RS domina 90% da produção nacional de noz-pecã e aposta na irrigação para consolidar liderança em 2026

Abertura oficial da safra em Nova Pádua reuniu produtores, pesquisadores e autoridades para debater irrigação, custos e o potencial de inserção da cultura no mercado internacional

RS domina 90% da produção nacional de noz-pecã e aposta na irrigação para consolidar liderança em 2026

A safra 2026 da noz-pecã no Rio Grande do Sul começou oficialmente nesta sexta-feira (8), na propriedade da família Marostica, em Nova Pádua, na Serra Gaúcha. A expectativa é de que o estado produza até 8 mil toneladas — e o ato simbólico que marcou a abertura foi apenas o ponto de partida de uma extensa programação técnica que colocou em pauta os temas que mais preocupam e animam os pecanicultores gaúchos: irrigação, rentabilidade e acesso a mercados.

O evento reuniu produtores, pesquisadores, técnicos e representantes de órgãos públicos ligados à cadeia da nogueira-pecã. Na mesma ocasião, a Embrapa lançou o livro Nogueira-pecã, obra com contribuição de 82 autores e que já está disponível gratuitamente na versão digital. A edição impressa será apresentada durante o Encontro Nacional de Pecanicultura (Enapecan), em novembro, em Bento Gonçalves.

Irrigação: de custo a investimento estratégico

O tema que dominou as discussões do dia foi a irrigação. Não por acaso. O professor Ezequiel Saretta, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), campus Cachoeira do Sul, apresentou comparativos entre pomares irrigados e não irrigados que deixaram pouca margem para dúvidas sobre o impacto da tecnologia nos resultados da cultura.

“Tudo depende da água: adubação, produção e safras subsequentes. Um pomar bem irrigado desde o início ajuda a diminuir a alternância de produção ao longo dos anos”, afirmou Saretta, pesquisador com vasta produção científica sobre os efeitos da irrigação na nogueira-pecã no Rio Grande do Sul.

A propriedade que recebeu a abertura da colheita é, ela mesma, um caso concreto dessa transformação. Arlindo Marostica apresentou os resultados que a família alcançou após adotar o sistema de irrigação no pomar, reforçando na prática o que os dados mostram no campo experimental. A experiência ilustrou com clareza o que os especialistas defendem: o investimento em manejo hídrico retorna em produtividade, qualidade de fruta e estabilidade entre safras.

Jaceguay Bastos, diretor técnico do Instituto Brasileiro de Pecanicultura (IBPecan), contextualizou a discussão ao lembrar que a adoção da irrigação não é uma fórmula única. “O planejamento adequado do sistema de irrigação influencia diretamente a qualidade da fruta e o desempenho produtivo em diferentes ciclos da cultura, sejam precoces, médios ou tardios”, disse Bastos, reforçando que variáveis como tipo de solo e condições climáticas locais precisam ser consideradas antes de qualquer decisão de implantação.

Números que sustentam a viabilidade

Além da técnica, a abertura da colheita também teve espaço para a análise econômica da atividade. Eduardo Basso, ex-presidente do IBPecan, apresentou um painel com dados de custos de produção, produtividade e preços praticados no mercado. A conclusão apontou para uma relação direta: quanto mais tecnologia aplicada — com a irrigação no topo da lista —, mais consistente tende a ser a margem financeira obtida pelo produtor.

O presidente do IBPecan, Claiton Wallauer, avaliou que o aumento do interesse pela pecanicultura no estado reflete um amadurecimento real da cadeia produtiva. Segundo ele, a entidade tem atuado de forma ativa na disseminação de informações técnicas e no fortalecimento do setor, tanto no Rio Grande do Sul quanto no Brasil.

Rio Grande do Sul, protagonista nacional

Os dados apresentados durante o evento confirmam o peso do estado no cenário nacional. O Rio Grande do Sul responde por cerca de 90% de toda a produção brasileira de noz-pecã — uma concentração que coloca o estado em posição estratégica para qualquer movimentação de mercado, seja doméstica ou internacional.

O secretário da Agricultura do RS, Márcio Madalena, destacou o potencial da cultura para avançar em acordos comerciais internacionais, ampliando a presença da noz gaúcha além das fronteiras nacionais. Madalena também reforçou o papel do programa Irriga+RS, que oferece subvenção para a implantação de sistemas de irrigação nas propriedades rurais. Os próprios Arlindo e Vânia Marostica, anfitriões do evento, estão entre os beneficiários da iniciativa.

A abertura oficial da colheita foi promovida pelo IBPecan, pela Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul e pelo programa Pró-Pecã, com apoio da Emater e da Embrapa — uma articulação que mostra o quanto a pecanicultura gaúcha deixou de ser uma aposta para se tornar uma política.

  • Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em agronegócio. Acompanha de perto as principais pesquisas, tecnologias e movimentos de mercado que impactam produtores rurais brasileiros, com base em fontes institucionais como Embrapa, Cepea/Esalq, MAPA e IBGE.

    E-mail:  contato@agronamidia.com.br

Sair da versão mobile