Eu descobri o bokashi meio por acaso. Estava procurando uma forma de aproveitar os resíduos orgânicos que se acumulam aqui na Mel Garden, entre folhas, cascas de frutas, restos de poda e sobras de substrato, sem precisar esperar meses pela compostagem convencional. Uma cliente me falou sobre a técnica. Pesquisei, tentei, errei um pouco, acertei bastante. Hoje não consigo imaginar minha floricultura sem ele.
O bokashi é um composto fermentado de origem japonesa. O nome vem do japonês e significa, grosso modo, “matéria orgânica fermentada”. A técnica foi desenvolvida pelo microbiologista Teruo Higa na década de 1980, e o princípio é simples: resíduos orgânicos são misturados a um grupo de microrganismos eficientes, os chamados EM (Effective Microorganisms), e passam por um processo de fermentação anaeróbica, ou seja, sem oxigênio. O resultado é um insumo rico em ácidos orgânicos, enzimas, vitaminas e microrganismos benéficos que ativam a vida do solo.
Fermentação, não decomposição
Aqui mora a diferença que muita gente ignora. Na compostagem tradicional, a matéria orgânica se decompõe com calor e oxigênio. No bokashi, ela fermenta. O processo é mais rápido, não gera mau cheiro quando feito corretamente, e preserva uma quantidade maior de nutrientes. Isso porque a fermentação não queima a matéria orgânica. Ela a transforma.
O material pronto tem cheiro levemente adocicado, parecido com fermentação de cerveja ou pão. Quando o cheiro é azedo demais ou putrefato, algo saiu errado, geralmente excesso de umidade ou falta de EM. Aprendi isso na prática, depois de uma fornada que precisei descartar.
Na Mel Garden, uso farelo de trigo ou arroz como substrato base, misturo com os resíduos orgânicos do dia, adiciono melaço diluído em água como fonte de energia para os microrganismos, e incorporo o bokashi, que eu mesma preparo ou compro em casas agropecuárias. A mistura vai para um balde vedado, longe do sol direto, por cerca de duas semanas. O processo de cura no solo leva mais alguns dias, mas o impacto nas plantas é visível.
O que o bokashi faz pelo solo e pelas plantas
Quando o bokashi é incorporado ao solo ou ao substrato, os microrganismos eficientes continuam trabalhando. Eles competem com organismos patogênicos, suprimem fungos e bactérias causadores de doenças, e aceleram a decomposição de matéria orgânica já presente no solo. Além disso, disponibilizam nutrientes de forma gradual, o que evita o estresse por excesso de adubação, problema comum quando se usa adubo químico de forma indiscriminada.
Nas minhas flores, percebo diferença especialmente na resistência das plantas e no desenvolvimento radicular. Raiz forte sustenta planta saudável. Planta saudável floresce bem. Para quem trabalha com flores, não há argumento melhor que esse.
Aliás, o bokashi não substitui todos os adubos, e nunca defendi isso. Ele é parte de uma estratégia de nutrição mais inteligente. Contudo, em substratos para vasos e canteiros, ele reduz significativamente a necessidade de adubação química, e isso se traduz em custo menor por ciclo de produção.
Como preparar em casa ou na propriedade
O preparo é acessível. Não exige equipamentos caros nem espaço grande. Farelo de arroz ou trigo, melaço, água não clorada e bokashi são os ingredientes principais. A proporção mais usada é: para cada 10 quilos de resíduo orgânico, cerca de 100 ml de EM ativado diluído em água com melaço. A mistura deve ter umidade suficiente para aglomerar ao ser apertada na mão, mas sem escorrer água. Vai para o recipiente vedado, prensada para expulsar o ar, e fica em fermentação por 10 a 15 dias em local fresco e protegido.
Depois de pronto, o material precisa ser incorporado ao solo e passar por um período de maturação de 7 a 15 dias antes do plantio. Aplicado diretamente sobre raízes sem esse tempo de cura, o pH ácido do produto pode estressar as plantas. Esse detalhe é importante e muita gente pula.
Do vaso ao campo
O que começou como técnica para pequenos jardins e hortas urbanas chegou às lavouras. Produtores de hortaliças, cafeicultores e produtores de frutas já incorporaram o bokashi como parte do manejo de fertilidade do solo, especialmente em sistemas orgânicos e de base agroecológica. A lógica é a mesma: ativar a biologia do solo, reduzir insumos externos e melhorar a estrutura física do terreno ao longo do tempo.
Por isso, quando alguém me pergunta se vale a pena aprender a fazer bokashi, minha resposta é direta. Vale para quem tem um vaso na varanda. Vale para quem cuida de um jardim. E vale, com ainda mais razão, para quem depende do solo para produzir.



