Pecuaria
Pecuaristas do Paraná triplicam produção de leite com apoio ambiental
Publicado
2 semanas atrásem
Por
Claudio P. Filla
Em pequenas propriedades do noroeste do Paraná, histórias de mudança vêm ganhando forma a partir de um novo olhar sobre o solo, a água e o manejo da pecuária leiteira. O que antes era sinônimo de baixa produtividade e renda limitada passou a representar crescimento consistente, estabilidade e perspectiva de futuro para agricultores familiares que decidiram apostar na integração entre conservação ambiental e eficiência produtiva.
Foi exatamente esse o caminho seguido por Francarlos Bueno Sudak, em Porto Rico. Em 2020, ao trocar a rotina como treinador de cavalos pela produção de leite em um sítio de 14 hectares, ele iniciou a atividade com 25 vacas e uma produção diária de cerca de 200 litros. Hoje, com 45 animais — sendo 34 em lactação — a produção chega a aproximadamente 700 litros por dia, distribuídos em duas ordenhas. A virada aconteceu após sua entrada no Programa Ação Integra Solo e Água (Aisa), iniciativa liderada pela Itaipu Binacional em parceria com instituições de pesquisa e extensão rural.
Situação semelhante ocorreu em Alto Paraná, a pouco mais de 100 quilômetros dali. Após quatro décadas dedicadas à sericultura, Ademar Rodrigues Sobrinho decidiu investir na pecuária leiteira. No início, produzia cerca de 320 litros diários, com média de nove litros por vaca. Atualmente, com 42 vacas em lactação e manejo mais eficiente, ultrapassa os 700 litros por dia, com produtividade média de 17 litros por animal. Em ambos os casos, a mudança não veio do aumento da área, mas do aprimoramento técnico.
A integração entre solo, água e manejo
O avanço observado nas propriedades está diretamente ligado à atuação do programa Aisa, que reúne esforços da Embrapa, do IDR-Paraná, da Esalq/USP e da Fundação de Apoio à Pesquisa e ao Desenvolvimento. Em quatro anos, o programa recebeu investimentos de aproximadamente R$ 26 milhões, distribuídos em 17 projetos voltados à melhoria da produção agropecuária em áreas estratégicas do entorno do reservatório de Itaipu.
A proposta central foi recuperar pastagens degradadas, melhorar a fertilidade do solo e garantir maior infiltração e retenção de água, fatores essenciais tanto para a produtividade quanto para a preservação ambiental. A partir disso, produtores passaram a adotar adubação correta dos pastos, manejo rotacionado, produção de silagem e planejamento alimentar para os meses de inverno, período crítico para a pecuária leiteira no Sul do país.
No caso de Francarlos, a reestruturação incluiu a divisão da área em 27 piquetes, a implantação do rodízio de pastagens e a produção de volumoso para garantir alimentação contínua ao rebanho. O resultado foi um salto expressivo na produtividade individual das vacas, além do fortalecimento do plantel com o nascimento de novas bezerras destinadas à reposição futura.
Assistência técnica como ponto de virada
Um dos diferenciais do programa foi a presença constante de assistência técnica. Visitas mensais permitiram ajustes contínuos no manejo, no controle de custos e na ampliação gradual das estruturas, sempre respeitando a realidade financeira das propriedades. Esse acompanhamento foi decisivo para que os produtores ganhassem segurança para investir, mesmo diante das oscilações no preço do leite, que nos últimos anos chegou a cair quase pela metade.
Além do ganho produtivo, houve melhora significativa na qualidade do leite e na competitividade da atividade. A produção do próprio volumoso e da silagem reduziu a dependência de insumos externos, diminuindo custos e ampliando a margem de lucro, mesmo em períodos de mercado desfavorável.
Impacto regional e sustentabilidade
O projeto de intensificação sustentável da pecuária leiteira atendeu diretamente 40 produtores em microbacias ligadas ao reservatório da Itaipu e impactou mais de mil agricultores por meio de dias de campo e capacitações. Em um estado onde grande parte das pastagens apresenta algum grau de degradação, a recuperação do solo mostrou-se estratégica não apenas para a renda rural, mas também para a proteção dos recursos hídricos.
A lógica é simples: pastagens bem manejadas reduzem a erosão, aumentam a infiltração da água no solo e contribuem para a segurança hídrica, fator essencial para a geração de energia hidrelétrica. Segundo Enio Verri, diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional, a qualidade da água é determinante para garantir tanto a produção de alimentos quanto a geração de energia que abastece Brasil e Paraguai nas próximas décadas.
Resultados que apontam novos caminhos
Ao longo dos quatro anos de execução, os números confirmam a eficácia do modelo. Em áreas onde antes havia apenas um animal por hectare, a lotação passou para cinco ou seis. A produtividade anual saltou de cerca de 4 mil litros por hectare para até 12 mil litros, sem a necessidade de expansão territorial. Para Hudson Lissoni Leonardo, engenheiro sênior da Itaipu e coordenador-geral do Aisa, os resultados reforçam que ciência aplicada e governança territorial são fundamentais para conciliar produtividade e sustentabilidade no campo.
Com a conclusão da primeira fase do programa no fim de 2025, a expectativa agora é ampliar a adoção das tecnologias já validadas. A nova etapa do Aisa aposta em comunicação, transferência de conhecimento e extensão rural para alcançar um número ainda maior de agricultores. A tecnologia, segundo os coordenadores do programa, já existe. O desafio passa a ser transformá-la em prática cotidiana em milhares de propriedades rurais, consolidando um modelo produtivo mais eficiente, resiliente e sustentável.

Comunicador Social com especialização em Mídias Digitais e quase uma década de experiência na curadoria de conteúdos para setores estratégicos. No Agronamidia, Cláudio atua como Redator-chefe, liderando uma equipe multidisciplinar de especialistas em agronomia, veterinária e desenvolvimento rural para garantir o rigor técnico das informações do campo. É também o idealizador do portal Enfeite Decora, onde aplica sua expertise em paisagismo e arquitetura para conectar o universo da produção natural ao design de interiores. Sua atuação multiplataforma reflete o compromisso em traduzir temas complexos em conteúdos acessíveis, precisos e com alto valor informativo para o público brasileiro.
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