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Agro

BRS Lis e BRS Antonella: novas uvas da Embrapa miram produtividade e padrão de cor na indústria de sucos e vinhos

Avaliadas por mais de uma década na Serra Gaúcha, cultivares ampliam eficiência na porteira para dentro e flexibilidade nos cortes industriais.

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BRS Lis e BRS Antonella: novas uvas da Embrapa miram produtividade e padrão de cor na indústria de sucos e vinhos

A Embrapa Uva e Vinho colocou no campo duas cultivares que atacam, ao mesmo tempo, os principais gargalos da vitivinicultura de processamento no Brasil: sanidade, regularidade produtiva e qualidade industrial. As uvas tintureiras BRS Lis e BRS Antonella chegam após mais de uma década de avaliação técnica na Serra Gaúcha, justamente onde o custo de errar uma escolha varietal pesa direto no caixa do produtor.

As duas cultivares foram desenhadas para trabalhar em conjunto. Não por acaso. Enquanto a BRS Antonella entrega volume e intensidade de cor, a BRS Lis entra como contrapeso técnico, trazendo sanidade, estabilidade e qualidade do mosto. O resultado é um sistema mais previsível, tanto porteira para dentro quanto na indústria.

A colheita acontece no ciclo intermediário, com janela concentrada na primeira quinzena de fevereiro. Isso facilita o escalonamento, reduz pressão logística e permite ajustes finos na programação da vinícola. No campo, essa previsibilidade já muda a conversa.

A BRS Lis chama atenção pela tolerância ao míldio e às podridões de cacho, dois problemas que drenam margem ano após ano. Cachos mais soltos ajudam. Menos umidade retida, menos fungo, menos aplicação. “Seus cachos soltos contribuem para menor incidência de doenças e maior estabilidade produtiva, favorecendo sistemas de cultivo mais sustentáveis”, observa Patrícia Ritschel, pesquisadora da Embrapa Uva e Vinho e coordenadora do programa Uvas do Brasil.

Menos defensivo significa menos custo. Simples assim.

Já a BRS Antonella entra com outro papel. Produção alta, rendimento consistente e forte aporte de cor. Ela conversa bem com sistemas já consolidados da Serra Gaúcha, sem exigir ruptura no manejo. “A BRS Antonella tem ciclo intermediário e se adapta bem à Serra Gaúcha, o que possibilita uma integração eficiente aos sistemas produtivos já consolidados”, destaca João Dimas Garcia Maia, também coordenador do programa.

Quando combinadas, as duas uvas reduzem a dependência histórica de cultivares tradicionais como Isabel, Bordô e Concord. Essas variedades cumpriram seu papel, mas carregam limitações conhecidas: sanidade irregular, variabilidade de cor e restrições no processamento. O setor sente isso há anos.

No copo, os resultados aparecem.

As avaliações enológicas mostram que a BRS Lis gera sucos e vinhos com acidez equilibrada, coloração intensa e estrutura de taninos bem definida. Açúcar não falta. “Por produzir bastante açúcar, os sucos são bastante doces e os vinhos apresentam teor de álcool natural, o que dispensa a adição de sacarose externa na fase de fermentação”, explica Mauro Zanus, pesquisador da área de enologia da Embrapa.

A BRS Antonella complementa esse perfil ao garantir regularidade visual e rendimento industrial. Em cortes, cumpre bem a função de elevar padrão e padronização. “São sucos e vinhos que incorporam mais coloração, aroma característico de uvas americanas, sabor balanceado e boa estrutura de taninos”, pontua Zanus.

Outro ponto técnico que pesa na decisão é o teor de compostos fenólicos. As duas cultivares apresentam índices elevados de polifenóis totais e antocianinas, superando Isabel e Concord e se equiparando — ou até superando — Bordô em alguns parâmetros. Isso significa mais estabilidade de cor, maior resistência à oxidação e produto final com maior valor tecnológico.

O mercado percebe e paga

Do ponto de vista econômico, a escolha varietal deixa de ser apenas agronômica. Ela vira estratégia de margem. “As características das novas uvas, aliadas ao bom potencial enológico e desempenho industrial, contribuem para a redução dos custos de produção e favorecem a rentabilidade por área”, avalia José Fernando da Silva Protas, pesquisador da área de socioeconomia da Embrapa.

Na prática, o produtor quer saber se funciona fora da estação experimental. Funciona.

A validação em áreas comerciais envolveu cooperativas como Aurora, São João e Agroindustrial Paraíso, em municípios-chave da Serra Gaúcha. O modelo de teste em ambiente real fez diferença. “Queremos assertividade na hora de implantar o vinhedo”, afirma René Tonello, presidente da Cooperativa Vinícola Aurora, ao comentar o processo de validação.

No nível do produtor, a decisão já começou. “Além de receberem um valor semelhante ao das viníferas, a facilidade da colheita da BRS Lis é muito boa para produtores como nós, que contam com pouca mão de obra”, relata Fabiano Orsato, viticultor que já planeja substituir áreas de Isabel pelas novas cultivares.

O recado é claro.

BRS Lis e BRS Antonella não prometem revolução. Entregam algo mais importante: previsibilidade técnica, redução de risco e ganho de eficiência no sistema. Para quem vive de margem apertada e janela curta, isso muda o jogo.

Fonte: Agência Gov | Via Embrapa

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