Entre 8 e 10 de maio, Istambul recebeu uma das edições mais aguardadas da Coffeex Istanbul, feira que reúne compradores, importadores e especialistas do setor cafeeiro de toda a região. Na 8ª edição do evento, o Brasil ocupou um espaço que foi além da exposição de produtos: foi uma declaração de posicionamento. O pavilhão brasileiro trouxe cafés especiais com rastreabilidade, processos inovadores de fermentação e uma narrativa de sustentabilidade que o mercado turco ainda não conhecia com essa profundidade.
A iniciativa foi viabilizada por uma parceria entre o Consulado-Geral do Brasil em Istambul e o Ministério da Agricultura e Pecuária, o Mapa. A combinação entre diplomacia e estratégia comercial não foi acidental: a Turquia vive uma expansão consistente no consumo de cafés premium, e o Brasil chegou com o produto certo no momento certo.
Muito além do grão tradicional
Durante décadas, o café brasileiro foi reconhecido no mundo como matéria-prima de volume. Competia por escala, não por sofisticação. Esse cenário mudou, e a participação em Istambul é uma das demonstrações mais claras dessa virada.
O pavilhão apresentou ao público turco a diversidade de origens do café nacional, com destaque para duas frentes distintas. Os cafés Arábica, reconhecidos pela complexidade sensorial e pelas notas refinadas que variam conforme a altitude, o solo e o método de processamento de cada região produtora. E os cafés Canéfora, que incluem o Conilon e o Robusta, variedades que vêm conquistando mercados de alto valor justamente por sua qualidade crescente e versatilidade de uso, especialmente em blends de espresso.
Baristas e workshops conduzidos durante o evento reforçaram o que os grãos, por si só, já comunicavam: o Brasil domina toda a cadeia, do cultivo ao processamento, com conformidade técnica e fiscalização oficial garantidas pelo Mapa.
A terceira onda chegou à Turquia
O contexto de mercado que o Brasil encontrou em Istambul é favorável e estratégico. A Turquia tem uma cultura secular do café, mas o segmento conhecido como “terceira onda” — que valoriza a experiência sensorial, a origem identificável do grão e a torrefação artesanal — está em plena expansão no país. Esse é exatamente o território onde o café brasileiro tem mais a oferecer e mais a ganhar.
Métodos de processamento como a fermentação e o natural, que ampliam o perfil aromático dos grãos e resultam em bebidas de maior complexidade, foram apresentados durante a feira como diferenciais concretos. Para um consumidor turco que está migrando do café solúvel para o espresso de origem rastreável, esses atributos representam uma mudança de experiência, e o Brasil se posicionou como o fornecedor capaz de entregar essa mudança com escala e consistência.
Uma cadeia que sustenta 300 mil famílias
O esforço de internacionalização do café brasileiro carrega um peso social que vai além dos números de exportação. O setor cafeeiro envolve mais de 300 mil famílias no país, distribuídas principalmente em Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo, estados que concentram 70% dos mais de 1,7 mil estabelecimentos registrados na cadeia produtiva nacional.
Em 2025, o Brasil produziu cerca de 56,5 milhões de sacas e exportou quase 40 milhões, mantendo a liderança como maior produtor e exportador mundial. Esses números dão sustentação à estratégia de qualidade: o país tem volume para garantir fornecimento e, agora, portfólio para atender os segmentos mais exigentes do mercado global.
A presença em Istambul ocorreu ainda em um momento de reconhecimento internacional para o setor. Em março deste ano, a ONU adotou uma resolução liderada pelo Brasil que oficializou o dia 1º de outubro como o Dia Internacional do Café, reconhecendo a importância social, econômica e ambiental da cultura cafeeira no mundo.
Um mercado que o Brasil quer conquistar de vez
Fortalecer os laços comerciais com a Turquia significa acessar um mercado que combina tradição histórica no consumo de café com uma demanda crescente por produtos de origem verificada e alta qualidade. Para os importadores turcos presentes na Coffeex Istanbul, o pavilhão brasileiro funcionou como um ponto de contato direto com produtores, processos e certificações — uma experiência que raramente é possível fora de eventos como esse.
A estratégia é de longo prazo. O Brasil não foi a Istambul apenas para fechar negócios imediatos, mas para construir a percepção de que o café nacional é sinônimo de segurança, rastreabilidade e excelência sensorial. Em um mercado premium em expansão, essa percepção vale tanto quanto qualquer contrato comercial.




