Os dejetos das vacas leiteiras da família Capitani, em Xaxim, no Oeste de Santa Catarina, eram um passivo ambiental constante, com odores, proliferação de moscas e risco de contaminação. Hoje, esse mesmo material alimenta o fogão da casa, aquece a água para a higienização do sistema de ordenha e fertiliza a lavoura sem que a família precise comprar adubo inorgânico. A mudança veio com a instalação de um Biodigestor de Baixo Custo, tecnologia desenvolvida pela Epagri na primeira década dos anos 2000 com apoio da Embrapa, e que segue em contínuo aprimoramento.
O investimento total na estrutura foi de R$ 15 mil, valor que incluiu geomembrana, caixas de areia e passagem, calhas para coleta de água da chuva, tubulações, cerca de isolamento, fogão campeiro e fogareiro. O projeto contou com financiamento do Sicoob e apoio operacional da Prefeitura de Xaxim, responsável pela abertura do tanque. Para propriedades com rebanho entre 20 e 30 vacas, o custo médio do sistema fica entre R$ 8 mil e R$ 10 mil, e o retorno do investimento ocorre em até dois anos, considerando a redução simultânea no consumo de lenha, gás de cozinha, energia elétrica, mão de obra e insumos de fertilização.
Do esterco ao fogão: como o biogás entra na rotina da propriedade
O processo é direto. Os dejetos dos animais são direcionados ao biodigestor, onde bactérias anaeróbias decompõem a matéria orgânica e liberam biogás, composto principalmente por metano. Esse gás é captado, armazenado e distribuído por tubulações até os pontos de uso dentro da propriedade. Na família Capitani, o biogás já substituiu o gás GLP no cozimento de alimentos e a lenha no aquecimento da água para limpeza dos equipamentos de ordenha. A próxima etapa prevista é conectar o sistema ao aquecimento de chuveiros e torneiras da residência, o que ampliaria ainda mais a redução da conta de energia elétrica.
A produtora rural Aline Capitani resume bem o que mudou na propriedade: “Eu com certeza recomendo para outros produtores, não somente por uma questão econômica, mas também ambiental. A gente fala tanto em preservação do meio ambiente e não tem só que falar, a gente tem que fazer.” Como a instalação é recente, a família ainda está quantificando a economia gerada, mas os benefícios práticos no dia a dia já são perceptíveis.
Biofertilizante direto na lavoura, sem necessidade de curtimento
Além do biogás, o processo de biodigestão gera o digestado, subproduto líquido rico em nitrogênio, fósforo e potássio. Ao contrário do esterco bruto, esse material pode ser aplicado diretamente na lavoura sem necessidade de compostagem ou curtimento prévio, o que representa ganho significativo de tempo e mão de obra para o produtor. Paulo Gonçalves Duchini, extensionista rural da Epagri em Xaxim, detalha o potencial agronômico do material: “Esse digestado apresenta grande quantidade de nutrientes e uma rápida resposta das plantas, podendo substituir grande parte dos adubos inorgânicos necessários.” Consequentemente, a dependência de fertilizantes sintéticos cai, reduzindo diretamente o custo variável da safra.
Para pequenas propriedades da região Oeste, onde a pressão sobre a margem da atividade leiteira é constante, essa combinação entre menor gasto com energia e menor gasto com fertilização representa uma virada estrutural no custo de produção, não apenas uma economia pontual.
Tecnologia criada em 2008 já atravessou o Brasil
O primeiro Biodigestor de Baixo Custo foi instalado em 2008, em uma propriedade no município de Laurentino, no Alto Vale do Itajaí. Dez anos depois, a Embrapa formalizou a validação da tecnologia. Osnei Córdova Muniz, extensionista da Epagri que acompanhou a instalação pioneira, conta que o alcance do sistema foi além do esperado: “Hoje, esse sistema está praticamente no Brasil todo. O produtor de Laurentino já recebeu mais de 300 visitas de interessados em conhecer o biodigestor.” O número exato de unidades instaladas no país não é controlado, o que por si só indica a capilaridade que a tecnologia atingiu ao longo de mais de 15 anos.
O que diferencia este sistema dos biodigestores industriais é exatamente a simplicidade construtiva e o custo acessível ao agricultor familiar. A geomembrana substitui estruturas de concreto, a instalação não exige mão de obra especializada e a manutenção é mínima. Duchini reforça que esse conjunto de características cria um potencial expressivo de adoção no Oeste catarinense, região que concentra pequenas propriedades leiteiras e onde a escala não permite investimentos de grande porte.
Descarbonização começa na porteira
O biodigestor também se encaixa na agenda de descarbonização da pecuária, debate que ganhou urgência com a proximidade da COP30, prevista para Belém, no Pará. Ao capturar o metano que seria emitido pelos dejetos a céu aberto e convertê-lo em energia útil, o sistema reduz diretamente a pegada de carbono da propriedade.
Para Jeferson João Soccol, coordenador estadual do Programa Desenvolvimento e Sustentabilidade Ambiental da Epagri, a tecnologia responde de forma prática a várias demandas simultâneas do setor: “O biodigestor é uma tecnologia extremamente importante e acessível aos agricultores familiares. Há uma expectativa de que ela ganhe mais relevância e adesão a partir da disponibilização de recursos financeiros de fomento pelo estado de Santa Catarina, através da Epagri, e de eventos como o que estamos realizando em Xaxim.”
A propriedade da família Capitani passará a funcionar como unidade de referência técnica para a região, recebendo visitas de produtores e técnicos interessados em conhecer o sistema em operação. O próximo passo já está marcado: um Dia de Campo promovido pela Epagri e parceiros, na própria propriedade, na linha Santa Lúcia, em Xaxim, na próxima quarta-feira, 18 de março, a partir das 13h30. Para quem produz leite no Oeste e ainda trata dejeto como problema, a visita pode ser o ponto de partida para transformá-lo em receita.



