A safra 2026/27 de cana-de-açúcar começa com números que animam o setor sucroenergético. A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) divulgou nesta terça-feira (28) o primeiro levantamento do novo ciclo, projetando uma produção de 709,1 milhões de toneladas — volume 5,3% superior ao registrado na temporada anterior e o segundo maior da série histórica da Companhia, superado apenas pelo ciclo 2023/24. O que sustenta essa projeção é uma combinação direta entre clima favorável em 2025, recuperação da produtividade e expansão da área cultivada, fatores que juntos reposicionam o Brasil em um patamar competitivo relevante no mercado global de açúcar e biocombustíveis.
A produtividade média nacional estimada é de 77.753 quilos por hectare, crescimento de 3,4% em relação à safra passada. A área destinada à colheita, por sua vez, deve chegar a 9,1 milhões de hectares, alta de 1,9% e, se confirmada, será a maior área colhida já registrada nos levantamentos da Conab. Esses dois vetores, produtividade e área, atuam de forma complementar e explicam boa parte do salto projetado para o ciclo.
Sudeste lidera, Centro-Oeste sustenta o crescimento
O Sudeste segue como o epicentro da produção canavieira nacional. A Conab projeta 459,1 milhões de toneladas para a região, avanço de 6,8% sobre a safra anterior. A área colhida deve crescer 2,1%, alcançando 5,7 milhões de hectares, enquanto a produtividade média estimada é de 80.852 kg/ha — 4,6% acima do ciclo passado. O desempenho reflete, principalmente, as condições climáticas mais favoráveis que as observadas na última temporada, que havia pressionado para baixo os resultados das lavouras paulistas e mineiras.
O Centro-Oeste, segunda maior região produtora, também registra trajetória positiva. A área colhida deve crescer 1,8%, chegando a 2 milhões de hectares, com produtividade média projetada em 77.595 kg/ha, alta de 1%. A produção estimada para a região é de 154,5 milhões de toneladas, consolidando Mato Grosso do Sul e Goiás como protagonistas da expansão canavieira fora do eixo tradicional do Sudeste.
No Nordeste, a Conab projeta produção de 55,2 milhões de toneladas, crescimento de 3,7%, com área estimada em 901,3 mil hectares e produtividade de 61.248 kg/ha. O Sul apresenta colheita estimada em 36,2 milhões de toneladas, alta de 0,6% sobre o ciclo anterior. Já a região Norte é a única com leve recuo na área colhida, de 0,5%, totalizando 52,7 mil hectares. Ainda assim, a produtividade média das lavouras nortistas deve avançar 10,2%, chegando a 78.763 kg/ha, o que resulta em produção estimada de 4,2 milhões de toneladas — crescimento de 9,7% em relação à temporada passada.
Etanol na rota do recorde
A maior oferta de cana se traduz diretamente em mais combustível. A Conab projeta uma produção total de 40,69 bilhões de litros de etanol para a safra 2026/27, alta de 8,5% sobre a temporada anterior e um possível novo recorde histórico na série da Companhia. O número engloba tanto o etanol proveniente da cana quanto o derivado do milho, dois segmentos que avançam simultaneamente e reforçam a posição do Brasil como maior produtor de biocombustível do hemisfério sul.
O etanol de cana deve chegar a 29,26 bilhões de litros, crescimento de 7,1%. Desse total, o etanol hidratado — aquele utilizado diretamente nos veículos flex — responde pela maior fatia, com 18,29 bilhões de litros projetados, aumento de 6,3%. O etanol anidro, misturado obrigatoriamente à gasolina, deve alcançar 10,97 bilhões de litros, alta de 8,4%, sustentado pela continuidade da mistura compulsória que garante demanda estrutural ao produto.
O etanol de milho avança com ainda mais intensidade. A Conab estima produção de 11,43 bilhões de litros, crescimento de 12,3% sobre o ciclo anterior. O Centro-Oeste permanece como o principal polo produtor, mas o Nordeste ganha espaço com a entrada de novas unidades industriais, diversificando geograficamente a oferta do combustível e reduzindo a dependência exclusiva das regiões tradicionais.
Açúcar sob pressão externa
Diferentemente do etanol, o açúcar entra na safra 2026/27 em terreno mais delicado. A produção estimada é de 43,95 milhões de toneladas, leve recuo de 0,5% sobre a temporada anterior, reflexo direto da orientação das usinas para maximizar a fabricação de etanol diante de um mercado internacional de açúcar pressionado pelo excesso de oferta global. Índia e Tailândia retomaram volumes expressivos de produção, e o produto brasileiro, apesar de competitivo, enfrenta preços internacionais enfraquecidos que reduzem o estímulo ao mix açucareiro nas usinas do Centro-Sul.
O mercado de biocombustível, por outro lado, mantém sustentação mais firme. O etanol anidro segue amparado pela mistura obrigatória, enquanto o hidratado permanece mais sensível à paridade com a gasolina e ao comportamento do consumo interno. A expansão simultânea do etanol de cana e de milho reforça a perspectiva de abastecimento confortável ao longo do ciclo, ainda que a formação de preços continue condicionada às oscilações dos combustíveis fósseis no mercado doméstico e internacional.
Com área recorde projetada, clima colaborando e etanol em trajetória de máxima histórica, a safra 2026/27 posiciona o setor sucroenergético brasileiro para um dos ciclos mais robustos da última década — e os próximos levantamentos da Conab dirão se as condições de campo vão confirmar o que as estimativas iniciais já apontam.




