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Home Mercado Agro

Biodigestor transforma esterco de vacas leiteiras em economia de energia para família do Oeste catarinense

Tecnologia de baixo custo desenvolvida pela Epagri com apoio da Embrapa substitui gás, lenha e fertilizante químico em Xaxim e já atrai produtores da região

Revisão: Derick Machado
16 de março de 2026
in Mercado Agro
(Foto: Aline Capitani)

(Foto: Aline Capitani)

Os dejetos das vacas leiteiras da família Capitani, em Xaxim, no Oeste de Santa Catarina, eram um passivo ambiental constante, com odores, proliferação de moscas e risco de contaminação. Hoje, esse mesmo material alimenta o fogão da casa, aquece a água para a higienização do sistema de ordenha e fertiliza a lavoura sem que a família precise comprar adubo inorgânico. A mudança veio com a instalação de um Biodigestor de Baixo Custo, tecnologia desenvolvida pela Epagri na primeira década dos anos 2000 com apoio da Embrapa, e que segue em contínuo aprimoramento.

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O investimento total na estrutura foi de R$ 15 mil, valor que incluiu geomembrana, caixas de areia e passagem, calhas para coleta de água da chuva, tubulações, cerca de isolamento, fogão campeiro e fogareiro. O projeto contou com financiamento do Sicoob e apoio operacional da Prefeitura de Xaxim, responsável pela abertura do tanque. Para propriedades com rebanho entre 20 e 30 vacas, o custo médio do sistema fica entre R$ 8 mil e R$ 10 mil, e o retorno do investimento ocorre em até dois anos, considerando a redução simultânea no consumo de lenha, gás de cozinha, energia elétrica, mão de obra e insumos de fertilização.

Do esterco ao fogão: como o biogás entra na rotina da propriedade

O processo é direto. Os dejetos dos animais são direcionados ao biodigestor, onde bactérias anaeróbias decompõem a matéria orgânica e liberam biogás, composto principalmente por metano. Esse gás é captado, armazenado e distribuído por tubulações até os pontos de uso dentro da propriedade. Na família Capitani, o biogás já substituiu o gás GLP no cozimento de alimentos e a lenha no aquecimento da água para limpeza dos equipamentos de ordenha. A próxima etapa prevista é conectar o sistema ao aquecimento de chuveiros e torneiras da residência, o que ampliaria ainda mais a redução da conta de energia elétrica.

A produtora rural Aline Capitani resume bem o que mudou na propriedade: “Eu com certeza recomendo para outros produtores, não somente por uma questão econômica, mas também ambiental. A gente fala tanto em preservação do meio ambiente e não tem só que falar, a gente tem que fazer.” Como a instalação é recente, a família ainda está quantificando a economia gerada, mas os benefícios práticos no dia a dia já são perceptíveis.

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Biofertilizante direto na lavoura, sem necessidade de curtimento

Além do biogás, o processo de biodigestão gera o digestado, subproduto líquido rico em nitrogênio, fósforo e potássio. Ao contrário do esterco bruto, esse material pode ser aplicado diretamente na lavoura sem necessidade de compostagem ou curtimento prévio, o que representa ganho significativo de tempo e mão de obra para o produtor. Paulo Gonçalves Duchini, extensionista rural da Epagri em Xaxim, detalha o potencial agronômico do material: “Esse digestado apresenta grande quantidade de nutrientes e uma rápida resposta das plantas, podendo substituir grande parte dos adubos inorgânicos necessários.” Consequentemente, a dependência de fertilizantes sintéticos cai, reduzindo diretamente o custo variável da safra.

Para pequenas propriedades da região Oeste, onde a pressão sobre a margem da atividade leiteira é constante, essa combinação entre menor gasto com energia e menor gasto com fertilização representa uma virada estrutural no custo de produção, não apenas uma economia pontual.

Tecnologia criada em 2008 já atravessou o Brasil

O primeiro Biodigestor de Baixo Custo foi instalado em 2008, em uma propriedade no município de Laurentino, no Alto Vale do Itajaí. Dez anos depois, a Embrapa formalizou a validação da tecnologia. Osnei Córdova Muniz, extensionista da Epagri que acompanhou a instalação pioneira, conta que o alcance do sistema foi além do esperado: “Hoje, esse sistema está praticamente no Brasil todo. O produtor de Laurentino já recebeu mais de 300 visitas de interessados em conhecer o biodigestor.” O número exato de unidades instaladas no país não é controlado, o que por si só indica a capilaridade que a tecnologia atingiu ao longo de mais de 15 anos.

O que diferencia este sistema dos biodigestores industriais é exatamente a simplicidade construtiva e o custo acessível ao agricultor familiar. A geomembrana substitui estruturas de concreto, a instalação não exige mão de obra especializada e a manutenção é mínima. Duchini reforça que esse conjunto de características cria um potencial expressivo de adoção no Oeste catarinense, região que concentra pequenas propriedades leiteiras e onde a escala não permite investimentos de grande porte.

Descarbonização começa na porteira

O biodigestor também se encaixa na agenda de descarbonização da pecuária, debate que ganhou urgência com a proximidade da COP30, prevista para Belém, no Pará. Ao capturar o metano que seria emitido pelos dejetos a céu aberto e convertê-lo em energia útil, o sistema reduz diretamente a pegada de carbono da propriedade.

Para Jeferson João Soccol, coordenador estadual do Programa Desenvolvimento e Sustentabilidade Ambiental da Epagri, a tecnologia responde de forma prática a várias demandas simultâneas do setor: “O biodigestor é uma tecnologia extremamente importante e acessível aos agricultores familiares. Há uma expectativa de que ela ganhe mais relevância e adesão a partir da disponibilização de recursos financeiros de fomento pelo estado de Santa Catarina, através da Epagri, e de eventos como o que estamos realizando em Xaxim.”

A propriedade da família Capitani passará a funcionar como unidade de referência técnica para a região, recebendo visitas de produtores e técnicos interessados em conhecer o sistema em operação. O próximo passo já está marcado: um Dia de Campo promovido pela Epagri e parceiros, na própria propriedade, na linha Santa Lúcia, em Xaxim, na próxima quarta-feira, 18 de março, a partir das 13h30. Para quem produz leite no Oeste e ainda trata dejeto como problema, a visita pode ser o ponto de partida para transformá-lo em receita.

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