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Sul exportador de leite: como a região que importa 8% do que consome quer virar referência no mercado internacional de lácteos

Plano estrutural prevê integração vertical, crédito diferenciado e incentivos fiscais para ampliar a inserção do leite brasileiro no exterior

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Sul exportador de leite: como a região que importa 8% do que consome quer virar referência no mercado internacional de lácteos

O Brasil produz leite em escala de potência agrícola, mas exporta como se fosse um país periférico do setor. Apenas 0,34% da produção nacional chega ao mercado externo, enquanto 8% do leite consumido no país vem de nações do Mercosul, segundo dados do IBGE. Esse desequilíbrio, que combina subaproveitamento da capacidade produtiva com dependência de importações, é justamente o que a Aliança Láctea Sul Brasileira (ALSB) quer reverter com o Plano de Incentivos à Exportação de Lácteos, apresentado no início de março, em Curitiba.

A proposta não é apenas ampliar volumes exportados. O objetivo central é reduzir a vulnerabilidade da cadeia às oscilações do mercado interno, que empurra preços e margens para baixo sempre que a oferta supera a demanda e não há destino alternativo para o produto. Diversificar para o mercado externo, portanto, é também uma forma de dar mais estabilidade ao produtor dentro do Brasil.

A Aliança reúne os três estados do Sul em um fórum público-privado voltado a harmonizar condições produtivas, industriais e comerciais da região. Juntos, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul respondem por 43% da produção brasileira de leite, o que confere ao bloco peso suficiente para ser um interlocutor relevante em negociações de acesso a mercado e para estabelecer padrões de qualidade competitivos com os exigidos internacionalmente.

Dez gargalos que explicam por que o leite brasileiro não é competitivo

Para Airton Spies, consultor da ALSB e um dos responsáveis pela estruturação do plano, o diagnóstico precede qualquer avanço concreto. “Nós identificamos dez gargalos que explicam por que não somos competitivos. Se não enfrentarmos esses pontos, continuaremos limitados ao mercado interno”, afirma.

Os gargalos mapeados se distribuem em dois grupos. O primeiro envolve problemas de escala e eficiência dentro da porteira: propriedades com produção limitada, baixo rendimento agronômico e zootécnico, qualidade do leite aquém dos padrões exigidos no exterior e rendimento industrial em sólidos abaixo do potencial. Além disso, a volatilidade de preços e a fragmentação entre os elos da cadeia dificultam a formação de uma frente comercial coesa.

O segundo grupo é estrutural. Brucelose e tuberculose ainda comprometem o acesso a determinados mercados, a capacidade industrial instalada opera com ociosidade e a infraestrutura rural, especialmente em energia, estradas e conectividade, eleva os custos logísticos a ponto de anular margens antes mesmo do produto chegar ao porto.

Contudo, Spies enxerga na superação desses entraves não apenas uma oportunidade para o setor, mas uma estratégia de interesse nacional. “Se o Sul se tornar exportador, tira pressão do mercado interno. Quando há exportação, abre-se espaço. O próprio país deveria se interessar pela estratégia exportadora da Aliança Láctea, porque é importante para o Brasil”, defende o consultor.

Competitividade de preço como condição de entrada

Um dos eixos mais sensíveis do plano é o alinhamento dos custos de produção brasileiros aos padrões internacionais. Exportar leite não é apenas uma questão de vontade institucional ou de acesso sanitário: é, antes de tudo, uma equação econômica. Enquanto o custo de produção interno estiver desalinhado com o preço praticado no mercado externo, a exportação não se sustenta sem mecanismos de apoio.

Por isso, o plano prevê salvaguardas para equalização de amortizações em momentos de desalinhamento entre preços internos e internacionais, além de linhas de crédito com juros, prazos e carência diferenciados para produtores e indústrias inseridos na estratégia exportadora. A proposta inclui ainda incentivos fiscais para implantação de projetos, com possibilidade de isenção de tributos sobre equipamentos destinados aos elos produtivo e industrial da cadeia.

Para Spies, o cenário de competitividade plena não é utópico, mas depende de ajustes sistêmicos que precisam ocorrer de forma coordenada. “Quando o leite brasileiro estiver alinhado aos preços internacionais, nós seremos competitivos e romperemos o teto do mercado interno e passaremos a ter dois mercados”, projeta.

Essa perspectiva de dois mercados simultâneos, interno e externo, é justamente o que pode transformar a estrutura de precificação do setor. Com demanda externa ativa, o produtor passa a ter poder de barganha que hoje não existe, o que, consequentemente, reduz a assimetria histórica entre quem produz e quem processa.

Integração vertical e o papel do Estado

O modelo operacional previsto no plano aposta na formalização da cadeia em arranjos de integração vertical, aproximando produtores, cooperativas e indústrias em torno de metas comuns de volume, qualidade e preço. Essa estrutura é comum em países exportadores consolidados de lácteos, como Nova Zelândia e Irlanda, onde a coordenação entre os elos da cadeia é fator determinante da competitividade.

No Paraná, o governo estadual sinalizou apoio direto à estratégia. Para o secretário da Agricultura e do Abastecimento, Márcio Nunes, a infraestrutura rural é parte da solução. “O governo está investindo fortemente em infraestrutura rural, especialmente na recuperação de estradas, porque sabemos que uma logística eficiente é fundamental para reduzir custos e aumentar a competitividade do produtor”, afirma o secretário, acrescentando que o Estado está “pronto para criar as condições e apoiar os empreendimentos que permitam esse avanço.”

Além dos investimentos em infraestrutura, o horizonte do plano se estende até 2030, com metas progressivas de volume exportado e redução da participação das importações na oferta doméstica. A formação de polos produtivos regionais é parte dessa arquitetura: a ideia é concentrar competência técnica, escala industrial e rastreabilidade em áreas específicas, criando condições para atender exigências sanitárias e regulatórias dos principais mercados compradores.

A força do Sistema FAEP no movimento

O presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, reforça que o engajamento institucional é condição para que a estratégia saia do papel. “No âmbito do Sistema FAEP, em colaboração com as entidades do setor, pretendemos impulsionar as exportações do setor lácteo. Trabalharemos em conjunto, de forma coordenada e estratégica, para aumentar esse fluxo”, declara.

A coordenação entre Sistema FAEP, ALSB, governos estaduais e indústrias é, aliás, o que diferencia este plano de iniciativas anteriores que não avançaram por falta de governança. A estrutura de fórum público-privado da Aliança permite que decisões sobre normas sanitárias, padrões de qualidade e acesso a crédito sejam tomadas de forma alinhada entre os três estados, evitando a fragmentação que historicamente enfraqueceu a posição do Brasil nas negociações comerciais do setor lácteo.

O Brasil tem terra, clima, rebanho e capacidade industrial para figurar entre os grandes exportadores de leite e derivados. O que faltava era um plano estruturado, com diagnóstico real dos entraves e mecanismos concretos de superação. Com o plano da ALSB em execução, o setor leiteiro do Sul começa, finalmente, a tratar a exportação não como uma aposta, mas como uma política.

Fonte: Sistema FAEP

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