Uma pesquisa realizada em Minas Gerais confirmou a existência de uma nova espécie de libélula no Brasil. O registro ocorreu dentro do Parque Estadual do Pico do Itambé, unidade de conservação situada entre Diamantina e Serro, no Vale do Jequitinhonha. A identificação amplia o conhecimento sobre a biodiversidade do estado e reforça o papel estratégico das áreas protegidas na geração de ciência de ponta.
A espécie foi batizada de Hetaerina giselae e pertence ao grupo das chamadas donzelinhas, insetos aquáticos que dependem de ambientes com água limpa e boa qualidade ambiental. Não é um detalhe trivial. A presença dessas espécies costuma indicar equilíbrio ecológico e integridade dos cursos d’água.
O trabalho começou no campo. Durante coletas realizadas em riachos, cachoeiras e trechos de vegetação marginal do parque, os pesquisadores perceberam algo fora do padrão. As libélulas coletadas apresentavam pequenas variações quando comparadas a espécies já descritas para a região. Diferenças discretas, mas consistentes.
No universo das libélulas, a morfologia da genitália do macho é determinante para separar espécies próximas. Estruturas mínimas, quase imperceptíveis a olho leigo, funcionam como assinatura biológica. Foi exatamente nesse ponto que o alerta se confirmou. “Foi possível identificar a diferenciação da genitália, o que permitiu confirmar que se tratava de uma espécie distinta das já conhecidas”, explicou o pesquisador Marcos Magalhães de Souza.
Mas a equipe não se limitou à análise anatômica. O material coletado passou por sequenciamento genético. Os exames de DNA corroboraram as diferenças morfológicas observadas em laboratório, eliminando dúvidas e consolidando o reconhecimento científico da nova espécie. Morfologia e genética convergiram para o mesmo resultado.
A descrição formal foi publicada em revista científica internacional especializada e inclui tanto indivíduos adultos quanto a fase larval. Esse ponto é relevante, porque muitos registros históricos de insetos carecem de dados sobre o estágio imaturo, o que dificulta comparações futuras e revisões taxonômicas. Ao incluir o ciclo completo, o estudo reduz margens de incerteza e fortalece o banco de dados científico.
Embora as libélulas sejam consideradas um grupo relativamente bem documentado, áreas preservadas continuam revelando espécies ainda não descritas. O Pico do Itambé, com seus campos rupestres, fragmentos de Mata Atlântica e cursos d’água bem conservados, cria um mosaico ecológico que favorece a diversidade. É nesse tipo de ambiente que a ciência avança.
O registro de Hetaerina giselae não representa apenas a adição de um nome à lista da fauna brasileira. Ele evidencia que, mesmo em biomas já estudados, ainda há lacunas. E elas só são preenchidas quando há conservação efetiva aliada à pesquisa contínua.
Foto: Tomas Dias Oliveira/divulgação IEF