Pecuaria
Banco genético de tilápia reforça o futuro da piscicultura brasileira
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3 dias atrásem
Por
Claudio P. Filla
A tilapicultura ocupa hoje um papel central na aquicultura nacional, respondendo por cerca de 65% de toda a produção de peixes cultivados no Brasil. No entanto, por trás dos números expressivos, cresce uma preocupação silenciosa: a redução da diversidade genética ao longo dos anos, resultado do uso repetido de poucas linhagens e de cruzamentos entre indivíduos aparentados. É nesse contexto que surge o banco de germoplasma de tilápia-do-nilo, uma iniciativa estratégica voltada à segurança produtiva e genética do setor.
O projeto foi desenvolvido pelo Núcleo de Pesquisa Pescado para Saúde e resultou na formação de uma das mais amplas reservas genéticas da espécie no país. Ao analisar nove populações de tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus), coletadas em estados que vão de Santa Catarina ao Ceará, os pesquisadores construíram um retrato detalhado da variabilidade existente nas criações brasileiras, revelando diferenças que não são perceptíveis apenas pela aparência externa dos peixes.
Diversidade invisível, mas decisiva
Embora as populações analisadas apresentem características morfológicas semelhantes, os dados genéticos mostraram um cenário mais complexo. As análises indicaram a formação de quatro agrupamentos genéticos distintos, além de sinais consistentes de endogamia, prática comum em sistemas produtivos intensivos e que, ao longo do tempo, pode comprometer crescimento, resistência a doenças e eficiência alimentar.
Esses achados reforçam a importância de olhar além da performance imediata e considerar a base genética como um ativo estratégico. A diversidade funciona como uma espécie de seguro biológico, permitindo que a produção se adapte a mudanças ambientais, novas doenças e variações climáticas cada vez mais frequentes.
Uma reserva genética para o futuro da produção
Para preservar esse patrimônio biológico, mais de 2.600 exemplares foram reunidos na unidade do Instituto de Pesca, em São José do Rio Preto. O conjunto funciona como uma verdadeira “poupança genética”, capaz de abastecer programas de melhoramento, recomposição de plantéis e pesquisas futuras voltadas à sustentabilidade da tilapicultura.
A caracterização dos animais foi realizada de forma abrangente. Além das medições corporais tradicionais, o estudo incorporou avaliações de rendimento de filé com o uso de ultrassonografia, uma tecnologia que permite estimar a qualidade do produto ainda com o peixe vivo. Paralelamente, análises moleculares com marcadores de DNA aprofundaram o entendimento sobre o grau de parentesco, variabilidade e estrutura genética das populações.
Linhagens, desempenho e adaptação ao Brasil
Os resultados também evidenciaram diferenças importantes entre linhagens amplamente utilizadas na piscicultura. Populações associadas ao programa internacional Genetically Improved Farmed Tilapia (GIFT), por exemplo, apresentaram maior rendimento de filé, enquanto linhagens como a chitralada demonstraram crescimento mais limitado em determinadas condições.
Esse tipo de informação amplia a capacidade de escolha dos produtores e dos programas de melhoramento, permitindo selecionar peixes mais compatíveis com as condições ambientais brasileiras, além de favorecer ganhos econômicos e melhor aproveitamento da matéria-prima.
Ciência aplicada à sustentabilidade da aquicultura
O Núcleo de Pesquisa Pescado para Saúde atua com apoio da FAPESP, no âmbito do programa Centros de Ciência para o Desenvolvimento, e tem sede no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. A iniciativa conta ainda com a participação de pesquisadores vinculados à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, fortalecendo a integração entre ciência, gestão pública e produção.
Ao reunir genética, tecnologia e visão de longo prazo, o banco de germoplasma se consolida como uma ferramenta essencial para garantir que a tilapicultura continue crescendo de forma eficiente, resiliente e alinhada aos desafios ambientais e produtivos do país.
Fonte:Núcleo Pescado para Saúde / Agencia Fapesp

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