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Home Clima e Sustentabilidade

Onça-pintada doa sangue para salvar outra da mesma espécie em procedimento inédito no Brasil

Ruana cedeu 800 ml ao felino Jack, de 18 anos, que trata doença renal crônica no CEMPAS-UNESP

Escrito por: Agronamidia Revisão: Derick Machado
17 de maio de 2026
in Clima e Sustentabilidade
Foto: Leandro Ferreira Amaral

Foto: Leandro Ferreira Amaral

Jack tem 18 anos, nasceu no Pará e percorreu um longo caminho — pelo Piauí, Alagoas e Minas Gerais — até chegar ao Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, em Sorocaba (SP). Quando o diagnóstico de doença renal crônica foi confirmado, a equipe veterinária do Centro de Medicina e Pesquisa em Animais Selvagens (CEMPAS), vinculado à Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da UNESP de Botucatu, precisava de uma solução fora do protocolo convencional. A resposta veio de outra onça-pintada.

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Ruana, fêmea de 4 anos residente no Simba Safari, anexo ao Zoológico de São Paulo, foi a doadora. Ela cedeu cerca de 800 ml de sangue em uma coleta realizada no hospital veterinário do Zoo SP. As bolsas foram então transportadas até Botucatu, onde a transfusão foi conduzida com sucesso pela equipe do CEMPAS. O procedimento, inédito no Brasil para a espécie, marca um novo capítulo na medicina veterinária de animais selvagens mantidos sob cuidados humanos.

A decisão clínica que antecedeu o procedimento

A doença renal crônica é uma das condições mais frequentes em felinos idosos, sejam domésticos ou selvagens. Em animais como a onça-pintada, a progressão da doença tende a ser silenciosa e o diagnóstico costuma chegar em estágios já avançados, quando a função renal está comprometida de forma significativa. No caso de Jack, o quadro exigiu uma abordagem mais agressiva do que os suportes clínicos tradicionais seriam capazes de oferecer isoladamente.

A transfusão de sangue interespecífica, ou seja, entre animais da mesma espécie, é uma prática conhecida na medicina veterinária de animais domésticos, mas sua aplicação em grandes felinos selvagens ainda é extremamente restrita no país. A ausência de bancos de sangue para fauna silvestre e a dificuldade de compatibilidade entre doadores tornam o procedimento tecnicamente complexo e logisticamente desafiador.

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“Procedimentos como esse exigem planejamento rigoroso, compatibilidade avaliada com critério e uma cooperação institucional muito bem estruturada. Não é algo que se improvisa”, destaca o médico veterinário Dr. Leandro Vogliotti, especialista em animais selvagens e professor da área de clínica de fauna do curso de Medicina Veterinária.

Ruana como doadora: critérios técnicos e bem-estar animal

A escolha de Ruana como doadora não foi aleatória. A onça passou por avaliação clínica detalhada antes do procedimento para confirmar que estava em plenas condições de saúde e que a coleta não representaria risco ao seu bem-estar. A quantidade retirada — 800 ml — foi calculada dentro dos parâmetros seguros para o porte e as condições físicas da animal. Após a doação, Ruana retornou ao seu habitat no Simba Safari e voltou à rotina normal sem intercorrências.

Do lado de Jack, a resposta ao tratamento foi positiva. Após a transfusão, o felino apresentou melhora clínica visível, com evolução na postura e na retomada da alimentação — dois indicadores centrais para avaliar a recuperação de grandes felinos em contexto hospitalar. A próxima etapa do tratamento inclui sessões de hemodiálise para dar suporte à função renal ainda comprometida.

Cooperação institucional como modelo

O que tornou o procedimento viável foi a articulação direta entre duas instituições com expertise complementar: o Zoológico de São Paulo, que dispõe de estrutura hospitalar veterinária e da doadora, e o CEMPAS-UNESP, referência nacional no atendimento clínico e na pesquisa com animais selvagens. Cada etapa — da coleta ao transporte, da tipagem ao ato cirúrgico — demandou coordenação precisa entre as equipes.

“A medicina de animais selvagens avança quando as instituições param de trabalhar em silos e começam a compartilhar protocolos, estrutura e conhecimento. Esse caso é um exemplo concreto disso”, afirma o Dr. Julio Cesar Cambraia Veado, médico veterinário especializado em fauna selvagem e docente em medicina de animais não domésticos.

Além dos resultados clínicos imediatos, as equipes técnicas das duas instituições vão publicar conjuntamente um relato de caso científico detalhando o protocolo adotado. O objetivo é sistematizar o conhecimento gerado e abrir caminho para que a técnica seja replicada em outros atendimentos envolvendo a espécie no Brasil.

Onça-pintada: espécie ameaçada que depende de ciência para sobreviver

Jack e Ruana não são apenas paciente e doadora. São representantes de uma espécie classificada como vulnerável na Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. A onça-pintada conta com um Plano de Ação Nacional coordenado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), e o Zoo São Paulo integra esse esforço por meio do manejo de três indivíduos, dois deles participantes de um programa de reprodução voltado à conservação da espécie.

Cada avanço na medicina veterinária de onças mantidas em cativeiro contribui diretamente para a longevidade desses animais e, consequentemente, para os programas reprodutivos que sustentam a manutenção genética da espécie. Quanto mais tempo esses animais vivem com saúde e qualidade, maior é a janela para que gerem descendentes e ampliem a diversidade genética dos plantéis sob gestão humana. O caso de Jack e Ruana, portanto, vai além do episódio clínico: ele demonstra que investir em medicina de precisão para fauna silvestre é também uma estratégia de conservação.

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