A digitalização do agronegócio brasileiro saiu do papel. Segundo levantamento da Embrapa, cerca de 84% dos produtores rurais do país já utilizam algum tipo de tecnologia digital nas operações, incluindo sensores, softwares de gestão, agricultura de precisão e plataformas de análise de dados. O número coloca o Brasil em uma posição consistente dentro da chamada Agricultura 4.0, modelo baseado na integração entre Internet das Coisas (IoT), Inteligência Artificial (IA), monitoramento remoto e big data para ampliar produtividade sem elevar proporcionalmente o consumo de recursos naturais.
Os resultados práticos já aparecem nas lavouras. A adoção de técnicas digitais de precisão permite reduzir em até 25% o uso de fertilizantes e em cerca de 20% o consumo de água por hectare em operações agrícolas que integram sensoriamento, análise de solo e aplicação variável de insumos. Esses números ganham peso quando colocados diante de uma projeção da FAO: a produção global de alimentos precisará crescer aproximadamente 70% até 2050 para atender à demanda de uma população em expansão, o que torna a eficiência tecnológica não apenas desejável, mas operacionalmente necessária.
Dados que chegam antes do problema
O coração da transformação digital no campo está na capacidade de antecipar. Sensores conectados a redes IoT monitoram em tempo real variáveis como umidade do solo, temperatura, presença de pragas e condição das culturas, alimentando plataformas analíticas que processam esses dados e emitem alertas antes que qualquer perda produtiva se instale. Consequentemente, o produtor deixa de reagir ao problema e passa a administrar cenários.
Esse fluxo contínuo de informações também alimenta sistemas de manutenção preditiva em infraestruturas agrícolas de maior escala, como pivôs de irrigação, silos e equipamentos de colheita. A lógica é a mesma: identificar a falha no dado antes de senti-la no campo.
Para Marcos Brum, Vice-presidente de Negócios e Tecnologia da Softtek Brasil, a escala das operações rurais modernas exige esse nível de integração. “A escala das operações em setores como agro, energia e mineração exige cada vez mais integração entre dados de campo, sistemas industriais e plataformas corporativas. A tecnologia permite transformar grandes volumes de informação em inteligência operacional, aumentando previsibilidade e eficiência nas cadeias produtivas”, afirma.
Investimentos crescem mais de 15% ao ano
O mercado acompanha o movimento com capital. Estimativas do BNDES indicam que os investimentos em tecnologias digitais aplicadas ao agronegócio crescem mais de 15% ao ano no Brasil, puxados pela agricultura de precisão, pelo monitoramento remoto e pelas plataformas analíticas em nuvem. Esse ritmo de expansão reflete tanto a pressão por eficiência operacional quanto a necessidade de rastreabilidade e governança nas cadeias produtivas, exigências cada vez mais presentes em mercados importadores exigentes, como a União Europeia.
A migração para ambientes em nuvem é um dos pilares desse crescimento. Ao unificar dados financeiros e operacionais em plataformas integradas, as propriedades rurais e as empresas do agronegócio ganham visibilidade sobre toda a operação, da compra de insumos à comercialização da safra. Além disso, a modernização de ERPs de nova geração permite que gestores tomem decisões com base em indicadores consolidados, eliminando a fragmentação de sistemas legados que ainda persiste em parte do setor.
Sustentabilidade como variável operacional
A redução no uso de insumos é o dado mais imediato, mas a transformação digital do agro vai além do corte de custos. Plataformas dedicadas ao monitoramento de emissões de carbono e consumo energético passam a integrar a gestão das propriedades, respondendo a compromissos ambientais assumidos por cooperativas e tradings junto a mercados globais. Dessa forma, a sustentabilidade deixa de ser um posicionamento institucional e vira uma métrica operacional, medida em tempo real e auditável.
Brum reforça que essa mudança de patamar é irreversível. “A expectativa é que, à medida que pressões por eficiência, sustentabilidade e governança aumentem, a digitalização deixe de ser um diferencial competitivo e passe a representar um requisito essencial para a operação dessas indústrias”, projeta o executivo.
Cibersegurança: o gargalo que cresce junto com a digitalização
À medida que equipamentos agrícolas, sistemas de irrigação e plataformas de gestão se conectam à internet, a superfície de exposição a riscos digitais também cresce. A cibersegurança industrial tornou-se uma demanda concreta no agronegócio de maior escala, com foco na proteção de infraestruturas críticas que, uma vez comprometidas, podem interromper operações inteiras em momentos decisivos como a colheita.
Essa é uma das cinco tendências identificadas pela Softtek para os próximos anos, ao lado da inteligência operacional baseada em IA, da rastreabilidade total nas cadeias de suprimentos, da gestão de sustentabilidade por plataformas dedicadas e da modernização dos sistemas corporativos. Todas apontam para o mesmo movimento: o agronegócio que opera com margens cada vez mais ajustadas não pode mais depender de decisões baseadas em experiência empírica isolada. O dado virou insumo.
