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Prefeitura de Londrina inicia remoção de alface‑d’água no lago Igapó

Mais de 15 servidores trabalham na limpeza para conter proliferação e restaurar o equilíbrio do ecossistema

Revisão: Derick Machado
29 de setembro de 2025
in Noticias
Imagem: Reprodução/RPC

Imagem: Reprodução/RPC

O espelho d’água que por décadas foi símbolo de lazer e contemplação em Londrina amanheceu, nesta semana, com um cenário diferente: coberto por uma camada verde e espessa de alfaces-d’água (Pistia stratiotes), plantas flutuantes que, embora pareçam inofensivas, podem esconder uma série de alertas sobre o estado de saúde do ecossistema. A rápida proliferação das macrófitas, típica de ambientes aquáticos sobrecarregados de nutrientes, acendeu o sinal de atenção entre pesquisadores e autoridades ambientais do município.

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O fenômeno não é novo, mas desta vez chamou a atenção pelo volume e pela velocidade com que as plantas se espalharam pelo Igapó 2, atingindo também os lagos vizinhos. O quadro é reflexo direto de um conjunto de fatores: estiagem prolongada desde julho, aumento da luminosidade incidente sobre o lago e, principalmente, o acúmulo de matéria orgânica e dejetos urbanos que favorecem a eutrofização – processo que acelera o crescimento de algas e macrófitas, comprometendo o oxigênio dissolvido na água.

A força das chuvas e o efeito cascata nos lagos urbanos

Embora as alfaces-d’água tenham aparecido no Igapó 2 nos últimos dias, a origem de sua presença está ligada a episódios anteriores. Segundo o botânico Weliton da Silva, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), as fortes chuvas ocorridas no início de setembro podem ter arrastado essas plantas a partir dos lagos mais a montante, como o Igapó 3 e o Parque Arthur Thomas.

“As macrófitas estavam restritas aos lagos superiores, mas com o fluxo hídrico elevado, houve transporte natural até o Igapó 2 e, potencialmente, também para o Igapó 1. O problema maior é que, se os níveis de nutrientes se mantiverem altos, elas não apenas permanecerão, como vão se expandir”, observa o professor.

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Silva ressalta que a situação é agravada pela presença de cianobactérias filamentosas no lago, algas microscópicas conhecidas por sua toxicidade. Elas afetam diretamente a fauna aquática e oferecem riscos inclusive à saúde humana. “Estamos diante de um estágio de hiper-eutrofização. A água está turva, esverdeada, e esse excesso de matéria orgânica cria um ambiente propício tanto para a proliferação das plantas flutuantes quanto para o colapso do sistema aquático”, alerta.

Intervenções da prefeitura podem ter acelerado o problema

Um dado relevante no contexto da proliferação das alfaces-d’água está relacionado às ações da própria prefeitura. No início de setembro, a Secretaria Municipal de Obras realizou uma operação de limpeza e desassoreamento em córregos da região do Igapó 2, com o objetivo de conter alagamentos. No entanto, o revolvimento do fundo dos canais pode ter gerado um efeito colateral indesejado.

Prefeitura de Londrina inicia remoção de alface‑d’água no lago Igapó
Imagem: Reprodução/RPC

“Mexer no leito dos córregos nesse período, com o lago já sobrecarregado de nutrientes, tende a agravar o problema. Quando os sedimentos são remexidos, ocorre a liberação de mais nutrientes, alimentando ainda mais o ciclo da eutrofização”, explica Silva. Ele defende que intervenções desse tipo devem ocorrer em épocas específicas, preferencialmente durante a estiagem e com baixo índice de nutrientes na água, para evitar que a ação traga mais desequilíbrio ao sistema.

Alfaces-d’água: aliadas temporárias ou vilãs a longo prazo?

Ainda que estejam sendo tratadas com cautela, as alfaces-d’água não representam uma ameaça imediata. Pelo contrário, segundo o professor Orlando Carvalho, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), elas podem até contribuir para reduzir os impactos do excesso de nutrientes no lago.

“As macrófitas atuam como biofiltradoras naturais. Até certo ponto, elas conseguem reter parte dos nutrientes que provocam a proliferação das algas. O problema é quando essa cobertura vegetal ultrapassa 30% da superfície, pois aí começa a bloquear a luz solar e comprometer o equilíbrio do ecossistema”, explica o pesquisador, que acompanha os desdobramentos junto à Secretaria Municipal do Ambiente (Sema).

De acordo com Carvalho, a prefeitura deve manter um monitoramento contínuo da cobertura vegetal e, se necessário, intervir com remoção seletiva por embarcações. “É uma corrida contra o tempo. Se houver prolongamento do período seco, com o lago saturado de nutrientes e luz intensa, essas plantas vão se multiplicar rapidamente, podendo sufocar a vida aquática ao reduzir o oxigênio disponível na água”, aponta.

Soluções em análise e o risco da mortandade de peixes

A situação é considerada delicada. Um dos riscos mais iminentes é a queda abrupta do oxigênio dissolvido na água, seja pela morte e decomposição das cianobactérias, seja pela sobreposição das alfaces-d’água sobre a lâmina d’água. Ambas as situações podem levar à morte de peixes e invertebrados.

Para mitigar os danos, a Sema estuda a instalação de sistemas de aeração para reoxigenar o lago, embora esbarre na falta de equipamentos e recursos para viabilizar a solução em curto prazo. “Estamos de sobreaviso. Se os níveis de oxigênio caírem demais, teremos que agir rápido para evitar um colapso ecológico”, reforça Carvalho.

Enquanto isso, a natureza segue seu curso, com o lago carregando silenciosamente os sinais de um ecossistema em desequilíbrio. A invasão das alfaces-d’água, embora sutil, é um alerta visual de que os lagos urbanos de Londrina precisam de mais do que limpeza superficial: exigem planejamento ecológico e ações estruturais de recuperação ambiental.

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