O parreiral que produz uva para consumo próprio. O açude no fundo da propriedade. A linguiça defumada feita em casa há três gerações. Para muitas famílias rurais, esses elementos são parte natural do cotidiano. Para a Epagri de Curitibanos, eles são o ponto de partida de um negócio turístico com potencial real de transformar a renda da agricultura familiar na região.
O movimento ganhou forma concreta no início de maio, quando a unidade local da Epagri reuniu 54 pessoas para debater turismo rural, entre produtores, técnicos, proprietários de restaurantes e famílias que já trabalham com agroindústria. O encontro revelou tanto o que a região já tem quanto o caminho que ainda precisa ser percorrido.
O que Curitibanos já oferece
Quem imagina que o turismo rural na região está começando do zero se engana. Curitibanos já conta com pesque-e-pague, colha-e-pague de uva, propriedades que recebem visitantes, espaços para eventos, restaurantes rurais e produtores de embutidos, conservas e panificados com venda direta. A base existe. O que falta, em grande parte, é estrutura, planejamento e visão de negócio.
“Curitibanos já tem trabalhos com turismo rural, mas o potencial é enorme, com muito trabalho ainda para se desenvolver”, avalia Juliana Golin Krammes, extensionista da Epagri no município. Para ela, o momento atual é de mobilização: “Nosso objetivo, neste momento, é motivar as famílias rurais para que elas vejam o potencial de trabalhar com turismo em suas propriedades e ter aumento de renda.”
A palestra principal do evento foi conduzida por Katiucia Micheli Visentainer, engenheira-agrônoma e turismóloga da Epagri de Rio do Sul, que trouxe a experiência acumulada no Alto Vale do Itajaí, uma das regiões catarinenses com turismo rural mais consolidado. Além da inspiração prática, ela apresentou os caminhos concretos que os municípios precisam percorrer: planejamento territorial, cadastros junto ao Ministério do Turismo e organização dos atrativos em roteiros que façam sentido para o visitante.
Da trajetória pessoal ao roteiro regional
Um dos momentos mais marcantes do encontro foi o relato de Karine Duarte França, proprietária da Casa França, empreendimento de turismo rural em Curitibanos. Ao compartilhar sua trajetória, ela colocou em perspectiva o que significa transformar uma propriedade rural em um destino: não é apenas sobre receber visitas, mas sobre construir uma experiência que conecte o visitante à identidade do lugar, ao trabalho da família e à cultura local.
Karine também apresentou planos para o desenvolvimento de roteiros turísticos integrados na região — uma iniciativa que, se bem articulada, tem capacidade de multiplicar o impacto econômico para além de uma única propriedade, distribuindo o fluxo de visitantes por diferentes pontos e fortalecendo o território como um todo.
Capacitação como próximo passo
O evento não terminou em palestra. A extensionista Juliana apresentou o Curso de Turismo Rural da Epagri, oferecido no Centro de Treinamento de São Joaquim, e o grupo respondeu com interesse concreto: 14 participantes já formaram turma e se inscreveram para a capacitação prevista para o segundo semestre.
Esse número, embora pequeno em termos absolutos, representa algo relevante: são 14 famílias que decidiram transformar interesse em ação. Em regiões onde o turismo rural ainda está em estágio inicial, o ponto de virada quase sempre começa assim, com um grupo pequeno que aprende, aplica e inspira os vizinhos a fazer o mesmo. Foi assim no Alto Vale do Itajaí, e a Epagri de Curitibanos aposta que o ciclo pode se repetir.
A parceria com a Associação de Municípios da Região do Contestado (AMURC) e com a Prefeitura reforça que a iniciativa não é isolada. O turismo rural, quando planejado em escala regional, deixa de ser apenas uma alternativa de renda individual e passa a funcionar como vetor de desenvolvimento econômico para municípios inteiros — gerando empregos, valorizando a produção local e atraindo um perfil de visitante que gasta, fica e volta.
