A mecanização da agricultura familiar esbarrou por décadas no mesmo obstáculo: o custo de aquisição de tratores e equipamentos agrícolas está fora do alcance de grande parte dos pequenos produtores brasileiros, especialmente no Nordeste. A resposta para esse gargalo pode estar na garagem de quem já tem uma motocicleta.
O pesquisador Odilon Reny Ribeiro, da Embrapa Algodão, desenvolveu uma adaptação que transforma a moto comum em um mini trator funcional, capaz de acionar diferentes implementos e executar praticamente todas as atividades da lavoura. A solução foi um dos destaques da primeira edição da Feira Nacional de Máquinas e Tecnologias para Agricultura Familiar, realizada na Expo Dom Pedro, em Campinas (SP).
“Esse equipamento substitui a tração animal e transforma a moto em uma fonte de potência. Com essa adaptação, é possível trabalhar com diferentes implementos e atender praticamente todas as atividades da lavoura. É uma inovação que já vem sendo utilizada por agricultores e que atende à demanda por mecanização, já que muitos não têm condições financeiras de adquirir um trator”, explica Odilon Reny Ribeiro.
A lógica por trás da adaptação
A proposta parte de um diagnóstico direto do campo: a motocicleta já é um bem presente na rotina de milhões de agricultores familiares, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. Converter esse equipamento em fonte de tração agrícola significa aproveitar um investimento que o produtor já fez, sem exigir a aquisição de nova máquina de grande porte.
Com a adaptação desenvolvida pela Embrapa, a moto passa a operar como um pequeno trator, conectada a implementos que permitem realizar operações de preparo do solo, cultivo e outras demandas da propriedade. O resultado prático é a redução do tempo e do esforço físico nas atividades de campo, ao mesmo tempo que os custos operacionais são contidos, algo que, para o agricultor familiar, define a diferença entre a viabilidade e o abandono da atividade.
A solução se encaixa em um contexto mais amplo de demanda por mecanização leve e acessível. Tratores de baixa potência, pulverizadores compactos e versões elétricas de equipamentos também marcaram presença na feira, todos projetados para atender uma realidade produtiva que difere profundamente das grandes propriedades do agronegócio consolidado.
Colheita de açaí com tecnologia e mais segurança
Outro equipamento que chamou atenção no evento reforça a mesma lógica de inovação voltada à redução de custos e riscos: uma colheitadeira de açaí desenvolvida pela empresa Kaatech para produtores da região amazônica. A colheita tradicional do açaí é realizada manualmente, em altura elevada, com esforço físico intenso e exposição constante a acidentes, um cenário que limita tanto a produtividade quanto a inclusão de diferentes perfis de trabalhadores.
“Há cinco anos desenvolvemos pesquisas na Amazônia para chegar a esse equipamento, enfrentando os desafios da colheita, como o risco e o esforço físico. A tecnologia reduz a penosidade do trabalho, diminui a exposição a acidentes e também contribui para reduzir o trabalho infantil, além de permitir a inclusão da mão de obra feminina”, afirma Marcelo Feliciano, CEO da Kaatech.
Os números de produtividade confirmam o impacto. Com o equipamento, a colheita pode saltar de aproximadamente 120 kg por período para até 500 kg, com potencial de chegar a 1 tonelada por dia em condições favoráveis. Para o produtor amazônico, esse ganho representa não apenas mais receita, mas também a possibilidade de escalar a operação sem depender exclusivamente de mão de obra escassa e de alto risco.
