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Setor de máquinas agrícolas recua 17% no primeiro bimestre e produtores adiam investimentos diante do crédito caro e da alta do diesel

Inadimplência acima de 7% e reflexos da guerra no Oriente Médio pressionam fabricantes e travam a renovação do maquinário nas propriedades rurais brasileiras

Escrito por: Agronamidia Revisão: Derick Machado
17 de maio de 2026
in Noticias
Setor de máquinas agrícolas recua 17% no primeiro bimestre e produtores adiam investimentos diante do crédito caro e da alta do diesel

O setor de máquinas agrícolas abriu 2026 com um sinal de alerta. Nos dois primeiros meses do ano, as vendas recuaram 17% em relação ao mesmo período de 2025, somando R$ 8 bilhões em negócios, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). A projeção para o restante do ano não é animadora: a entidade estima queda de 8% no acumulado de 2026, num cenário em que juros elevados, inadimplência crescente e instabilidade internacional se somam para conter o apetite do produtor rural por novos equipamentos.

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O mercado interno concentrou R$ 6,8 bilhões desse total, o equivalente a 85% das vendas do bimestre. As exportações avançaram 9%, atingindo cerca de R$ 1,2 bilhão, mas o crescimento externo está longe de compensar o que se perdeu dentro do país. Tratores e colheitadeiras, os dois produtos mais representativos do setor, puxaram a queda: as vendas de tratores recuaram quase 16%, com pouco mais de mil unidades entregues, enquanto as colheitadeiras registraram retração ainda mais severa, de 40%, com apenas 309 unidades comercializadas nos dois primeiros meses.

Diesel e adubos: custo de produção pressiona a decisão de compra

Um dos fatores que mais pesam sobre a decisão de renovar o maquinário é o custo operacional da propriedade. A guerra no Oriente Médio empurra o preço internacional do petróleo para cima, e esse movimento se transmite diretamente ao diesel consumido no campo, encarecendo o plantio, a colheita e o transporte da produção. Adubos nitrogenados, cuja fabricação depende do gás natural, também sofrem pressão de alta, comprimindo ainda mais a margem do produtor.

Pedro Estevão Bastos, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Abimaq (CSMIA), reconhece os esforços do governo federal para conter os impactos da alta do diesel, mas avalia que o problema estrutural persiste. “A gente vê sim uma boa vontade do governo, mas vai aumentar o custo, já aumentou. Quanto aos adubos nitrogenados, é mais difícil ainda, vai aumentar o custo, então não tem muito o que fazer”, afirma.

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A disparidade entre o preço interno e o externo do diesel é, para Bastos, o ponto mais crítico dessa equação. O executivo descreve o que vem pela frente como uma “avalanche” de pressão de custos, o que coloca o produtor diante de uma escolha difícil: manter o caixa preservado ou comprometer capital em equipamentos novos num momento de margem apertada.

Inadimplência acima do dobro da média histórica

Além do custo do insumo, o endividamento do setor revela o grau de tensão financeira que se acumulou nas propriedades rurais. A inadimplência no segmento de máquinas agrícolas está próxima de 7%, índice significativamente acima da média histórica, que girava em torno de 1,5%. Fora do Plano Safra, o percentual sobe para cerca de 13%, um patamar que acende o sinal vermelho nas instituições financeiras.

A consequência direta é a mudança no comportamento dos bancos. Diante do descumprimento de pagamentos em escala crescente, as instituições passaram a exigir mecanismos mais robustos de garantia, como a alienação fiduciária da propriedade rural, como condição para liberar crédito. Isso representa uma barreira adicional para produtores que dependem de financiamento para adquirir novos equipamentos, especialmente os de menor porte, que historicamente acessam linhas de crédito subsidiadas dentro do Plano Safra.

Crédito restrito e juros altos determinam o ritmo do setor

O ambiente de juros elevados no Brasil aprofunda esse quadro. Com a taxa Selic pressionada, o custo do crédito rural fora das linhas subsidiadas encarece o financiamento de máquinas, tornando a renovação do maquinário uma decisão cada vez mais postergada. O produtor que precisaria trocar um trator com dez anos de uso calcula hoje se o retorno produtivo do novo equipamento justifica o custo financeiro da operação, e em muitos casos a resposta tem sido não. Esse comportamento é observado com atenção pelo mercado. Daniela Amorim, analista do setor de bens de capital agrícola, avalia que o produtor brasileiro está mais seletivo na alocação de capital.

“O produtor que antes trocava o equipamento a cada cinco ou seis anos agora está alongando esse ciclo para oito ou dez anos. Ele prefere investir em manutenção e colher o equipamento até o limite do que assumir uma dívida cara num momento em que a rentabilidade da safra já está apertada”, analisa.

Esse ciclo mais longo de uso dos equipamentos também aumenta o risco operacional nas propriedades, já que máquinas mais velhas estão mais sujeitas a falhas durante a colheita, janelas de tempo que não comportam paradas técnicas prolongadas.

Exportações crescem, mas não sustentam o setor sozinhas

O avanço de 9% nas exportações de máquinas agrícolas no primeiro bimestre mostra que a indústria brasileira tem competitividade no mercado externo, especialmente em países da América Latina e da África, onde a demanda por equipamentos agrícolas segue em expansão. Contudo, o mercado interno responde por 85% do faturamento do setor, o que torna qualquer retração doméstica impossível de ser compensada apenas pelo desempenho externo.

A combinação de crédito restrito, diesel caro, adubos em alta e inadimplência elevada projeta um 2026 de ajuste para fabricantes e revendas de máquinas agrícolas no Brasil. Para o produtor rural, a equação é ainda mais direta: renovar o maquinário depende menos da vontade de modernizar a propriedade e mais da capacidade de absorver o custo financeiro dessa decisão num cenário que, por ora, não oferece folga.

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