Preá: O roedor invisível dos campos que sustenta raposas, corujas e a fertilidade das pastagens

Discreto e veloz, o Cavia aperea circula de madrugada pelos campos do Sul, do Cerrado e da Caatinga cumprindo um papel ecológico que vai muito além do que os olhos conseguem enxergar

Preá: O roedor invisível dos campos que sustenta raposas, corujas e a fertilidade das pastagens

Quem caminha no início da manhã por campos abertos do Rio Grande do Sul ou por áreas de pastagem no interior do Nordeste pode flagrar, por alguns segundos, uma figura pequena e compacta desaparecendo entre as touceiras de capim. O movimento é rápido, quase imperceptível, e o animal some antes que qualquer observador distraído consiga identificá-lo. Trata-se do preá, o Cavia aperea, um roedor nativo da América do Sul que poucos reconhecem pelo nome, mas que desempenha um papel central no equilíbrio de ecossistemas de campos abertos, pastagens e bordas de mata em todo o Brasil.

Com corpo compacto de até 25 centímetros, pelagem que varia entre o castanho-escuro e o cinza-amarelado e ausência quase completa de cauda, o preá pertence à família Caviidae, a mesma dos porquinhos-da-índia domésticos. Aliás, acredita-se que o popular bichinho de estimação seja justamente um descendente domesticado do preá, resultado de um processo iniciado por povos indígenas há cerca de 6 mil anos. O nome da espécie, inclusive, vem do tupi apere’á, do qual “preá” é uma contração que sobreviveu até hoje.

Túneis de grama e latrinas que fertilizam o solo

Diferente do que muitos imaginam, o preá não escava tocas no solo. Sua estratégia é outra: ele constrói labirintos de túneis na superfície da vegetação, abrindo passagens de 8 a 12 centímetros de largura entre as touceiras de gramíneas. Esses corredores funcionam como rotas de fuga e acesso à alimentação, conectando diferentes pontos do seu território com eficiência surpreendente.

Ao longo dessas trilhas, o preá estabelece áreas fixas de latrina, onde deposita fezes em formato de grãos de feijão junto a fragmentos de hastes de grama cortadas. Esse comportamento, que à primeira vista parece apenas um hábito sanitário, tem consequências diretas para a fertilidade do solo. A deposição concentrada de matéria orgânica em pontos específicos da pastagem contribui para a ciclagem de nutrientes, devolvendo ao solo compostos nitrogenados provenientes da digestão das gramíneas. Consequentemente, ao longo do tempo, essas áreas de latrina tendem a apresentar maior disponibilidade de nutrientes do que trechos sem a presença do animal.

“Roedores de campo como o preá têm papel funcional na ciclagem de matéria orgânica. A deposição contínua de excreções em pontos específicos cria microsítios de fertilidade que beneficiam a renovação das gramíneas e a diversidade de microrganismos no solo”, explica o biólogo e pesquisador especializado em ecologia de mamíferos Ivan Sazima, do Museu de Zoologia da Unicamp, que há décadas estuda interações entre vertebrados e ecossistemas brasileiros.

A base da cadeia alimentar que ninguém enxerga

O preá é um herbívoro estrito, alimentando-se de gramíneas, ervas rasteiras e outras plantas de baixo porte. Essa dieta o posiciona como elo fundamental entre a vegetação e os predadores que dependem de pequenos mamíferos para sobreviver nos campos abertos do Sul e em outras regiões do país.

Raposas, especialmente o graxaim-do-campo (Lycalopex gymnocercus), figuram entre os principais predadores do preá nos Pampas gaúchos. Além delas, aves de rapina como corujas-buraqueiras, gaviões-caboclos e carcaxás caçam o roedor tanto durante o dia quanto ao entardecer. Serpentes e felinos selvagens, como o gato-do-mato, completam o rol de predadores que dependem diretamente da presença do preá para sustentar suas populações.

Essa condição de presa para múltiplos predadores transforma o preá em uma espécie-chave no equilíbrio trófico dos campos. Quando a população de preás diminui por perda de habitat, caça excessiva ou uso de pesticidas que comprometem a vegetação nativa, a escassez de alimento se propaga rapidamente para os predadores que dele dependem, gerando um efeito cascata que pode desestruturar comunidades inteiras de fauna silvestre.

Estratégias de sobrevivência em campo aberto

Viver em ambientes abertos sem se tornar alimento exige adaptações precisas. O preá desenvolveu ao longo de sua história evolutiva um conjunto de comportamentos que equilibram a necessidade de se alimentar com a pressão constante da predação. Seus hábitos são predominantemente crepusculares, com picos de atividade no início da manhã e no final da tarde, horários em que a visibilidade dos predadores diurnos já começa a cair.

O animal vive em pequenos grupos familiares compostos por um macho dominante, fêmeas e filhotes, comunicando-se por vocalizações e marcações olfativas que delimitam territórios e alertam os demais membros sobre a presença de predadores. Ao se aventurar em áreas abertas para forragear, o preá nunca se afasta muito da vegetação densa, parando em distâncias intermediárias e avançando gradualmente. Ao primeiro sinal de perigo, retorna rapidamente ao refúgio entre as touceiras, independentemente de onde esteja.

“A dinâmica de forrageamento de pequenos roedores em ambientes com alta pressão de predação é altamente refinada. Eles monitoram constantemente o entorno, ajustam o tempo gasto em campo aberto conforme o risco percebido e utilizam o grupo como sistema coletivo de vigilância”, aponta a zoóloga e professora Patrícia Izar, do Instituto de Psicologia da USP, pesquisadora do comportamento de vertebrados em ambientes de campo.

Da Caatinga ao Pampa: uma espécie que atravessa biomas

A amplitude geográfica do preá é notável. A espécie ocorre em praticamente toda a América do Sul, do Norte do Uruguai até a Colômbia, passando por Argentina, Paraguai, Peru e Venezuela. No Brasil, está presente em pastagens do Rio Grande do Sul, em bordas de mata no Sudeste, em áreas de Caatinga no Nordeste e em zonas de transição com o Cerrado no Centro-Oeste, sempre preferindo locais próximos a córregos e áreas úmidas que garantam vegetação mais densa para refúgio.

Essa distribuição ampla, aliada à capacidade de se adaptar a diferentes tipos de vegetação e regimes climáticos, garante ao preá uma classificação de menor preocupação quanto ao risco de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza. Contudo, a fragmentação de habitats causada pela expansão de monoculturas, o uso intensivo de herbicidas que elimina a vegetação nativa de bordas e a introdução de predadores domésticos como cães e gatos em áreas rurais representam pressões crescentes sobre as populações locais.

Reprodução acelerada como resposta à predação intensa

Ser o alimento preferido de tantos predadores exige uma capacidade reprodutiva proporcional à pressão sofrida. O preá responde a essa demanda com uma taxa reprodutiva alta: o período de gestação dura cerca de dois meses, cada ninhada pode ter de 1 a 5 filhotes e a fêmea pode ter até duas ninhadas por ano. Além disso, os jovens atingem maturidade sexual com apenas dois a três meses de idade, o que permite que a população se recomponha rapidamente após períodos de predação intensa.

Essa velocidade reprodutiva é justamente o que sustenta o papel do preá como presa-chave. Sem ela, a pressão dos predadores esgotaria as populações locais em pouco tempo, comprometendo a estabilidade da cadeia alimentar. Por isso, a presença do preá em pastagens e áreas de campo nativo funciona como um termômetro da saúde ecológica do ambiente: onde o roedor está, os predadores têm alimento, a vegetação é manejada por herbivoria natural e o solo recebe aporte contínuo de matéria orgânica.

  • Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em agronegócio. Acompanha de perto as principais pesquisas, tecnologias e movimentos de mercado que impactam produtores rurais brasileiros, com base em fontes institucionais como Embrapa, Cepea/Esalq, MAPA e IBGE.

    E-mail:  contato@agronamidia.com.br

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