A natimortalidade é um dos indicadores que mais pesam no resultado econômico da suinocultura brasileira. Leitões nascidos mortos ou que não sobrevivem às primeiras horas de vida representam perda direta de receita, comprometendo o desempenho das matrizes e o planejamento de toda a granja. Uma startup paranaense decidiu atacar esse problema com tecnologia desenvolvida dentro do próprio Estado: a Pigma Desenvolvimentos, sediada em Toledo, criou a PigSave, uma cinta massageadora para matrizes suínas que atua diretamente no trabalho de parto, automatizando um procedimento que, até hoje, depende da intervenção manual do tratador.
O equipamento aplica estímulos físicos controlados sobre o animal durante o parto, favorecendo a liberação natural de ocitocina, hormônio diretamente ligado às contrações uterinas e à ejeção do leite. O resultado prático é a redução do estresse e das dores da matriz, o aumento na produção de colostro e, consequentemente, a queda nos índices de natimortalidade. Além disso, a cinta substitui a massagem manual que normalmente precisa ser realizada pelo operador, o que representa ganho de tempo, padronização do procedimento e menor dependência de mão de obra especializada.
Tecnologia que nasce da necessidade do campo
A Pigma Desenvolvimentos foi fundada em 2020 e atua como um hub de pesquisa e desenvolvimento tecnológico, com foco em soluções para a suinocultura e outros segmentos industriais. O projeto PigSave já existia antes do aporte financeiro, mas foi a partir da participação no programa Paraná Anjo Inovador, iniciativa de subvenção econômica da Secretaria de Inovação e Inteligência Artificial do Governo do Estado, que o desenvolvimento ganhou estrutura e escala.
Para o CEO da startup, Marcelo Augusto Hickmann, o suporte público foi decisivo para avançar nas etapas mais críticas do projeto. “O suporte do Paraná Anjo Inovador foi fundamental nesse processo, ao viabilizar a realização de pesquisa aplicada em parceria com instituições, além de permitir a contratação de serviços especializados e a aquisição de componentes eletrônicos e matérias-primas essenciais para o refinamento da solução tecnológica”, afirmou.
O foco da equipe nessa fase foi o reprojeto do equipamento, com embasamento técnico-científico mais robusto. “Visamos no reprojeto da solução, aliado a um embasamento sólido em pesquisa, com foco na consolidação e no aprimoramento do produto. Nosso objetivo é ampliar o bem-estar animal no setor agropecuário e garantir maior usabilidade do produto”, destacou Hickmann.
Parceria com a UEPG e fase de prototipagem
O produto segue em fase de prototipagem, com melhorias contínuas e mensuração de resultados em condições reais de granja. Para dar sustentação científica ao desenvolvimento, a Pigma firmou parceria com a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), que conduz a pesquisa aplicada junto à equipe da startup. A parceria garante rigor metodológico na validação dos dados de bem-estar animal, produção de colostro e redução de perdas no parto, variáveis que precisam ser quantificadas com precisão antes da chegada do produto ao mercado.
A reestruturação da equipe também faz parte desse novo ciclo, com contratações voltadas à área técnica e à engenharia do produto, o que reforça a capacidade operacional da startup para as próximas etapas de desenvolvimento.
Anjo Inovador: subvenção que movimenta o ecossistema paranaense
O Paraná Anjo Inovador, criado em 2023, já beneficiou 148 startups paranaenses com projetos de alto potencial. O programa oferece subsídio direto para que empresas desenvolvam produtos, serviços e soluções inovadoras em diversas áreas, sem exigir contrapartida financeira imediata, o que o diferencia de linhas de crédito convencionais e o torna especialmente adequado para o estágio inicial de projetos tecnológicos.
O terceiro edital do programa será lançado no primeiro semestre deste ano, com aporte de até R$ 10 milhões para 40 empresas selecionadas, sendo até R$ 250 mil por projeto. As áreas contempladas incluem Agricultura e Agronegócio, Biotecnologia e Saúde, Energias Sustentáveis, Cidades Inteligentes, Inteligência Artificial e Automação Ética, entre outras, alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável definidos pela iniciativa.
Para a suinocultura paranaense, que concentra parte expressiva da produção nacional de proteína animal, o avanço de soluções como a PigSave representa um movimento concreto de incorporação de tecnologia nas etapas mais sensíveis do ciclo produtivo. A automação do manejo no parto, combinada com o estímulo hormonal natural da matriz, coloca o bem-estar animal e a eficiência econômica no mesmo eixo, algo que o setor busca com crescente urgência diante da pressão por rastreabilidade e sustentabilidade nos mercados consumidores.



