Uma capivara jovem, macho, pesando cerca de 40 quilos, foi resgatada na última segunda-feira (9) por voluntários e bombeiros em Pato Branco, no Sudoeste do Paraná, após ser atropelada. O animal apresentava diversas escoriações pelo corpo, incluindo um corte na região da mandíbula, e foi encaminhado à regional do Instituto Água e Terra (IAT) para avaliação.
No sábado seguinte (14), Dia Nacional dos Animais, técnicos do IAT de Pato Branco devolveram o animal à natureza, após seis dias de tratamento no Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres (CETRAS) da Universidade Estadual do Centro Oeste (Unicentro), em Guarapuava. O caso reacende um debate recorrente no Paraná: o impacto dos atropelamentos sobre a fauna silvestre e o papel decisivo das estruturas públicas de reabilitação na sobrevivência desses animais.
Resgate, avaliação e recuperação: etapas que definem o prognóstico
Após o resgate em Pato Branco, a capivara seguiu para avaliação veterinária na regional do IAT, que acionou o CETRAS de Guarapuava, unidade vinculada à Unicentro e integrante da rede de apoio à fauna silvestre coordenada pelo instituto estadual. O fluxo é padrão nesses atendimentos: triagem, diagnóstico das lesões, estabilização clínica e, quando possível, reabilitação para a soltura.
No caso da espécie Hydrochoerus hydrochaeris — nome científico da capivara —, a recuperação de traumas físicos costuma evoluir bem quando o animal é atendido com rapidez. A espécie é robusta, adaptada a ambientes semi-aquáticos, e responde positivamente ao período de confinamento controlado, desde que o estresse seja minimizado e a dieta seja adequada à sua condição de herbívoro.
Aliás, entender a biologia do animal é parte fundamental do protocolo de reabilitação. A capivara se alimenta de capim, grama, ervas e vegetação aquática. O hábitat natural inclui manguezais, savanas, margens de rios, lagos, áreas alagáveis e entornos de represas, ou seja, corpos d’água permanentes onde o animal encontra proteção contra predadores, regulação térmica e condições para reprodução. As pequenas membranas entre os dedos conferem eficiência ao nado e são um sinal evidente da dependência da espécie à água. Por isso, a avaliação do local de soltura é tão importante quanto o tratamento em si.
A rede que viabiliza a sobrevivência da fauna silvestre paranaense
O CETRAS de Guarapuava não opera isoladamente. O centro integra uma rede estruturada pelo IAT para receber, tratar e reabilitar animais silvestres em diferentes regiões do Estado. Essa articulação entre o órgão estadual e universidades públicas é o que torna viável o atendimento em municípios do interior, onde a infraestrutura veterinária especializada em fauna silvestre ainda é limitada.
Casos como o da capivara de Pato Branco dependem da agilidade na cadeia de atendimento: do voluntário que identifica o animal ferido à margem da estrada, ao bombeiro que realiza o contenção segura, ao técnico do IAT que faz o encaminhamento correto. Qualquer ruptura nessa cadeia compromete o prognóstico.
Contudo, a soltura bem-sucedida não encerra o problema estrutural. O atropelamento de fauna silvestre é uma das principais causas de morte de animais no Brasil, e o Paraná, por sua densa malha rodoviária e pelo avanço das áreas agrícolas sobre os corredores ecológicos, concentra índices expressivos desse tipo de ocorrência.
O que fazer ao avistar um animal silvestre ferido
Ao encontrar uma capivara ou qualquer outro animal silvestre ferido próximo a uma rodovia ou área urbana, o protocolo correto é acionar imediatamente a Ouvidoria do Instituto Água e Terra (IAT) ou ligar para o Disque Denúncia 181. As informações devem ser precisas: localização exata, descrição do animal e das lesões visíveis, e o contexto do ocorrido. Quanto mais detalhes forem fornecidos, mais rápida e eficiente será a mobilização das equipes de atendimento.
Não se deve tentar transportar o animal sem orientação técnica. Capivaras adultas, mesmo debilitadas, podem reagir com força considerável. Além do risco para quem tenta ajudar, o manuseio incorreto agrava as lesões e eleva o estresse do animal, o que pode comprometer diretamente a recuperação.
O canal de denúncias do IAT também recebe ocorrências de atividades ilegais contra animais silvestres, como tráfico e maus-tratos, reforçando a função do órgão como principal coordenador da proteção à fauna no Paraná.
