A Timbaúba, empresa de sucos naturais sediada em Petrolina (PE), decidiu apostar em uma combinação que poucos imaginariam sair do semiárido nordestino: a mistura de uva com açaí como vetor de internacionalização. O produto já circula em cerca de 350 lojas nas cidades japonesas de Tóquio e Osaka, comercializado sob a marca OQ, e chegou recentemente ao mercado chinês, dois dos países com maior consumo global de alimentos funcionais e superfrutos.
A trajetória da empresa não é linear. Fundada em 1990 com foco na produção de frutas de mesa no Vale do São Francisco, a Timbaúba virou a chave em 2016 e passou a concentrar suas operações em sucos integrais e água de coco. A mudança de rota mostrou resultado: em 2025, a companhia registrou faturamento de R$ 172 milhões, e a projeção para 2026 é chegar a R$ 210 milhões.
Para Sydney Tavares, presidente da Timbaúba, o crescimento não veio por acaso. Veio da decisão de mecanizar operações, aproveitar integralmente a fruta colhida e, sobretudo, diversificar o portfólio em um momento em que boa parte das empresas da região ainda permanecia atrelada à manga e à uva de mesa. “Precisamos trazer outras culturas para a região e gerar mais renda”, afirma Tavares.
O açaí fora do lugar certo, no lugar certo
Introduzir o açaí no semiárido pernambucano pode parecer uma aposta improvável à primeira vista. A fruta é símbolo da Amazônia, cultivada em condições de umidade e temperatura muito distintas das do Vale do São Francisco. Contudo, os testes iniciados em 2023 e os primeiros frutos colhidos no final de 2025 indicam que a adaptação é viável, ao menos nas condições irrigadas da propriedade da Timbaúba. Dos 1.000 hectares irrigados que a empresa mantém em operação, 100 hectares já estão em implementação com a nova cultura.
A lógica por trás da escolha é estratégica e comercial. O açaí carrega um apelo de superfruta consolidado nos mercados asiáticos, onde consumidores buscam produtos com alto valor nutricional e origem tropical. Aliado à uva do São Francisco, fruta já com reconhecimento internacional pela qualidade, o blend cria um produto com identidade dupla: o frescor e a tradição da viticultura regional combinados com o apelo funcional da fruta amazônica.
“É uma bebida que explora o apelo de superfruta do açaí”, destaca Tavares. O desafio, segundo ele, está em mudar o comportamento do consumidor brasileiro, mais acostumado ao açaí na versão sorbet, densa e gelada, do que ao formato suco. No mercado externo, por outro lado, essa barreira cultural praticamente inexiste, o que facilita a penetração do produto nas gôndolas japonesas e chinesas.
R$ 100 milhões distribuídos com precisão cirúrgica
Para sustentar esse crescimento, a Timbaúba vai investir R$ 100 milhões ao longo dos próximos quatro anos, com meta de dobrar de tamanho até 2030 e ampliar a participação das exportações no faturamento total de 5% para 25%. A distribuição dos recursos revela uma empresa que entende onde estão seus gargalos produtivos.
A maior fatia, R$ 50 milhões, vai para a reforma das parreiras que já passaram do pico de produtividade. Cerca de 200 hectares de uva serão renovados, o que pode elevar a produção em até 20%, segundo estimativa da própria companhia. “O ativo biológico perde produtividade, então é preciso reformar a área constantemente”, explica Tavares, ressaltando que a renovação do parreiral não é um custo, mas uma condição básica de competitividade.
Outros R$ 20 milhões serão aplicados na ampliação da capacidade industrial, com foco no processamento e no envase, que precisarão acompanhar o aumento de volume previsto. Os R$ 30 milhões restantes têm destino na tecnologia de campo, onde a mecanização já avança em velocidade acima da média do setor.
Drones, robótica e o novo padrão do campo
Toda a área da Timbaúba é monitorada por drones que identificam variações de coloração, umidade e temperatura na lavoura. Ao detectar anomalias que indicam presença de pragas ou estresse hídrico, o sistema aciona automaticamente um drone de pulverização localizada, sem necessidade de intervenção manual. “Antes, esse processo era feito a olho nu. Agora, ao detectar coloração, umidade e temperatura, o sistema aciona o drone de pulverização automaticamente”, descreve Tavares.
Além disso, a empresa planeja investir em um braço robótico para realizar a poda mecanizada dos parreirais, atividade que hoje ainda demanda grande volume de mão de obra. No horizonte mais longo, Tavares projeta a incorporação de robôs humanoides para executar o processo de poda com maior precisão e constância, o que reduziria a dependência de trabalho manual em uma das etapas mais críticas do ciclo produtivo da uva.
Esse movimento da Timbaúba reflete uma tendência que especialistas em viticultura e fruticultura irrigada já identificam como irreversível no São Francisco. Para Leandro Borges, pesquisador da Embrapa Semiárido e referência no manejo de videiras no Nordeste, a mecanização da poda e do monitoramento fitossanitário é o próximo salto de eficiência para as empresas da região. “A pressão por redução de custos operacionais e a escassez de mão de obra especializada tornam a automação não apenas desejável, mas necessária para quem quer escalar produção com qualidade”, avalia o pesquisador.
O mercado asiático como destino estratégico
A escolha do Japão e da China como mercados prioritários não é aleatória. Ambos os países possuem consumidores com alto poder aquisitivo, cultura consolidada de consumo de bebidas funcionais e crescente interesse por produtos de origem tropical com identidade geográfica clara. O Vale do São Francisco, com sua viticultura de clima semiárido e colheitas que ocorrem em períodos distintos do Hemisfério Norte, oferece um diferencial de calendário que facilita o abastecimento contínuo ao mercado externo.
A internacionalização do suco de açaí com uva posiciona a Timbaúba em um segmento ainda pouco explorado por produtores brasileiros: o de bebidas premium com identidade regional dupla, unindo a Amazônia e o Nordeste em um único produto. Para Alysson Rocha, especialista em mercados internacionais de frutas tropicais e consultor de exportação para o setor de sucos, essa combinação tem potencial real de diferenciação nas prateleiras asiáticas. “O consumidor japonês, em particular, valoriza rastreabilidade, origem clara e apelo nutricional. Um produto que une duas frutas brasileiras com histórias distintas e complementares tem tudo para se consolidar como premium nesse mercado”, analisa Rocha.
Com as exportações ainda representando 5% do faturamento, há espaço considerável para crescimento sem depender exclusivamente de ganhos no mercado doméstico. A meta de chegar a 25% até 2030 exige não apenas produção escalada, mas também regularidade de oferta, padronização de qualidade e presença comercial construída com consistência nas praças asiáticas, justamente o que os investimentos em reforma de parreirais, ampliação do envase e automação buscam garantir.
O Vale do São Francisco sempre foi reconhecido pela fruticultura irrigada de alto desempenho. A Timbaúba aposta que o próximo capítulo dessa história será escrito com uva, açaí e tecnologia embarcada, exportados para o outro lado do mundo.
