Enquanto o mundo revisava sua relação com proteínas animais e os mercados africanos e latino-americanos ampliavam sua demanda por carnes processadas, o Brasil foi ajustando sua posição nesse tabuleiro. No primeiro quadrimestre de 2026, o país exportou 22,3 mil toneladas de carne de peru, gerando uma receita cambial de US$ 90,8 milhões. O Paraná, por sua vez, não ficou de fora: garantiu o terceiro lugar no ranking nacional com 4.739 toneladas embarcadas e US$ 22,6 milhões em divisas, segundo o Boletim Conjuntural divulgado pelo Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Seab).
O dado mais revelador, porém, não é a posição no ranking. É o preço. A carne de peru in natura alcançou o valor médio de US$ 4.059,03 por tonelada no período, uma alta de 77,6% em relação ao mesmo intervalo de 2025, quando a média era de US$ 2.285,33 por tonelada. Para um produtor que manteve o mesmo volume de exportação, esse salto representa quase o dobro da receita gerada pelo mesmo produto.
Um Sul unido na expansão
A expansão das exportações de carne de peru não foi exclusividade paranaense. O Sul do Brasil avançou de forma coordenada: Santa Catarina registrou crescimento de 38,4% no volume exportado em relação ao ano anterior, o Rio Grande do Sul cresceu 21,2% e o Paraná avançou 6,9% no mesmo indicador. Os três estados respondem pela maior parte da produção avícola nacional e seguem como peças centrais na estratégia brasileira de abastecimento de mercados externos.
Os destinos das exportações revelam uma diversificação estratégica relevante. México e Chile lideram entre os compradores das Américas, enquanto África do Sul, Guiné Equatorial, Gana, Benin e Gabão representam a penetração crescente do produto brasileiro no continente africano. Países Baixos, Peru e Bahamas completam a lista dos principais destinos, mostrando que a carne de peru paranaense transita por diferentes perfis de consumidor e distintos padrões de renda.
O amendoim que volta ao centro do palco
Se as notícias sobre a carne de peru falam de expansão consolidada, as do amendoim falam de história em construção. A análise do Deral projeta que a produção brasileira na safra 2025/26 deve atingir 1,2 milhão de toneladas, o maior volume já registrado no país, superando o próprio recorde da safra anterior. O Paraná entra nesse cenário com uma estimativa de 5,6 mil toneladas, puxada pela região de Paranavaí, que concentra pouco mais de 50% da produção estadual.
“Caso esse volume brasileiro se confirme, será o maior já registrado no País, superando o recorde anterior que foi atingido na safra passada. No Paraná, os trabalhos de campo agora se concentram na região de Umuarama, responsável por outros 23% da área cultivada no Estado. O restante da produção fica espalhado por outros municípios paranaenses”, explica Edmar Gervásio, analista do Deral.
O contexto histórico ajuda a entender por que esse recorde tem peso simbólico além do econômico. Até os anos 1970, o amendoim era cultura relevante para a produção de óleo vegetal no Brasil. A chegada da soja, com sua escala e competitividade econômica superior, foi gradualmente deslocando o amendoim desse mercado. O óleo de soja tomou o espaço e o amendoim precisou se reinventar. Encontrou no consumo direto, nos mercados de confeitaria, na exportação de grão e, claro, nas festas juninas um novo caminho, mais diversificado e, em vários aspectos, mais rentável.
Milho: estabilidade como palavra de ordem
O milho segunda safra fecha o boletim com uma mensagem de equilíbrio. A área plantada segue estável em 2,9 milhões de hectares para o ciclo 2025/26 no Paraná. Do total das lavouras monitoradas, 79% apresentam boas condições de desenvolvimento, 14% estão em situação mediana e apenas 7% são classificadas como ruins. O excesso de dias nublados e as temperaturas mais baixas pedem cautela quanto ao potencial máximo de produtividade, mas a ausência de geadas prevista para os próximos 14 dias mantém o horizonte favorável para os produtores.
A combinação dos três cenários, exportação de peru em alta, amendoim rumo ao recorde e milho estável, compõe um retrato de um estado que, ao longo dos anos, foi diversificando sua base produtiva o suficiente para absorver variações em culturas individuais sem comprometer o desempenho geral da agropecuária. O Paraná não depende de um único produto para sustentar sua posição entre os maiores produtores do Brasil, e os dados do primeiro quadrimestre de 2026 reafirmam exatamente isso.
