A pergunta que paira sobre muitos pecuaristas brasileiros é antiga: como produzir mais carne por hectare sem empurrar os custos para cima? A resposta que a Emater-DF apresenta na AgroBrasília 2026, em Brasília, passa por uma combinação de tecnologias acessíveis, manejo preciso e uma etapa do ciclo produtivo que ainda recebe menos atenção do que merece: a recria.
O Circuito da Bovinocultura, instalado em uma área de 5 mil metros quadrados dentro da feira, com 70% do espaço ocupado por pastagem real, é uma sala de aula a céu aberto. Desde a abertura do evento, na terça-feira (19), técnicos extensionistas conduzem demonstrações ao vivo para um público que vai de pequenos produtores familiares a gestores de propriedades de escala maior, todos com o mesmo interesse: eficiência.
A cerca que reorganiza o pasto e o resultado
O destaque do circuito é o sistema de pastejo em faixa com cerca elétrica, uma tecnologia que muda a forma como os animais consomem a forragem disponível. No manejo convencional, o rebanho tem acesso livre a toda a área, o que gera consumo desuniforme, pisoteio excessivo e desperdício significativo. Com o pastejo em faixa, o piquete é delimitado diariamente por uma linha de cerca elétrica móvel, forçando os animais a consumirem a forragem de forma ordenada e completa antes de avançar para a próxima faixa.
“Com isso, garantimos uma colheita de forragem mais eficiente e melhor desempenho no ganho de peso”, explica Douglas Mariz, zootecnista e extensionista rural da Emater-DF e um dos coordenadores do circuito. O efeito prático vai além do aproveitamento da pastagem: a técnica reduz a taxa de lotação necessária para atingir o mesmo resultado produtivo, o que poupa área, preserva o solo e melhora o controle financeiro da propriedade.
Recria: a etapa que define o lucro
Entre a desmama e a terminação dos animais existe uma fase chamada recria, e é justamente ela que o circuito coloca no centro da discussão. Essa etapa é considerada estratégica porque determina o tempo que o animal levará até atingir o peso de abate e, por consequência, o giro do capital investido na atividade. Uma recria mal conduzida significa mais meses de custo fixo por cabeça e menos retorno por ciclo.
O desafio se intensifica durante o período seco, quando a qualidade das pastagens cai de forma acentuada. Para contornar esse gargalo, o circuito apresenta sistemas de suplementação nutricional voltados especificamente para essa fase, além do modelo de Recria Intensiva a Pasto, conhecido como RIP. A suplementação acelera o ganho de peso, encurta o ciclo produtivo e aumenta a produção de carne por hectare sem depender de expansão de área.
Os visitantes acompanham ao vivo o manejo de novilhas de cruzamento industrial em sistema de suplementação a pasto, o que permite visualizar na prática o comportamento dos animais e o protocolo de oferta dos suplementos. A demonstração deixa claro que a tecnologia funciona em diferentes escalas: o projeto é construído pensando no pequeno produtor, mas os princípios se aplicam igualmente a propriedades maiores.
Curral de baixo custo: infraestrutura acessível como ponto de entrada
Outro elemento presente no circuito é um modelo de curral de baixo custo, projetado especialmente para propriedades com área e capital limitados. A estrutura funcional e enxuta mostra que é possível adotar manejo técnico de qualidade sem depender de infraestrutura cara, um dos principais argumentos que técnicos da Emater-DF usam para aproximar pequenos produtores de práticas que, historicamente, eram associadas apenas a grandes fazendas.
“O projeto pode ser adaptado também para sistemas produtivos maiores”, afirma Douglas Mariz, reforçando que a escala de aplicação não é uma limitação das tecnologias demonstradas, mas uma variável de ajuste dentro de cada realidade produtiva.
A combinação de curral acessível, pastejo em faixa e suplementação estratégica compõe um pacote técnico que, segundo os extensionistas, tem potencial de melhorar simultaneamente o fluxo de caixa, a conservação do solo e a taxa de lotação das propriedades, três indicadores que costumam andar juntos quando o manejo é conduzido com critério.
Orientação técnica todos os dias
Durante os cinco dias de evento, os visitantes não encontram apenas um espaço demonstrativo para observar: encontram extensionistas disponíveis para orientação técnica individualizada sobre todos os temas do circuito. Essa interação direta é parte do modelo da Emater-DF, que aposta na transferência de conhecimento presencial como complemento essencial às demonstrações visuais.
A AgroBrasília 2026 segue até sábado (23), das 8h30 às 18h, no Parque Tecnológico Ivaldo Cenci, na BR-251, km 5. O Circuito da Bovinocultura está inserido em uma feira que reúne as principais tendências do agronegócio brasileiro e, neste ano, coloca a pecuária de corte a pasto no mesmo patamar de relevância que as grandes culturas agrícolas — um sinal de que o setor começa a tratar a eficiência no campo como prioridade, e não como exceção.
