Durante cinco décadas, a ciência acumulou evidências sobre como o clima afeta a produção animal. Fez isso em ritmo acelerado, com sofisticação crescente e colaboração internacional. O problema é que boa parte desse conhecimento permanece confinado a periódicos acadêmicos, longe das fazendas, das cooperativas e, sobretudo, das políticas públicas que poderiam traduzir pesquisa em transformação real. É essa contradição que um grupo de pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), colocou no centro de um estudo publicado na revista Tropical Animal Health and Production.
O trabalho analisou 1.694 artigos indexados na base Scopus entre 1974 e 2025, mapeando como a pesquisa sobre mudanças climáticas e produção animal evoluiu ao longo do tempo. Os números são expressivos: a taxa anual de crescimento chegou a 9,5%, e 35,71% das publicações resultaram de colaborações entre autores de diferentes países ou instituições. Ao longo do período, a área também se tornou mais interdisciplinar, incorporou novas ferramentas como modelagem computacional e aprendizado de máquina, e expandiu seu escopo para temas como resiliência, bem-estar animal e sustentabilidade.
Da temperatura ao sistema: como a ciência avançou
Nem sempre foi assim. Na década de 1990, os estudos se concentravam em aspectos pontuais, como o estresse térmico em bovinos. Com o tempo, essa lente foi se alargando. “Na década de 1990, os estudos tratavam, por exemplo, do estresse térmico. Atualmente, já incluem uma visão sobre adaptação, avaliando a resiliência das espécies animais para enfrentar a nova situação climática”, afirma Robson Mateus Freitas Silveira, zootecnista da Esalq e primeiro autor do artigo.
Essa mudança não foi aleatória. Silveira aponta que o salto qualitativo mais evidente aconteceu a partir de 2015, impulsionado pela Agenda 2030 da ONU e pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. “Acredito que esse avanço está relacionado à Agenda 2030, que mudou a perspectiva dos pesquisadores, encorajados a incluir os ODS em seus projetos”, explica. O resultado foi uma ciência mais sistêmica, que passou a observar saúde animal, meio ambiente e sociedade como partes de um mesmo problema.
Dois conceitos emergentes ilustram bem essa virada. O primeiro é a agricultura inteligente para o clima, conjunto de práticas que une manejo produtivo, gestão de florestas, pecuária e pesca em estratégias capazes de garantir produção de alimentos enquanto enfrenta o aquecimento global. O segundo é o conceito de saúde única, que reconhece a interdependência entre saúde humana, animal e ambiental como uma só equação, especialmente relevante diante de ameaças como zoonoses e resistência a antibióticos. Ambos os conceitos, porém, ainda estão sub-representados na pesquisa aplicada e praticamente ausentes das políticas públicas.
O fosso entre laboratório e porteira
O estudo identifica com clareza onde a ciência avançou e onde ainda tropeça. Pesquisas sobre emissões de gases de efeito estufa e impactos ambientais da pecuária estão consolidadas. As soluções tecnológicas, genéticas e de manejo aparecem cada vez mais na literatura. O que não acompanhou esse ritmo foi a capacidade de implementação, especialmente nos países mais vulneráveis.
Iran José Oliveira da Silva, professor do Departamento de Engenharia de Biossistemas da Esalq-USP e coordenador do estudo, resume o nó central da questão com precisão: “Não basta simplesmente gerar tecnologia. Temos de transformá-la em evidências e implantação, o que envolve políticas públicas e acesso do pequeno produtor a esses novos sistemas produtivos”.
O diagnóstico aponta para assimetrias que vão além da tecnologia. Países do Sul Global, em especial os africanos, aparecem sub-representados tanto como produtores de conhecimento quanto como beneficiários das soluções geradas. Isso cria um paradoxo: as regiões mais expostas às consequências das mudanças climáticas são justamente as que menos participam da construção das respostas científicas.
Regionalizar para ser assertivo
Uma das apostas centrais do grupo é justamente quebrar essa lógica. Silva defende que pesquisas futuras precisam ir além dos bancos de dados globais e dialogar com as especificidades de cada território. “Utilizar bancos de dados globais e transferir para uma região específica pode não comportar a realidade daquele país ou daquela área. Quando trabalhamos com informações regionalizadas, começamos a ser mais assertivos”, afirma.
Na prática, isso significa construir modelos que considerem o clima do Nordeste, o perfil dos rebanhos do Centro-Oeste, as condições dos pequenos produtores do Sul, e não apenas aplicar projeções desenvolvidas para outras latitudes. Silveira já trabalha nessa direção em seu pós-doutorado, articulando pesquisadores de diferentes regiões do Brasil para mapear os impactos das mudanças climáticas até 2100 na produção de aves e suínos e construir estratégias adaptadas a cada realidade.
O recorte não é pequeno. Com uma população mundial projetada em cerca de 10 bilhões de pessoas até 2050 pela ONU, a demanda por proteína animal continuará crescendo, o que significa mais pressão sobre terra, água e emissões. O sistema agroalimentar global já responde por aproximadamente um terço das emissões de gases de efeito estufa e é a principal fonte de metano proveniente da produção animal. Resolver essa equação exige ciência que chegue ao campo, e o estudo da Esalq deixa claro que isso ainda está por ser construído.
