Brasil acendem alerta global para a soja e o milho

by Redação Agronamidia
27 de janeiro de 2026
in Noticias
Megapragas híbridas no Brasil acendem alerta global para a soja e o milho

A agricultura brasileira, reconhecida por sua alta produtividade e protagonismo na exportação de grãos, volta ao centro das discussões científicas internacionais. Uma reportagem recente destacou a evolução de linhagens híbridas de duas das principais pragas agrícolas do mundo — um fenômeno que, além de impactar o campo nacional, pode ter repercussões diretas na segurança alimentar global.

As espécies envolvidas, a lagarta-da-espiga-do-milho (Helicoverpa zea) e a lagarta-da-maçã-do-algodoeiro (Helicoverpa armigera), já são conhecidas pelo potencial destrutivo e pela ampla gama de culturas que atacam. Entretanto, análises genéticas mais recentes revelaram que essas duas mariposas não apenas coexistem em território brasileiro, como também passaram a trocar material genético — inclusive genes associados à resistência a pesticidas.

O avanço silencioso da resistência

A soja cultivada no Brasil é majoritariamente transgênica e carrega proteínas derivadas da bactéria Bacillus thuringiensis (Bt), desenvolvidas justamente para controlar insetos-praga. Essa tecnologia foi decisiva para reduzir perdas nas últimas décadas. Contudo, a pressão seletiva constante favoreceu a emergência de populações resistentes.

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Estudos conduzidos por pesquisadores da Universidade de Cambridge e da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ) analisaram quase mil mariposas coletadas ao longo de dez anos no Brasil. Os resultados indicam que parte significativa da H. armigera já carrega genes de resistência à toxina Bt originalmente associados à H. zea.

“As cepas híbridas que estão evoluindo a partir desse cruzamento podem devastar a soja e outras culturas no Brasil e em todo o mundo se não forem controladas, ameaçando a segurança alimentar global,” aponta a reportagem internacional ao comentar os dados.

Além disso, a transferência genética não ocorreu apenas em uma direção. Quase todos os exemplares brasileiros de H. zea apresentam hoje um gene ligado à resistência a inseticidas piretroides — característica associada à H. armigera. Essa troca bidirecional acelera a adaptação das pragas aos sistemas de controle disponíveis.

“Estamos impressionados com a rapidez com que isso aconteceu,” afirmou o professor Chris Jiggins, da Universidade de Cambridge, destacando a velocidade com que os genes de resistência se disseminaram entre as populações.

Hibridização e seus desdobramentos

Durante anos, acreditava-se que as duas espécies não se cruzavam naturalmente. Entretanto, evidências genômicas publicadas recentemente confirmaram a existência de híbridos viáveis no Brasil. Essa descoberta amplia o debate sobre a capacidade adaptativa das chamadas “megapragas”, classificadas assim pelo alcance geográfico, diversidade alimentar e dificuldade de controle.

A H. armigera, detectada no país em 2013, possui histórico de danos severos na Europa e na Ásia, especialmente em lavouras de soja e algodão. Já a H. zea, tradicionalmente associada ao milho na América do Norte, passou a dividir o território brasileiro com a espécie aparentada. A convivência em ambientes agrícolas extensivos, marcada pelo uso contínuo de tecnologias Bt, criou condições ideais para a troca genética.

Entretanto, especialistas reforçam que a hibridização é apenas parte do problema. A evolução independente dentro de cada espécie também contribui para o surgimento de linhagens resistentes, mesmo sem cruzamentos.

O desafio do manejo sustentável

Diante desse cenário, empresas de biotecnologia trabalham no desenvolvimento de novas variedades transgênicas capazes de produzir múltiplas proteínas Bt, ampliando o espectro de controle. Contudo, esse processo é lento e envolve altos custos regulatórios e de pesquisa.

“Mas levar esses novos produtos ao mercado é caro e lento, então é melhor manter a eficácia das proteínas Bt atuais com táticas de manejo da resistência, incluindo áreas de refúgio contra a exposição a culturas Bt,” defende Bruce Tabashnik, da Universidade do Arizona.

O conceito de refúgio — que prevê o plantio de áreas com cultivares não transgênicas ao lado das transgênicas — busca preservar populações suscetíveis e reduzir a pressão seletiva. Entretanto, a adesão a essa prática ainda é irregular em diversas regiões produtoras.

Impacto além das fronteiras

A agricultura brasileira responde por parcela significativa do comércio global de soja e milho. Por isso, alterações no equilíbrio fitossanitário interno têm reflexos diretos no abastecimento internacional. Além das perdas produtivas, o aumento do uso de defensivos para conter linhagens resistentes pode elevar custos e pressionar cadeias de exportação.

Por outro lado, pesquisadores destacam que o monitoramento genético contínuo é uma ferramenta essencial para antecipar cenários e ajustar estratégias de manejo. A rápida identificação de híbridos demonstra avanço científico, mas também evidencia a complexidade do sistema agrícola contemporâneo, no qual tecnologia, biologia evolutiva e práticas de campo caminham interligadas.

Assim, o surgimento dessas linhagens híbridas não representa apenas um desafio pontual, mas um sinal de que a dinâmica evolutiva das pragas acompanha — e por vezes supera — a velocidade das inovações agrícolas. O debate, portanto, vai além do controle imediato e envolve planejamento estratégico de longo prazo para garantir produtividade, sustentabilidade e segurança alimentar.

Fonte: https://www.newscientist.com/article/2512265-hybrid-megapests-evolving-in-brazil-are-a-threat-to-crops-worldwide/

  • Redação Agronamidia

    A Redação Agronamidia é composta por uma equipe multidisciplinar de jornalistas, analistas de mercado e especialistas em comunicação rural. Nosso compromisso é levar informações precisas, técnicas e atualizadas sobre os principais pilares do agronegócio brasileiro: da economia das commodities à inovação no campo e sustentabilidade ambiental. Sob a gestão da Editora CFILLA, todo o conteúdo passa por um rigoroso processo de curadoria e verificação de fatos, garantindo que o produtor rural e os profissionais do setor tenham acesso a notícias com alto valor estratégico e rigor técnico.

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