Uma solução construída dentro de uma fazenda no interior do Mato Grosso está agora no centro do debate científico global sobre pecuária e clima. A dieta desenvolvida pelo pecuarista Márcio Jorge, em Rondonópolis, conseguiu reduzir as emissões de metano de bovinos confinados em até 77% — e será apresentada na EAAP-ASAS Conference on Livestock Farming and the Environment: Emissions and Solutions 2026, um dos principais fóruns internacionais dedicados ao impacto ambiental da produção animal.
Os números saem do papel com consistência: animais alimentados com o sistema emitiram cerca de 60 gramas de metano por dia, contra os 261 gramas registrados em sistemas convencionais, segundo testes conduzidos por pesquisadores do Instituto de Zootecnia de São Paulo. Para entender a dimensão disso, basta lembrar que o metano é mais de 28 vezes mais potente que o dióxido de carbono na retenção de calor na atmosfera e responde por aproximadamente 30% do aquecimento global acumulado desde a Revolução Industrial. No Brasil, a agropecuária concentra mais de 75% dessas emissões, conforme o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (Seeg).
A origem prática de uma solução técnica
O ponto de partida da tecnologia não foi o laboratório. Márcio Jorge desenvolveu a dieta a partir de um problema operacional real: reduzir a dependência de volumosos, simplificar o manejo e eliminar o uso de antibióticos no confinamento. A motivação era tornar a operação mais eficiente — o impacto climático veio como consequência direta da reformulação nutricional.
“O principal objetivo sempre foi facilitar o trabalho na fazenda. Desenvolvi uma ração que pode ser preparada de forma simples, sem necessidade de máquinas ou estruturas complexas”, relata o pecuarista. Segundo ele, o sistema reduz em até 90% a necessidade de maquinário e mão de obra no confinamento, o que já representa, por si só, uma vantagem competitiva relevante para produtores que operam em escala familiar ou média.
A dieta é baseada exclusivamente em ração seca, sem forragem e sem antibióticos. Essa combinação, que parecia arriscada do ponto de vista da saúde ruminal, demonstrou funcionar na prática — e ganhou validação científica ao longo de anos de acompanhamento.
O que acontece no rúmen
A redução expressiva de metano tem explicação fisiológica direta. O gás é produzido no rúmen durante o processo de fermentação dos alimentos, especialmente quando há abundância de hidrogênio disponível para as arqueas metanogênicas — microrganismos responsáveis pela síntese do metano. A eliminação dos volumosos na dieta reorganiza esse processo, diminuindo a taxa de fermentação associada à produção de hidrogênio e, consequentemente, reduzindo a emissão do gás.
“Parte relevante da redução de metano está associada à própria formulação da dieta, especialmente à exclusão integral de volumosos, o que diminui a fermentação ligada à produção de hidrogênio e, consequentemente, metano”, explica o pesquisador do Instituto de Zootecnia, Geraldo Balieiro Neto. Ele acrescenta que “a estratégia permite viabilizar dietas sem forragem mantendo a estabilidade ruminal, o que também contribui para simplificar o manejo alimentar”.
Esse ponto é técnica e economicamente relevante. Manter a estabilidade ruminal sem volumoso era considerada uma barreira quase intransponível no manejo convencional de confinamento. Os resultados obtidos na pesquisa indicam que, com a composição certa, é possível preservar os parâmetros fisiológicos do animal por períodos prolongados — mais de 305 dias de acompanhamento sem o uso de antibióticos, segundo os estudos conduzidos pelo Instituto de Zootecnia.
Desempenho produtivo sem concessões
Uma das objeções mais frequentes em relação a dietas alternativas é o risco de queda no desempenho zootécnico. No caso deste sistema, os dados apontam na direção contrária. O rendimento dos animais se manteve equivalente ao observado em sistemas tradicionais, com ganho de peso diário dentro dos parâmetros esperados para o confinamento intensivo. Além disso, os testes indicaram melhora em atributos de qualidade da carne, como coloração e maciez — variáveis que ganham peso crescente nas exigências de mercados exportadores.
“O desempenho é praticamente o mesmo da dieta convencional. A diferença está no manejo, que se torna muito mais simples”, afirma Márcio Jorge. Para o produtor, a combinação entre menor custo operacional, ausência de antibióticos e redução de emissões posiciona o sistema como uma alternativa viável tanto para quem busca eficiência quanto para quem precisa se adequar a mercados cada vez mais exigentes em termos de rastreabilidade e sustentabilidade.
Validação e os limites da comparação
A pesquisa já passou por diferentes etapas de validação experimental, incluindo ensaios com animais e sistemas controlados. Balieiro Neto destaca que os testes com compostos que atuam como sumidouros de hidrogênio no rúmen demonstraram funcionalidade consistente em dietas de alto concentrado com retirada de volumoso — estratégia que passou a ser aplicada em contextos produtivos reais.
O pesquisador ressalta, contudo, que comparações diretas com outras tecnologias de mitigação de metano demandam cautela. “As diferentes estratégias atuam em níveis distintos e não são diretamente comparáveis. Avaliações de custo-benefício exigem análise integrada de cada sistema produtivo”, pondera. Essa observação é importante para evitar generalizações: a eficácia da dieta está associada ao perfil do sistema de confinamento, à formulação específica da ração e ao acompanhamento técnico continuado.
Escala é o próximo desafio
O Brasil ocupa a quinta posição entre os maiores emissores de metano do mundo, e a pecuária bovina é a principal fonte nacional. Nesse cenário, uma dieta capaz de reduzir 77% das emissões por animal não é apenas uma curiosidade científica — é um ativo estratégico para o país cumprir compromissos climáticos sem abrir mão da produção.
O gargalo atual é a difusão. “Hoje, essa dieta é altamente viável e muitos produtores estão migrando. Mas eu trabalho praticamente sozinho e preciso orientar cada um, o que limita a expansão”, reconhece Márcio Jorge. A declaração expõe uma realidade recorrente no agro brasileiro: tecnologias com alto potencial que dependem de estruturas de transferência mais robustas para ganhar escala.
Do lado científico, o caminho passa pela construção de mecanismos de certificação baseados em métricas confiáveis. “Um caminho consistente é o fortalecimento de mecanismos de certificação, com métricas confiáveis e reconhecimento de práticas sustentáveis, permitindo avançar na construção de instrumentos de mercado e políticas públicas”, aponta Balieiro Neto.
A apresentação da pesquisa na EAAP-ASAS Conference de 2026 é um passo nessa direção. Levar uma solução desenvolvida em Rondonópolis para um dos principais fóruns globais de pecuária e clima sinaliza que o Brasil tem respostas técnicas próprias para a agenda de descarbonização — e que elas podem vir, cada vez mais, direto do campo.



