Agro
Rio Grande do Sul abre a colheita do arroz com 8% menos área e um recado claro ao mercado
Feira em Capão do Leão espera 21 mil visitantes e discute os gargalos que encolheram os arrozais gaúchos na safra 2025/26
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A 36ª Abertura Oficial da Colheita do Arroz e Grãos em Terras Baixas começou nesta terça-feira (24/2) na estação experimental da Embrapa Clima Temperado, em Capão do Leão, no Rio Grande do Sul.
O evento vai até quinta-feira (26/2) e a organização trabalha com expectativa de 21 mil visitantes em três dias, um número que, por si só, já diz muito sobre o peso desse setor para a economia gaúcha.
Área encolheu e o motivo é conhecido
Na temporada 2025/26, os arrozeiros gaúchos plantaram 891,9 mil hectares, queda de 8,06% sobre os 970,2 mil hectares cultivados na safra anterior, conforme dados do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga). A redução não é acidente climático nem capricho do produtor. O acesso ao crédito travou em 2025 e os custos de produção seguiram na contramão da rentabilidade. Com dinheiro escasso e margens apertadas, a decisão porteira para dentro foi reduzir área. Simples assim.
Aliás, essa equação é velha conhecida de quem trabalha com arroz irrigado no sul do país. A estrutura de custos da orizicultura gaúcha é pesada, e qualquer desequilíbrio entre crédito disponível e preço disponível no mercado se traduz diretamente em hectares deixados de lado.
Contudo, a produtividade deve compensar parte dessa perda. A projeção do Irga aponta entre 8.500 e 9.000 quilos por hectare nesta safra. Para uma cultura que trabalha com margens estreitas, esse índice faz diferença no resultado final da lavoura.
A feira cresceu — e isso não é detalhe
O evento que começa hoje é 15% maior do que o do ano passado em número de expositores, chegando a cerca de 230 estandes. Há mais vitrines tecnológicas, mais espaço para a agricultura familiar, com reforço da Secretaria de Desenvolvimento Rural do Rio Grande do Sul (SDR), e palestrantes internacionais na programação.
Para Denis Nunes, presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), o crescimento da estrutura reflete o momento do setor. “Esperamos um público maior que o do ano passado. A feira está muito robusta. Temos palestrantes internacionais e especialistas de diversas áreas”, afirmou.
Essa expansão em meio a uma safra de área reduzida não é contraditória. O setor investe em tecnologia justamente quando a produtividade por hectare precisa trabalhar mais para compensar o que se perdeu em extensão cultivada. Além disso, a presença de expositores de inovação em terras baixas sinaliza que o mix de produção do arroz gaúcho está sendo repensado, com foco em eficiência e não apenas em escala.
Tributação, Europa e o que está em jogo além da lavoura
A programação vai além das máquinas e dos cultivares. A reforma tributária entra na pauta, assim como o mercado global do arroz e as perspectivas de inserção do produto brasileiro no mercado europeu. São debates que impactam diretamente a competitividade da cadeia e que, na prática, vão definir se o arroz gaúcho ganha ou perde espaço nas próximas janelas de exportação.
Outro ponto que merece atenção é a discussão em torno da iniciativa “De Olho no Material Escolar”, que busca atualizar livros didáticos com dados científicos sobre o agronegócio. O setor orizícola gaúcho quer apresentar uma visão mais equilibrada e sustentável da atividade, contrapondo narrativas que considera distorcidas nos materiais de ensino. A presença desse tema em uma feira técnica diz muito sobre o quanto o agro gaúcho está atento à sua imagem fora da porteira.
Câmara Setorial e o prêmio que reconhece quem construiu o setor
Na quinta-feira (26/2), às 9h30min, ocorre a reunião da Câmara Setorial do Arroz, com lideranças e representantes do segmento debatendo bioenergia e o controle das tipificações do cereal nas embalagens. Esse segundo ponto, aparentemente técnico, tem impacto direto na confiança do consumidor e na rastreabilidade da cadeia produtiva.
Ainda nesta terça-feira, às 18h30min, acontece a entrega da premiação “Pá do Arroz”, que reconhece personalidades com contribuição relevante para o desenvolvimento da orizicultura gaúcha.
O evento é uma realização da Federarroz, com co-realização da Embrapa e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), e patrocínio do Irga. A escolha da estação experimental da Embrapa Clima Temperado como sede reforça o caráter técnico e científico da iniciativa, conectando pesquisa de campo às demandas reais dos produtores que chegam até Capão do Leão nos próximos três dias.
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