O pássaro todo preto que caça gafanhotos em bando e nunca cobra nada pelo serviço

Com técnica de caça coletiva única entre as aves brasileiras, o Crotophaga ani atua como agente natural de controle de insetos em áreas abertas e é presença constante nas paisagens agrícolas do Sul do Brasil

O pássaro todo preto que caça gafanhotos em bando e nunca cobra nada pelo serviço

Um bando de até 15 aves se espalha silenciosamente pelo solo em formação de semicírculo. Cada indivíduo fica a dois ou três metros do vizinho. O grupo avança devagar, imóvel e atento, até que um gafanhoto se mexe. A ave mais próxima salta, captura a presa e o bando avança novamente. A cena se repete até a área estar varrida. Esse é o anu-preto (Crotophaga ani) em ação, e essa estratégia de caça coletiva não custa um centavo ao produtor rural.

O Rio Grande do Sul responde por cerca de 70% da produção nacional de arroz, cultura historicamente vulnerável a pragas de insetos. As lavouras irrigadas do estado enfrentam o gorgulho-aquático, o percevejo-do-grão e, em momentos de surto, nuvens migratórias de gafanhotos vindas da Argentina e do Paraguai. Em 2020, a pressão foi tão intensa que o governo federal declarou estado de emergência fitossanitária nos estados do Sul. Nesse cenário, entender o papel das aves insetívoras presentes nesses ambientes é também uma questão econômica.

Gafanhoto não escapa: a precisão do bando em campo

O anu-preto não caça sozinho. Quando não há gado no pasto para auxiliar na captura, o bando organiza a caça no solo em formação de semicírculo, com os indivíduos distantes dois a três metros entre si. O grupo avança lentamente até que um inseto se movimente. A ave mais próxima salta sobre a presa. Depois de um intervalo, o bando avança novamente, varrendo a área de forma sistemática.

Essa tática, documentada em registros de campo da avifauna brasileira, transforma o bando em um sistema de rastreamento distribuído altamente eficiente. A lógica é direta: quanto maior o grupo, menor a área que cada indivíduo precisa monitorar e maior a taxa de captura por hora. Quando o gado está presente, o anu-preto usa uma estratégia complementar e acompanha os bovinos de perto, aproveitando o movimento dos animais para espantar gafanhotos e outros ortópteros do solo. Cada passo do gado funciona como um mecanismo involuntário de afloramento de presas, e a ave captura os insetos em pleno salto.

Esse comportamento explica a presença constante do anu-preto em pastagens integradas e em sistemas que combinam pecuária e rizicultura nas planícies do Sul.

A dieta que vale mais que inseticida

A base da alimentação do Crotophaga ani é composta por ortópteros, nome técnico do grupo que inclui gafanhotos e grilos. A espécie também consome percevejos, aranhas, miriápodes, lagartas peludas e urticantes, lagartixas e até camundongos, além de pescar em águas rasas quando a oportunidade aparece. Em períodos de seca intensa, quando os artrópodes escasseiam, o anu-preto recorre a frutos, bagas e sementes, mas retorna à dieta insetívora assim que as condições melhoram.

Essa versatilidade alimentar, combinada ao hábito gregário, posiciona o anu-preto como um predador de amplo espectro dentro dos agroecossistemas. Diferente de predadores solitários e especializados, o bando responde dinamicamente à disponibilidade de presas, deslocando-se entre áreas conforme a pressão de insetos aumenta ou diminui.

Contudo, é importante distinguir o Crotophaga ani de outro pássaro que também atende pelo nome popular de “anu” nas lavouras de arroz do Rio Grande do Sul. O garibaldi (Chrysomus ruficapillus), conhecido regionalmente como anu ou pássaro-preto, é uma espécie diferente e tem relação complexa com a rizicultura gaúcha. Alimenta-se de grãos de arroz no período de espigamento e é classificado como praga pela Embrapa Clima Temperado. Por outro lado, o próprio levantamento da Embrapa reconhece que essa e outras aves associadas à cultura do arroz também consomem insetos e sementes de plantas daninhas, o que torna o manejo um tema de equilíbrio ecológico, não de eliminação.

Presente em todo o Brasil, fixo nas paisagens do Sul

O anu-preto ocorre da Flórida à Argentina e em todo o território brasileiro, adaptando-se facilmente a paisagens modificadas pelo homem. Campos cultivados, bordas de lavoura, pastagens, cerrados e áreas urbanas arborizadas estão entre os habitats regulares da espécie. Essa plasticidade ecológica é o que garante sua presença constante nos ambientes agrícolas do Sul, mesmo após décadas de transformação da paisagem rural gaúcha.

A espécie mede entre 35 e 36 centímetros, tem plumagem uniformemente preta com reflexos iridescentes e bico alto com elevação característica na base. O voo é curto e relativamente lento, o que faz com que o bando se desloque por saltos sucessivos de até 50 metros, sempre liderado por um indivíduo que parte na frente. A espécie possui mais de uma dúzia de vocalizações diferentes e emite chamados específicos de alarme: um sinal faz o bando empoleirar-se em pontos elevados para avaliar a ameaça, enquanto outro, emitido diante da aproximação de gaviões, faz o grupo desaparecer instantaneamente na vegetação.

Reprodução coletiva: o bando que cria junto permanece junto

O comportamento cooperativo do anu-preto não se limita à caça. A reprodução também é coletiva. Várias fêmeas do bando depositam seus ovos em um único ninho comunitário, construído com galhos e folhas e posicionado entre dois e seis metros de altura em árvores ou arbustos. A incubação e a alimentação dos filhotes são compartilhadas por todos os membros do grupo, mesmo aqueles que não são os pais diretos. A postura total pode chegar a 20 ovos, com período de choco de 13 a 16 dias.

Esse sistema reprodutivo fortalece os vínculos sociais do bando e garante que os filhotes sejam criados com mais segurança e eficiência, sustentando a presença permanente do grupo em determinadas áreas agrícolas ao longo do ano inteiro. Para o produtor que mantém vegetação nativa nas bordas da propriedade e evita o uso indiscriminado de inseticidas de amplo espectro, o anu-preto tende a se fixar na área e manter sua atividade de predação de forma contínua.

Vegetação nativa nas bordas é o que mantém o aliado na propriedade

A presença do anu-preto em uma propriedade rural não é resultado do acaso. A espécie depende de paisagens que combinem áreas abertas para forrageamento com vegetação arbustiva ou arbórea para ninhos e abrigo. Quando as bordas das lavouras e as matas ciliares são preservadas, o anu-preto e outras aves insetívoras encontram condições para se estabelecer, reproduzir e exercer pressão contínua sobre as populações de insetos-praga.

A conservação da vegetação nativa, dentro da lógica do Manejo Integrado de Pragas recomendada pela Embrapa, opera assim em duas frentes simultaneamente: protege o solo e os recursos hídricos e ancora populações de predadores naturais que reduzem a dependência de inseticidas químicos. Para a rizicultura do Sul, onde cerca de 25% das lavouras gaúchas enfrentam pragas com potencial de dano econômico, preservar a paisagem ao redor da lavoura deixa de ser apenas uma obrigação ambiental e passa a ser uma decisão produtiva.

  • Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em agronegócio. Acompanha de perto as principais pesquisas, tecnologias e movimentos de mercado que impactam produtores rurais brasileiros, com base em fontes institucionais como Embrapa, Cepea/Esalq, MAPA e IBGE.

    E-mail:  contato@agronamidia.com.br

Sair da versão mobile