Um levantamento inédito identificou 36 iniciativas de Soluções Baseadas na Natureza (SBN) lideradas por mulheres distribuídas pelos seis biomas brasileiros — Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal e Pampa. O estudo, intitulado “Mulheres Liderando Soluções Climáticas Baseadas na Natureza no Brasil: Um Mapeamento”, foi produzido pelas organizações SHE Changes Climate Brasil, Instituto Sinal do Vale e Rede de Desenvolvimento Humano (REDEH), e vai além do registro: propõe orientar políticas públicas voltadas à capacitação e à valorização do trabalho feminino nessas cadeias de valor.
Os projetos mapeados reúnem desde cooperativas em territórios semiáridos até startups de paisagismo urbano, passando por empresas estruturadas com dezenas de colaboradoras e mais de mil hectares de atuação. A diversidade de perfis é, segundo as pesquisadoras, um dos aspectos mais relevantes do levantamento.
“O legal da pesquisa foi ter uma diversidade de projetos. Algumas são empresas mais estruturadas, com 50 pessoas envolvidas e 1.000 hectares de atuação, com produtos desenvolvidos na bioeconomia e já estão vendendo. Depois temos cooperativas, movimentos e redes de mulheres”, detalha Katie Weintraub, autora do relatório e coordenadora da SHE Changes Climate no Brasil.
Restauração, agroecologia e bioeconomia: o que os projetos têm em comum
As abordagens identificadas no mapeamento abrangem restauração florestal com espécies nativas, sistemas agroflorestais, agroecologia, viveiros de plantas nativas, ecoturismo e práticas voltadas à proteção de polinizadores. Parte dos projetos está diretamente ligada à bioeconomia, com extração e comercialização de óleos vegetais e produtos naturais. Outro grupo concentra soluções urbanas, como infraestrutura verde e restauração de nascentes e paisagens degradadas.
Todos os casos analisados foram avaliados a partir de três pilares: clima, biodiversidade e bem-estar humano. Os dados resultantes mostram que 56% das iniciativas criam oportunidades de geração de renda diretamente para mulheres, 61% reduzem a carga de trabalho doméstico e de cuidado não remunerado, e 86% incorporam conhecimentos tradicionais e locais em suas práticas.
Esses números revelam um padrão que vai além da produção. “Ficou claro nesse mapeamento que as mulheres acabam atuando como conectoras e multiplicadoras. Quando você investe em SBN lideradas por mulheres, tem esse potencial de multiplicação interessante. O dinheiro será investido na família, geração de emprego para outras mulheres, e tem esse olhar muito forte da comunidade”, analisa Weintraub.
Da Caatinga às cidades: casos que ilustram a força do modelo
Na região semiárida, a Cooperativa Ser do Sertão (Coopsertão) exemplifica como a liderança feminina opera em uma das áreas mais vulneráveis às mudanças climáticas do país. Liderada por mulheres, a cooperativa combina agrofloresta e agroindustrialização sustentável para fortalecer a resiliência climática na Caatinga, integrando a restauração de áreas degradadas com a produção de alimentos adaptados às condições de seca prolongada. A iniciativa responde diretamente à realidade de comunidades que precisam produzir sob pressão hídrica crescente, sem abandonar práticas culturais e alimentares locais.
No Pantanal, a Chácara Boa Vida, localizada em Bonito (MS), atua na orientação técnica em desenho agroflorestal, na produção e comercialização de sementes e mudas de espécies nativas de alta qualidade, e no apoio à restauração em assentamentos rurais e territórios indígenas. O projeto conecta cadeias produtivas locais a demandas por restauração em larga escala, gerando renda e preservando o patrimônio genético regional.
Já no Piauí, na zona de transição entre Cerrado, Caatinga e floresta amazônica, a Co.Paisage atua como uma startup de paisagismo urbano com foco em infraestrutura verde. A empresa combina mapeamento ambiental, planejamento participativo e paisagismo tático para implementar hortas urbanas, superfícies permeáveis e sistemas de baixo custo para retenção e infiltração de água em espaços públicos e comunitários de Teresina. O modelo demonstra que as SBN não se restringem ao ambiente rural — e que a liderança feminina também está redesenhando a relação das cidades com seus ecossistemas.
Advocacy como próximo passo
O mapeamento não encerra o trabalho. A etapa seguinte prevê capacitações com as empreendedoras e articulação direta com o poder público. “A primeira fase foi colher dados, e agora estamos fazendo um planejamento para desdobramentos. A ideia é fazer capacitações e conversas com o poder público”, afirma Weintraub.
A coincidência com a formulação de uma nova estratégia nacional de SBN — cujos trabalhos foram iniciados no contexto da COP30, em Belém — torna o momento particularmente estratégico. Para a coordenadora, o estudo precisa ser instrumentalizado como argumento em processos de incidência política.
“Temos uma nova estratégia nacional de SBN. Então, podemos fazer essa interlocução com o poder público. Quero usar esse estudo como um argumento para esse trabalho de advocacy, pois temos indicadores. Se não colocamos ativamente a discussão de gênero, as mulheres acabam não sendo incluídas.”
O levantamento chega em um momento em que o Brasil precisa ampliar e consolidar sua agenda de bioeconomia e restauração florestal. Projetos como os mapeados mostram que parte significativa da execução dessa agenda já está acontecendo no campo, nas florestas e nas cidades — e que as mulheres estão na linha de frente.
