Pecuaria
Leite de jumenta ganha destaque científico e surge como alternativa para salvar vidas
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1 semana atrásem
Por
Claudio P. Filla
Durante muito tempo visto apenas como parte da história rural brasileira, o jumento voltou ao centro do debate científico por um motivo nobre. Pesquisas conduzidas por universidades brasileiras indicam que o leite de jumenta pode desempenhar um papel relevante tanto na saúde de bebês prematuros quanto na redução do estresse e da inflamação em animais submetidos a fases críticas de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, os resultados reacendem a discussão sobre a preservação desses animais, cada vez mais ameaçados pelo abate indiscriminado.
A investigação foi conduzida pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, em parceria com a Universidade Federal da Bahia, e realizada no Criatório Ximbó, em Laranjal Paulista, interior de São Paulo. O estudo analisou os efeitos do leite de jumenta em leitões durante o período de desmame, fase considerada extremamente estressante tanto do ponto de vista fisiológico quanto imunológico.
Um leite com características próximas ao humano
Segundo o professor Adroaldo José Zanella, da USP de Pirassununga, o interesse científico pelo leite de jumenta não é recente. Na Europa, especialmente na Itália, ele já é utilizado como suplemento alimentar para crianças prematuras, justamente por apresentar composição muito semelhante à do leite humano. Além disso, o produto é valorizado na produção de derivados de alto custo, como queijos artesanais e cosméticos.
Entretanto, ao retornar ao Brasil, Zanella se deparou com um cenário que o motivou a ampliar o alcance da pesquisa. “Quando voltei ao país e vi o descaso com os jumentos, abatidos de forma cruel para atender ao mercado de colágeno, fiquei profundamente impactado”, relata o professor. Para ele, a ciência poderia ser uma ferramenta não apenas de inovação, mas também de resgate histórico e social. “A ideia era devolver valor ao jumento, um animal que ajudou a construir o Nordeste e hoje está ameaçado”, acrescenta.
Antes dos testes laboratoriais, a equipe realizou uma pesquisa de campo no Ceará. Os dados chamaram atenção: cerca de 75% dos entrevistados afirmaram utilizar o leite de jumenta com fins medicinais, o que reforçou o interesse em compreender cientificamente suas propriedades terapêuticas.
O impacto do leite de jumenta no estresse e na inflamação
A partir dessas informações, os pesquisadores avançaram para um experimento controlado com leitões, escolhidos por apresentarem um sistema digestivo semelhante ao humano. O foco foi o desmame, período naturalmente delicado, mas que, em sistemas comerciais, ocorre de forma antecipada, aumentando os níveis de estresse e inflamação.
Parte dos animais recebeu leite de jumenta, enquanto outros foram alimentados com leite de vaca desnatado ou não receberam suplementação. Os resultados foram claros. “Observamos que os leitões que consumiram leite de jumenta apresentaram uma resposta inflamatória significativamente menor e uma redução expressiva dos marcadores de estresse”, explica Zanella. Esses achados reforçam o potencial do alimento como modulador fisiológico em momentos críticos do desenvolvimento.
Potencial terapêutico e aplicação em UTIs pediátricas
O interesse pelo leite de jumenta também se estende a outras instituições. Na Universidade do Agreste de Pernambuco, em Garanhuns, pesquisas paralelas avaliam suas características nutricionais e imunológicas, com a expectativa de que, até 2026, o produto possa ser utilizado de forma segura em UTIs pediátricas, especialmente no suporte a bebês prematuros.
De acordo com o professor Gustavo Carneiro, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, o leite de jumenta se destaca por reunir propriedades raras. “Ele possui um perfil nutricional e imunológico diferenciado, sendo uma alternativa promissora para crianças com intolerância às proteínas do leite de vaca”, afirma. Além da aplicação na saúde infantil, Carneiro destaca o potencial econômico do produto. “Estamos falando de uma oportunidade para criar cadeias produtivas sustentáveis, gerar renda no meio rural e agregar valor a uma espécie que hoje enfrenta risco de extinção”, completa.
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Ciência, preservação e futuro
Apesar dos resultados promissores, os desafios ainda são grandes. A pesquisa conduzida na USP foi interrompida por falta de recursos e segue atualmente na Universidade Federal da Bahia, sob coordenação da professora Chiara Albano de Araujo Oliveira. Ainda assim, os dados já obtidos mostram que o leite de jumenta pode representar muito mais do que um nicho científico: ele conecta saúde humana, bem-estar animal e preservação cultural.
No Criatório Ximbó, onde os testes foram realizados, a experiência deixou marcas positivas. José Carlos Mendonça, proprietário da fazenda, afirma que os resultados foram animadores, embora a coleta de leite tenha sido restrita ao estudo. Criador da raça jumento pêga desde 2004, ele mantém um plantel selecionado e vê na ciência uma possibilidade concreta de dar um novo destino a esses animais.

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