Minas Gerais deu um passo estratégico para conter o greening antes que ele chegue com força aos seus pomares. Produtores do Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba e noroeste do estado lançaram o projeto Cinturão Antigreening, iniciativa coordenada pelo Sistema Faemg Senar em parceria com sindicatos rurais da região, com o objetivo de proteger uma área superior a 150 mil km² — território que concentra cerca de 50% de toda a produção citrícola mineira.
A escolha do momento não é casual. Minas Gerais ocupa hoje a segunda posição nacional na produção de laranja, limão e tangerina, de acordo com o IBGE, e a área cultivada cresceu cerca de 6% nos últimos cinco anos. Quanto maior a produção, maior a exposição ao risco. O estado cresce, investe e planta — e é exatamente por isso que a proteção sanitária se tornou urgente.
O inimigo que não tem cura
O greening, também chamado de huanglongbing (HLB), é causado por uma bactéria transmitida pelo psilídeo (Diaphorina citri), inseto altamente móvel e capaz de percorrer longas distâncias com facilidade. O que torna a doença ainda mais crítica é a ausência de tratamento: plantas infectadas não se recuperam. Consequentemente, o único caminho viável é a prevenção, e o cinturão mineiro foi estruturado exatamente com essa premissa.
A estratégia é direta. O projeto envolve eliminação de plantas hospedeiras do psilídeo transmissor, monitoramento contínuo das lavouras e resposta rápida a eventuais focos identificados. Não se trata de uma campanha isolada, mas de um sistema coordenado de vigilância que conecta produtores, sindicatos rurais e o aparato técnico do Sistema Faemg Senar em torno de um objetivo comum.
Para Osny Zago, presidente do Núcleo dos Sindicatos dos Produtores Rurais do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, a lógica é simples e direta: “Esse cinturão vai proteger uma grande área produtiva e trazer mais segurança para os investimentos”, afirma. A barreira sanitária, na visão do representante, não serve apenas ao agricultor individual — ela protege toda a cadeia econômica da citricultura regional.
Legislação municipal como primeira linha de defesa
Alguns municípios não esperaram o avanço da iniciativa estadual e já saíram na frente com medidas legislativas. Araxá, Sacramento e Ibiá aprovaram leis que proíbem o plantio da murta, planta ornamental que funciona como hospedeira do psilídeo e facilita sua proliferação nas proximidades dos pomares. A medida parece simples, mas seu impacto sanitário é relevante: reduz a presença do inseto em áreas urbanas e periurbanas, diminuindo o risco de contaminação nas propriedades rurais adjacentes.
A expectativa agora é ampliar essa legislação para outros municípios da região, consolidando um modelo replicável que coloca Minas Gerais como referência nacional em prevenção ao greening. “É uma legislação simples, mas com grande impacto para o setor”, destaca Osmar Gonçalves, presidente do Sindicato Rural de Araxá.
O que aconteceu onde a prevenção falhou
Os números de outros estados e países funcionam como um alerta direto para o que Minas Gerais tenta evitar. Na Flórida, considerada referência mundial na produção de suco de laranja, o greening gera prejuízos estimados em US$ 1 bilhão por ano e reduziu a produtividade local em até 30%, obrigando o estado americano a importar matéria-prima para manter sua indústria funcionando. No Brasil, São Paulo, Bahia e Sergipe já enfrentam perdas severas decorrentes do avanço da doença — e os dados mais recentes do Fundecitrus mostram que, em 2025, houve aumento de 7,4% na incidência do HLB na região que inclui São Paulo e parte do território mineiro.
O Triângulo Mineiro ainda apresenta níveis de incidência mais baixos que essas regiões. Porém, essa janela de controle não ficará aberta indefinidamente, e o setor mineiro sabe disso. “Três de cada quatro copos de suco de laranja consumidos no mundo são produzidos no Brasil. O desafio sanitário é enorme”, destaca Mariana Marotta, analista do Sistema Faemg Senar, reforçando a dimensão do que está em jogo além das fronteiras estaduais.
Produtor investe e aposta no cinturão como proteção do capital
O avanço da doença não freou os investimentos no setor. O produtor Franco Cruz Carvalho implantou 250 hectares de laranja em Ibiá e projeta alcançar produtividade de até 1.200 caixas por hectare a partir do próximo ciclo. Para ele, o Cinturão Antigreening não é apenas uma política pública — é parte do cálculo econômico da propriedade. “A iniciativa é fundamental para levar informação e evitar que enfrentemos os mesmos problemas de outras regiões”, afirma o produtor, que enxerga na barreira sanitária uma proteção direta sobre o capital investido nos novos pomares.
Esse comportamento reflete uma tendência crescente no setor: produtores que investem em escala precisam, necessariamente, de um ambiente sanitário estável. Sem controle do greening, o retorno financeiro de novos plantios fica comprometido desde o início. O cinturão, nesse sentido, funciona tanto como ferramenta agronômica quanto como instrumento de viabilidade econômica para a citricultura mineira nos próximos anos.
