Santa Catarina instala URTs apícolas e aposta na qualificação para manter liderança em produtividade de mel

Com kits distribuídos pelo Estado e capacitações práticas no campo, extensionistas da Epagri levam tecnologia diretamente aos apicultores

Santa Catarina instala URTs apícolas e aposta na qualificação para manter liderança em produtividade de mel

Foto: Divulgação / Epagri

Santa Catarina encerrou 2024 como vice-campeã nacional em produtividade de mel, com índice de 45,03 kg/km² — quase seis vezes acima da média brasileira, que ficou em 7,54 kg/km². Por trás desse desempenho, há um fator que o setor apícola catarinense reconhece como determinante: a capacitação técnica constante, promovida principalmente pela Epagri e sustentada por investimentos públicos coordenados pela Secretaria de Estado da Agricultura e Pecuária (SAPE).

Para dar continuidade a essa estratégia, a SAPE disponibilizou recursos que viabilizaram a aquisição de 10 kits para a implantação de Unidades de Referência Tecnológica (URT) em apicultura distribuídas por todo o Estado. O repasse foi feito por meio da Fecoagro à Faasc, entidade responsável pela aquisição dos materiais. A Epagri assumiu o planejamento operacional, a instalação dos apiários e a gestão técnica das unidades, com acompanhamento direto dos extensionistas que atuam na cadeia produtiva do mel.

Estrutura de campo para quem produz de verdade

Cada kit adquirido com os recursos da SAPE reúne um conjunto completo de equipamentos: 10 colmeias padrão Langstroth com ninho, fundo, tampa e melgueira, 10 melgueiras com coletor de própolis tipo janela, 10 alimentadores de cobertura, 10 núcleos de quatro quadros, 20 kg de cera alveolada, tela excluidora de rainhas, fumigador e coletor de pólen. Trata-se de uma estrutura pensada para o trabalho real, não para demonstrações superficiais.

Rodrigo Durieux da Cunha, chefe da Divisão de Estudos Apícolas da Epagri, explica que os 10 kits darão origem a mais de uma dezena de URTs, já que alguns extensionistas optaram por dividir os materiais entre mais de uma propriedade, ampliando o alcance das ações sem comprometer a qualidade técnica das unidades.

As URTs funcionam como ambientes reais de aprendizado coletivo, onde agricultores, extensionistas e pesquisadores avaliam, testam e aperfeiçoam tecnologias e práticas de gestão. Não se trata de laboratórios isolados: são propriedades familiares em operação, nas quais o conhecimento é construído a partir da realidade do produtor.

“Nestas unidades conseguimos disseminar informações e práticas de manejo, tais como substituição de rainhas, seleção genética, termorregulação, manejos de manutenção no inverno, manejos de alimentação para alta produtividade e técnicas corretas para a colheita do mel, entre várias outras”, descreve Rodrigo Durieux da Cunha.

São Pedro de Alcântara: da propriedade familiar ao espaço de referência regional

A URT instalada em São Pedro de Alcântara, na Grande Florianópolis, foi uma das primeiras a entrar em operação, implantada no final de 2025 na propriedade de Maureci Pedro Schmidt, apicultor com cerca de 40 anos de experiência na atividade. Por meio da Epagri, Schmidt recebeu ninhos, melgueiras, coletores de própolis e demais equipamentos apícolas, e seu apiário passou a funcionar como espaço permanente de estudos, demonstrações técnicas e capacitações para produtores e interessados da região.

A instalação contou ainda com apoio da prefeitura municipal, que realizou a terraplanagem necessária para garantir adequada disposição das colônias e facilitar o acesso ao local — um detalhe logístico que faz diferença quando o objetivo é receber grupos de apicultores em campo.

Foto: Divulgação / Epagri

No dia 4 de março, a unidade sediou sua primeira capacitação formal, reunindo cerca de 15 pessoas entre técnicos da Epagri e apicultores da região. Os participantes receberam orientações sobre manejo alimentar de Apis mellifera e monitoramento e controle do ácaro Varroa destructor, uma das principais ameaças à sanidade das colônias. Além disso, puderam conhecer toda a estrutura de extração de mel e os equipamentos produtivos utilizados por Schmidt no cotidiano da propriedade.

A organização e condução do evento ficou a cargo dos extensionistas Maurício Antoniutti e Paulo Vianna, responsáveis pelas atividades de apicultura e meliponicultura da Epagri na Grande Florianópolis. Rodrigo Durieux da Cunha também participou, contribuindo com as discussões técnicas e atividades práticas.

O nível das colônias e a produtividade do apiário chamaram atenção dos participantes — resultado direto das boas práticas de manejo que Schmidt consolidou ao longo de quatro décadas. “A URT deverá servir como espaço permanente para futuras capacitações de técnicos e apicultores da região, atendendo ao planejamento e às demandas locais da cadeia produtiva do mel e demais produtos das abelhas”, projeta o chefe da Divisão de Estudos Apícolas.

A distância entre 10 kg e 50 kg por colmeia

A diferença de produtividade entre apiários catarinenses é expressiva e revela o quanto o acesso ao conhecimento técnico influencia diretamente os resultados econômicos do apicultor. No Estado, enquanto alguns produtores alcançam média de 50 kg de mel por colmeia por safra, outros não passam de 10 kg — índice que Rodrigo classifica como baixíssimo para o padrão da atividade.

“Hoje tem muito conhecimento na apicultura e muitos apicultores, muitas vezes, não têm acesso a essas informações”, aponta o pesquisador, indicando que o problema não está na ausência de tecnologia disponível, mas nos canais de difusão que chegam até quem está no campo.

As URTs atuam exatamente nesse ponto. Ao usar propriedades reais como espaço de demonstração e validação, a metodologia elimina a distância entre o que se sabe e o que se pratica. Para o apicultor que participa de uma capacitação em campo, as orientações sobre substituição de rainhas, seleção genética e manejo de inverno deixam de ser teoria e passam a ser algo observável, replicável e economicamente mensurável.

Além das URTs, a Epagri utiliza outras frentes de capacitação — oficinas, cursos, seminários, palestras e reuniões técnicas — realizadas de forma contínua em todo o território catarinense, sempre com foco na interação direta com o produtor e na demonstração de resultados práticos alcançados por quem já adotou as boas práticas de manejo.

“Essas unidades têm como finalidade demonstrar e fortalecer práticas sustentáveis de manejo, com ênfase na melhoria da produtividade e da qualidade do mel e dos demais produtos das abelhas, valorizando os recursos locais e contribuindo para o desenvolvimento da apicultura nas regiões atendidas”, afirma Rodrigo Durieux da Cunha.

A meta, neste ciclo, é que os 10 kits distribuídos pelo Estado originem ao menos uma dezena de URTs ativas, com capacidade de atender produtores de diferentes perfis e regiões — do litoral ao planalto — dentro de um calendário de capacitações que a Epagri já planeja para os próximos meses.

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