Uma trepadeira lenhosa sem espinhos, com folhas em formato de coração e frutos dispersos pelo vento. Essas características definem a Machaerium guidone, nova espécie de planta descrita por pesquisadores brasileiros a partir de análises de coleções científicas e expedições realizadas entre 2020 e 2023. O estudo foi publicado em abril de 2026 na revista Kew Bulletin, referência internacional em taxonomia vegetal.
A espécie ocorre em cinco estados do Nordeste e em Minas Gerais, sempre em áreas de Caatinga ou em zonas de transição com o Cerrado. Além de ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade do semiárido, a descoberta traz uma homenagem direta à arqueóloga Niède Guidon, cuja trajetória está entrelaçada à preservação do Parque Nacional da Serra da Capivara, onde um dos exemplares foi coletado.
Ausência de espinhos revela diferencial morfológico
A Machaerium guidone pertence à família das leguminosas e se destaca por características que a diferenciam de outras espécies do gênero. Os ramos cilíndricos não apresentam espinhos, estrutura comum em trepadeiras que utilizam essa adaptação para se fixar em plantas vizinhas. As folhas compostas reúnem entre 9 e 13 folíolos, com textura firme e base levemente arredondada.
“Um dos aspectos que me chamou a atenção logo no início foi a beleza dessa espécie”, observa Valner Matheus Milanezi Jordão, doutorando da Escola Nacional de Botânica Tropical do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro e um dos autores do estudo. “As trepadeiras geralmente apresentam espinhos para se agarrar em outras plantas, e essa não tem, sendo uma característica bem marcante”, ressalta.
As flores são pequenas e de coloração clara, enquanto os frutos do tipo sâmara possuem estrutura alada que permite a dispersão pelo vento. Dessa forma, a espécie não depende de animais para espalhar suas sementes, adaptação que favorece sua ocorrência em ambientes de vegetação sazonal seca, como florestas decíduas e áreas de carrasco.
A floração acontece entre outubro e janeiro, período que antecede as chuvas no semiárido. Já a frutificação se estende de fevereiro a agosto, acompanhando o regime climático da região e garantindo que os frutos amadureçam durante a estação mais seca, quando os ventos são mais intensos.
Coleções científicas revelam registros dispersos
O primeiro indício da nova espécie surgiu em 2020, durante análise de materiais depositados no herbário da Universidade de Brasília. Na época, Matheus desenvolvia seu mestrado na Universidade Estadual Paulista e estudava outro grupo vegetal dentro do mesmo gênero. Ao examinar exemplares coletados ao longo de anos por diferentes pesquisadores, identificou características que não correspondiam a nenhuma espécie já descrita.
“Começamos a olhar esses materiais que os pesquisadores coletaram ao longo de vários anos e achamos essa espécie, mas não havia nomes, nem uma descrição específica. Ela estava ali na coleção, mas ainda não tinha sido descrita”, explica o pesquisador. A confirmação veio após contato com Fabiana Luiza Ranzato Filardi, também pesquisadora do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, que já trabalhava com espécies do mesmo grupo.
Entre 2020 e 2022, o trabalho avançou com a comparação dos exemplares depositados em herbários de diferentes regiões do país. A revisão incluiu análise de fotografias disponibilizadas em plataformas digitais que reúnem acervos de instituições científicas brasileiras. “Começamos a olhar foto por foto para ver se achávamos essa espécie de novo. Fomos encontrando registros em diferentes lugares do país”, conta Matheus.
Esse levantamento mostrou que a planta já havia sido coletada anteriormente em estados como Piauí, Bahia, Ceará, Maranhão e Minas Gerais, porém permanecia sem identificação adequada. Em 2023, durante trabalho de campo na Bahia, foi possível observar a espécie em seu ambiente natural e registrar flores, frutos e outras características morfológicas que confirmaram a descrição.
Chave de identificação organiza espécies da Caatinga
A etapa final do estudo envolveu a elaboração de uma chave de identificação para as 14 espécies do gênero Machaerium que ocorrem na Caatinga. Essa ferramenta auxilia na diferenciação entre espécies a partir de aspectos morfológicos, como hábito de crescimento, presença ou ausência de espinhos, número de folíolos e características dos frutos.
A chave é o coração desse tipo de trabalho científico. “Esse material é o que irá referenciar a espécie. É após a análise conjunta da chave e do material-tipo que um novo exemplar encontrado pode ser identificado como pertencente a uma determinada espécie ou não, de acordo com a apresentação de características compatíveis com aquilo que é descrito”, explica Matheus.
O material-tipo, depositado em herbário, serve como referência permanente para futuras identificações e estudos. No caso da Machaerium guidone, o exemplar escolhido foi coletado na Serra da Capivara, região que concentra não apenas riqueza biológica, mas também patrimônio arqueológico de relevância internacional.
Conservação favorável no semiárido
Apesar de recém-descrita, a espécie apresenta situação favorável do ponto de vista da conservação. Foi classificada na categoria de menor preocupação, segundo critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza. A ocorrência em diferentes estados e ambientes reduz, por enquanto, o risco de extinção.
“Essa espécie não está ameaçada, e isso é uma coisa muito boa, porque não é algo muito frequente. Muitas vezes a gente descobre espécies que já estão em risco”, ressalta Matheus. Ainda assim, os pesquisadores destacam que avaliações podem mudar com o tempo, especialmente diante da pressão sobre áreas naturais da Caatinga e do avanço de atividades antrópicas sobre zonas de vegetação nativa.
A presença da espécie em unidades de conservação, como o Parque Nacional da Serra da Capivara, contribui para sua proteção e permite que novos estudos sejam realizados em ambientes preservados.
Nome que reconhece ciência e território
A escolha do nome guidone é uma homenagem à arqueóloga Niède Guidon, cuja trajetória está profundamente ligada à preservação e à valorização da Serra da Capivara. Foi nessa região que o exemplar utilizado como material-tipo foi coletado, reforçando a conexão entre a descoberta botânica e o território que Niède ajudou a proteger.
“Foi uma escolha também política, de reafirmar a importância dela e da Serra da Capivara. É uma região muito rica, tanto do ponto de vista cultural quanto biológico”, afirma Matheus. A ideia de prestar a homenagem surgiu ainda quando a arqueóloga estava viva, porém o artigo acabou sendo publicado posteriormente, transformando a nomeação em uma homenagem póstuma.
Para os pesquisadores responsáveis pela descrição, nomear uma espécie também é uma forma de reconhecer trajetórias que ajudaram a construir o conhecimento científico no país e valorizar territórios que continuam revelando novas descobertas. A Serra da Capivara, conhecida mundialmente por suas pinturas rupestres e vestígios arqueológicos, agora integra também a história botânica brasileira com uma espécie que leva o nome de quem dedicou décadas à sua proteção.
