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Cacau amazônico vira referência mundial de sustentabilidade com chocolate indígena do Xingu

Reconhecimento internacional destaca modelo produtivo que une floresta em pé e empreendedorismo feminino

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Cacau amazônico vira referência mundial de sustentabilidade com chocolate indígena do Xingu

O reconhecimento internacional da marca indígena Sidjä Wahiü colocou o cacau amazônico em uma vitrine estratégica da bioeconomia mundial. A iniciativa, liderada pela empreendedora Katyana Xipaya, foi selecionada pelo World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) como exemplo de negócio capaz de gerar renda sem romper o equilíbrio da floresta — algo que o mercado global busca cada vez mais, mas raramente encontra funcionando na prática.

O movimento não acontece por acaso. O mercado internacional passou a exigir rastreabilidade, origem sustentável e impacto social real. Nesse contexto, o chocolate produzido na comunidade ribeirinha Jericoá 2, em Vitória do Xingu (PA), surge como um caso concreto de transformação econômica construída porteira para dentro, baseada em conhecimento tradicional e organização produtiva local.

A marca Sidjä Wahiü — expressão que significa “Mulher Forte” na língua Xipaya — nasceu em 2023 com a proposta de agregar valor ao cacau nativo amazônico. Em vez de vender apenas matéria-prima, a comunidade passou a participar da cadeia de valor do chocolate fino, capturando margem econômica que historicamente ficava fora do território.

Katyana Xipaya resume o impacto do reconhecimento: “Saber que o Sidjä Wahiü recebeu essa seleção me gratifica muito, porque ele não representa apenas meu trabalho. O chocolate mostra a força do empreendedorismo indígena, nossa cultura e o protagonismo das mulheres. Ocupamos nossos espaços e mostramos que não caminhamos sozinhos. Construímos essa história sementinha por sementinha.”

Tradição produtiva vira estratégia econômica

O diferencial do projeto não está apenas no produto final, mas no sistema produtivo adotado. A produção preserva técnicas familiares transmitidas ao longo de gerações às margens do Rio Xingu, combinando manejo tradicional com exigências do mercado premium.

O cacau utilizado mantém origem agroflorestal, cultivado junto à vegetação nativa, o que reduz pressão por desmatamento e mantém a biodiversidade ativa. Na prática, a floresta continua produtiva sem precisar ser substituída por monocultura intensiva. O mercado sentiu a diferença. Segundo a própria empreendedora, o chocolate carrega identidade territorial e diversificação produtiva.

“O Sidjä Wahiü carrega mais que sabor — ele carrega nossa raiz e a perseverança de manter o modo como meu avô trabalhava. Hoje produzimos chocolate fino com 72% de cacau e frutas como abacaxi e pitaia da nossa própria terra. Geramos renda para parentes ribeirinhos e para a agricultura familiar.”

Três famílias indígenas participam diretamente do cultivo do cacau e das frutas utilizadas nas receitas. Após a colheita e o processamento inicial, a matéria-prima segue para a Cacauway, em Medicilândia (PA), onde ocorre o refinamento técnico que garante padrão exigido pelo mercado de chocolates especiais. A parceria equilibra saber tradicional e escala comercial — combinação rara na bioeconomia amazônica.

Pará consolida protagonismo no mercado do cacau

O avanço da iniciativa dialoga com um cenário maior. O Pará já responde por mais da metade da produção nacional de cacau, consolidando-se como novo polo da cacauicultura brasileira após décadas de deslocamento da produção do sul da Bahia para a Amazônia.

Dados da Embrapa indicam que a cadeia do cacau movimenta cerca de R$ 3,5 bilhões por ano no país. Porém, a maior parte desse valor ainda está concentrada fora das comunidades produtoras. Projetos como o Sidjä Wahiü alteram essa lógica ao inserir o produtor em etapas mais rentáveis da cadeia.

Em 2024, comunidades indígenas apoiadas por iniciativas regionais colheram 23 toneladas de cacau. Para áreas ribeirinhas, esse volume representa mais que produção agrícola: significa previsibilidade de renda e redução da dependência de atividades extrativistas de baixa margem.

Bioeconomia deixa de ser conceito e vira renda

O crescimento da marca também está ligado ao programa Belo Monte Empreende, desenvolvido pela Norte Energia, que atua na capacitação produtiva e no fortalecimento socioeconômico das comunidades do Médio Xingu. A estratégia aposta na geração de negócios locais capazes de permanecer economicamente viáveis sem ampliar o desmatamento.

Outras marcas indígenas, como Yudjá, Karaum Paru, Iawá e Ita’Aka Akauwa, também receberam suporte, formando um ecossistema regional voltado à produção sustentável de chocolate.

Aos poucos, o Médio Xingu passa a ser reconhecido não apenas como território de conservação, mas como origem de produtos de alto valor agregado. Para Thomás Sottili, gerente de Projetos de Sustentabilidade da Norte Energia, o reconhecimento internacional confirma a força desse modelo produtivo.

“O reconhecimento da marca Sidjä Wahiü pelo WBCSD prova que o desenvolvimento sustentável na Amazônia, quando respeita saberes tradicionais, alcança escala e relevância global. Para a Norte Energia, apoiar lideranças como Katyana Xipaya integra nossa estratégia de deixar um legado de autonomia e prosperidade para as comunidades do Médio Xingu.”

A lógica por trás desse avanço é simples, embora leve anos para amadurecer: quando o produtor participa da transformação do alimento, o valor fica no território. Consequentemente, preservar a floresta deixa de ser apenas discurso ambiental e passa a ser decisão econômica.

O mercado internacional já sinaliza que produtos com origem rastreável e impacto social comprovado tendem a ganhar espaço e prêmio de preço. Para quem produz cacau na Amazônia, o recado é claro: agregar valor pode ser tão decisivo quanto aumentar a produtividade — especialmente em um cenário em que sustentabilidade deixou de ser diferencial e passou a ser requisito de mercado.

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