Por anos, piscicultores tocantinenses conduziram suas criações de tilápia seguindo tabelas alimentares desenvolvidas para outros estados. Parecia funcionar, ao menos na ausência de alternativa. Mas o que estava na prática sendo ignorado era simples: o Tocantins tem condições ambientais próprias, temperatura da água diferente, dinâmica de reservatórios específica, e parâmetros que não se encaixam perfeitamente no que foi formulado para Goiás ou qualquer outra região.
Esse descompasso entre o protocolo adotado e a realidade local gerava desperdício silencioso. A ração, insumo que chega a representar 80% dos custos de produção na piscicultura, era fornecida em quantidades calibradas para outras águas. O resultado: gastos maiores do que o necessário, sem nenhum ganho equivalente no desempenho dos peixes.
Foi exatamente esse cenário que motivou a pesquisa conduzida pela Embrapa Pesca e Aquicultura, em Palmas, resultando em um Comunicado Técnico disponibilizado gratuitamente e que promete mudar a forma como a tilápia-do-nilo é manejada no estado.
O que foi testado, e onde
Os experimentos foram conduzidos no reservatório de Lajeado, um dos principais espelhos d’água utilizados para a piscicultura de tanques-rede no Tocantins. Os pesquisadores partiram da tabela alimentar já conhecida e usada na região de Serra da Mesa, em Goiás, e testaram uma adaptação: uma redução semanal de 10% na taxa de alimentação.
Dois grupos de peixes foram acompanhados ao longo do ciclo produtivo. Um seguiu o manejo convencional; o outro, o protocolo adaptado. Ao final, os animais que receberam menos ração chegaram a resultados equivalentes em crescimento, sobrevivência e rendimento de carcaça. Em 119 dias, os peixes evoluíram de 210 gramas para 936 gramas, com conversão alimentar média de 1,7 e taxa de sobrevivência de 97%.
“É uma tecnologia que valida, pela primeira vez para as condições do Tocantins, uma tabela de alimentação específica para a engorda da tilápia em tanques-rede. Até então, os produtores utilizavam tabelas desenvolvidas para outras regiões, como os reservatórios de Serra da Mesa e Cana Brava, em Goiás”, explica Ana Paula Oeda Rodrigues, pesquisadora da Embrapa Pesca e Aquicultura e líder do estudo.
O impacto direto no bolso do produtor
Traduzir ciência em números que fazem sentido na porteira é o que torna essa pesquisa concreta. Um quilo de tilápia produzido com o manejo convencional tem custo estimado em R$ 7,00. Com o novo protocolo, esse valor cai para R$ 6,51 — uma redução de aproximadamente 7% apenas no custo com alimentação. Para produções maiores, a diferença se multiplica de forma significativa ao longo de um ciclo produtivo completo.
A tabela validada traz recomendações semanais para peixes entre 190 gramas e acima de 1 quilo, com quatro refeições diárias, taxa de alimentação baseada na biomassa, ração com 32% de proteína bruta e granulometria de pellets variando entre 4 e 8 milímetros conforme o estágio de crescimento. O documento inclui ainda exemplos práticos de cálculo de ração diária, tornando a adoção acessível mesmo para produtores sem formação técnica aprofundada.
Boas práticas que completam a equação
Adotar a tabela, no entanto, é apenas parte da solução. A pesquisadora é firme em destacar que o manejo precisa ser conduzido com disciplina operacional para que os resultados apareçam de verdade.
“É fundamental também evitar sobras de ração nos tanques-rede, utilizar comedouros, fixar horários de alimentação, realizar biometrias periódicas para acompanhar o crescimento dos peixes e armazenar a ração em condições adequadas”, ressalta Ana Paula Oeda.
Cada um desses pontos tem impacto direto na eficiência alimentar. Sobras de ração, por exemplo, aumentam o desperdício e comprometem a qualidade da água, o que pode afetar a saúde dos peixes e exigir intervenções corretivas. Biometrias regulares garantem que a taxa de alimentação seja ajustada com precisão à biomassa real do lote, evitando tanto o subconsumo quanto o excesso.
Um estado com potencial represado
O Tocantins ainda colhe resultados modestos na piscicultura. Em 2024, a produção de tilápia ficou em torno de 700 toneladas — volume que reflete, em grande medida, a regulamentação recente da atividade na região. O potencial técnico, porém, é de outra ordem: estimativas apontam capacidade produtiva de até 290 mil toneladas anuais, número que evidencia o quanto ainda está por ser explorado.
Nesse contexto, a validação de uma tabela alimentar regionalizada chega como ferramenta estratégica. Reduzir custos, ajustar protocolos à realidade local e oferecer segurança técnica ao produtor são passos que pavimentam o caminho para uma cadeia mais competitiva. A pesquisadora reforça, contudo, que a tecnologia deve ser tratada como ponto de partida, não como solução universal: regiões com perfis ambientais distintos precisam validar e ajustar a tabela localmente antes de adotá-la em larga escala.
O lançamento oficial do Comunicado Técnico ocorreu durante a VII Reunião Técnica sobre Produção de Peixes em Tanques-Rede nos Reservatórios do Tocantins, na Agrotins, em Palmas. O documento está disponível gratuitamente nos canais da Embrapa Pesca e Aquicultura.
