A temporada do pinhão começa oficialmente nesta quarta-feira (1º/04) no Rio Grande do Sul, conforme determina a Lei Estadual nº 15.915/2022, que regula a colheita, o transporte, a comercialização e o armazenamento da semente. Na Serra Gaúcha, principal polo produtor do Estado, a Emater/RS-Ascar projeta uma safra menor do que a registrada no ano passado — e os preços ao consumidor já refletem essa escassez, chegando a R$ 15,00 o quilo nos pontos de venda.
A redução não é uniforme. Os percentuais variam entre 12,5% e 60% dependendo do município, e o principal fator por trás desse desempenho está fora do controle do extrativista: o clima. Secas recorrentes nos últimos anos combinadas com chuvas concentradas no final do inverno e início da primavera comprometeram o período de reprodução e desenvolvimento do pinhão. Soma-se a isso a alternância produtiva natural da espécie, que apresenta oscilações cíclicas de produtividade a cada três anos aproximadamente.
“A redução na safra se deve principalmente às condições climáticas durante o período de reprodução e crescimento do pinhão. As oscilações de produção da Araucária angustifólia são cíclicas. Como planta nativa, a espécie apresenta variações de produtividade, em média, a cada três anos”, explica Adelaide Juvena Kegler Ramos, engenheira florestal da Emater/RS-Ascar Regional de Caxias do Sul.
Lei protege espécie ameaçada e organiza a cadeia produtiva
A legislação que regula o calendário do pinhão não é apenas uma formalidade burocrática. A Araucária angustifólia é uma espécie ameaçada de extinção, e o marco legal foi construído justamente para conciliar dois objetivos: garantir a proteção da árvore e da fauna associada a ela, e assegurar a geração de renda para as famílias que dependem do extrativismo. Durante os meses de abril, maio e junho, o corte da araucária nativa também é vedado por lei.
Adelaide reforça que a coleta controlada é o caminho para manter esse equilíbrio ao longo do tempo. “As estimativas, baseadas nos estudos realizados pelos extensionistas em campo, com os extrativistas e entidades relacionadas à atividade, apresentam variações significativas entre os municípios. Por isso, é essencial aferir a informação com o avanço na colheita”, orienta a engenheira florestal.
Campos de Cima da Serra: queda expressiva nos maiores produtores
São Francisco de Paula é, em safras normais, um dos maiores produtores do Estado, com produção anual estimada em 120 toneladas. Neste ano, a previsão caiu para cerca de 40 toneladas — uma redução superior a 60%. As aproximadamente 160 famílias da agricultura familiar envolvidas na atividade no município sentem diretamente esse impacto na composição da renda.
Muitos Capões e Jaquirana, municípios com 70 e 160 famílias envolvidas respectivamente, estimam produção de 120 toneladas cada, o que representa queda de 20% em relação à safra anterior. Cambará do Sul projeta 36 toneladas — 40% abaixo do registrado no ano passado —, enquanto Bom Jesus prevê 35 toneladas com redução de 30%, envolvendo 120 famílias. São José dos Ausentes estima 30 toneladas e queda de 50% na produção, com 90 famílias na atividade.
Contudo, nem todos os municípios registram retração. Caxias do Sul deve manter os índices da safra anterior, e Canela projeta crescimento de até 100% em relação ao ano passado. Monte Alegre dos Campos, Pinhal da Serra, Esmeralda e Vacaria também se mantêm como áreas relevantes de produção. Em Gramado, Canela e Nova Petrópolis, o pinhão integra a cadeia do turismo e movimenta a economia local durante o período da colheita — ainda que o volume produzido nessas localidades seja de difícil mensuração, dado o caráter predominantemente informal da atividade.
No que diz respeito ao estado fitossanitário, as variedades mais precoces da Serra já estão em fase de maturação e debulha, ao passo que as mais tardias ainda se encontram em desenvolvimento. As pinhas e pinhões apresentam boa sanidade, mas tamanho reduzido em relação ao padrão normal, consequência direta das estiagens prolongadas que afetaram a região.
Passo Fundo e Soledade iniciam safra com estabilidade
A situação nas demais regiões produtoras do Estado é mais favorável. Na região de Passo Fundo, a safra começa com normalidade, pinhas e pinhões bem formados, e produção estimada em 130 toneladas. Barracão, Caseiros, Capão Bonito do Sul, Mato Castelhano, Água Santa e Lagoa Vermelha lideram a produção nessa área. Em maio, Barracão realiza a 12ª Festa do Pinhão e 13ª Expofeira entre os dias 29 e 31, integrando as comemorações dos 62 anos de emancipação do município.
Na região de Soledade, cerca de 140 famílias produtoras projetam colher 100 toneladas nesta safra, com produto já maduro disponível para a semana da Páscoa. Fontoura Xavier lidera a produção regional, com previsão de 50 toneladas colhidas por 70 famílias. Além da comercialização in natura, o município mantém a tradição das tendas à margem da BR-386, onde o pinhão é vendido cozido, agregando valor ao produto ainda no ponto de origem.
“Esse tipo de comercialização tem grande importância socioeconômica para o município”, avalia Vivairo Zago, extensionista e engenheiro agrônomo da Emater/RS-Ascar em Soledade. Para ele, a safra regional deste ano deve seguir um ritmo equilibrado: “Deverá ser como a do ano passado, nem com excesso de produção, nem com alta ou baixa produtividade, mas uma safra normal”.
Passa Sete, segundo maior produtor da região, projeta 12 toneladas por 20 famílias. Os municípios de Boqueirão do Leão, Gramado Xavier, São José do Herval, Santa Cruz do Sul, Vale do Sol, Herveiras e Barros Cassal somam outros 45 produtores com previsão de 35 toneladas adicionais.
Preço sobe e cadeia segue informal
Com a oferta menor na Serra, os preços já pressionam para cima. O quilo do pinhão ao produtor parte de R$ 5,00 quando entregue a intermediários e pode chegar a R$ 16,00 em supermercados e feiras. O beneficiamento do produto — na forma de pinhão moído ou paçoca — eleva a cotação para R$ 20,00 ou R$ 30,00 o quilo, abrindo uma alternativa real de valorização para quem consegue agregar processamento à cadeia. Na região de Soledade, o preço ao produtor oscila entre R$ 6,00 e R$ 8,00 o quilo, enquanto o consumidor paga entre R$ 12,00 e R$ 15,00.
O piso mínimo pago ao extrativista neste ano está fixado em R$ 4,63/kg, conforme a Portaria MAPA nº 868, de 1º/12/2025. Toda a colheita é manual e a cadeia ainda carece de iniciativas estruturadas de beneficiamento, industrialização e armazenamento. A comercialização se concentra no período de abril a junho, podendo se estender até agosto nas regiões com variedades tardias, como a conhecida localmente como “macaco”.
Zago resume bem o perfil de quem sustenta essa cadeia: “Muitos produtores só fazem coleta, já outros têm áreas de produção própria, mas a grande maioria aproveita essa ocasião para ganhar um dinheiro extra. São famílias que têm outras atividades ao longo do ano”. O fator cultural também pesa. Segundo o agrônomo, o consumo está diretamente ligado às temperaturas: “O frio é um estímulo para consumirmos pinhão” — e com o inverno ainda à frente, a demanda deve sustentar os preços ao longo da temporada.



