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Paraná estrutura rastreabilidade e marca territorial para dobrar valor da erva-mate sombreada

by Derick Machado
1 de março de 2026
in Noticias
Paraná estrutura rastreabilidade e marca territorial para dobrar valor da erva-mate sombreada

A erva-mate paranaense deixou a fase do diagnóstico. O Meta 3 do programa Vocações Regionais Sustentáveis, conduzido pela Invest Paraná em parceria com a Universidade Estadual de Londrina, marca a virada operacional de um projeto que vinha mapeando gargalos desde 2022. Agora, rastreabilidade, integração da cadeia e construção de marca territorial entram em campo de verdade.

O lançamento aconteceu em União da Vitória, polo histórico de produção, e reuniu empresários, ervateiras e gestores municipais responsáveis por compras públicas. A mensagem central foi clara: o Paraná produz erva-mate de alta qualidade, historicamente sombreada, mas vê esse produto abastecer indústrias de outros estados sem que o trabalho do produtor local seja reconhecido ou remunerado à altura.

Dobrar o preço não é utopia, é estratégia

Bruno Banzato, gerente de Desenvolvimento Econômico da Invest Paraná, foi direto ao ponto. “Nossa meta é dobrar o valor da erva-mate de qualidade, sombreada, que é produzida historicamente pelo Paraná e acaba abastecendo ervateiras de outros estados, e que, por muitas vezes, não reconhece o trabalho desses produtores envolvidos”, afirmou durante o evento.

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A estratégia passa por três eixos definidos a partir das próprias demandas do setor: rastreabilidade da folha desde a colheita, conexão direta entre produtores e indústria, e construção de uma identidade de mercado que diferencie o mate paranaense. Não se trata de criar mais um projeto piloto. O Meta 3 é a etapa de execução após dois anos de levantamentos técnicos feitos com apoio da Secretaria da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e financiamento do Fundo Paraná.

A professora Daniele Ukan, da Unicentro, integra a equipe responsável pelo desenvolvimento científico e tecnológico do projeto. Segundo ela, os diagnósticos já estão prontos. “O Meta 3 vai contemplar a rastreabilidade. Avaliar quais informações devem acompanhar o produto, se isso é uma demanda de mercado ou uma estratégia de diferenciação. Também vamos trabalhar as boas práticas de manejo e verificar, com os produtores e com as indústrias, quais são as práticas que mais impactam na qualidade da folha”, explicou.

Selo paranaense em construção

O que diferencia esse projeto de outras iniciativas setoriais é a proposta de criar um selo de autenticidade — não uma marca coletiva tradicional, mas uma identidade territorial ligada ao Paraná. Daniele é enfática: será preciso validar se existe espaço para essa segmentação no mercado nacional e internacional, além de identificar os atributos que justificam a diferenciação.

Essa validação passa por análises de mercado, testes de comunicação e ajustes técnicos junto aos produtores e à indústria. A ideia é que o selo funcione como garantia de origem e padrão de qualidade, abrindo portas tanto no varejo quanto em canais institucionais.

Merenda escolar como porta de entrada

Aliás, o mercado institucional foi um dos pontos centrais do evento em União da Vitória. A nutricionista Victoria Aline Balan, do Instituto Fundepar, apresentou o funcionamento das chamadas públicas para alimentação escolar e deixou um dado relevante: em 2025, o Fundepar investiu cerca de R$ 190 milhões na compra de alimentos da agricultura familiar. A erva-mate passou a integrar o grupo de compras no último ano.

Por enquanto, a oferta ainda é tímida. Mas a expectativa é que, com a aproximação entre produtores e gestores municipais, esse volume cresça de forma consistente. A inclusão do mate como chá ou ingrediente em receitas escolares já avançou em alguns municípios, mas está longe de ser uma realidade consolidada no Estado.

O professor Saulo Fabiano Amâncio-Vieira, do Núcleo Interdisciplinar de Gestão Pública da UEL, reforçou a importância desse canal. Para ele, as compras públicas vão além do suprimento alimentar: são instrumentos de desenvolvimento local, geração de renda e inclusão social. “É uma forma de promover o desenvolvimento apoiando pequenas empresas locais, a sustentabilidade ambiental, a geração de renda e oportunidades para agricultores familiares, estimulando uma maior inclusão social, e também garantindo maior qualidade no consumo de produtos”, destacou.

Produtores entram nos grupos de trabalho

A partir de agora, os participantes do programa serão divididos em grupos de trabalho correspondentes a cada um dos três eixos do Meta 3. Eles passarão por capacitações voltadas à padronização de qualidade, adequações de marca para diferentes mercados e contribuirão diretamente na estruturação do sistema de rastreamento e do selo territorial.

A lógica é simples: quem está na porteira para dentro precisa estar dentro da sala onde as decisões são tomadas. Porque rastreabilidade sem a validação de quem colhe a folha vira burocracia inútil. E marca sem identidade real vira só mais um adesivo na embalagem.

O que está em jogo é a possibilidade de o Paraná deixar de ser fornecedor anônimo de matéria-prima e passar a ser reconhecido como origem de um produto diferenciado. O mercado já está ali. Agora, é hora de estruturar a entrega.

Fonte: AEN

  • Derick Machado

    Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em agronegócio. Acompanha de perto as principais pesquisas, tecnologias e movimentos de mercado que impactam produtores rurais brasileiros, com base em fontes institucionais como Embrapa, Cepea/Esalq, MAPA e IBGE.

    E-mail:  [email protected]

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