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Comércio de pássaros canoros brasileiros passa a ter controle global reforçado

by Derick Machado
4 de fevereiro de 2026
in Natureza
Pássaro canoro, bicudo está ameaçado de extinção no Brasil - Foto: Diego B. S. Gomes

Pássaro canoro, bicudo está ameaçado de extinção no Brasil - Foto: Diego B. S. Gomes

O canto potente e melódico do bicudo ecoa há séculos pelos campos e cerrados brasileiros. Entretanto, o que sempre foi símbolo da biodiversidade nacional tornou-se também alvo de um mercado ilegal que ameaça silenciar essa voz de forma definitiva. A partir de 5 de março, o comércio internacional de espécimes coletados na natureza estará proibido, conforme decisão tomada durante a 20ª Conferência das Partes da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (Cites), realizada em Samarkand, no Uzbequistão.

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O bicudo (Sporophila maximiliani) figura hoje entre as espécies criticamente ameaçadas no Brasil. Embora a captura de animais silvestres seja proibida no país desde 1967, a realidade mostra que o tráfico ainda encontra brechas, especialmente quando há permissões legais em outros países da América do Sul e Central. Assim, aves retiradas da natureza acabam sendo inseridas no comércio internacional sob diferentes justificativas, dificultando o controle efetivo.

Segundo a analista ambiental do Ibama, Júlia Damo, que participou da COP20, o principal fator de pressão sobre essas aves continua sendo o comércio ilegal voltado tanto ao mercado de animais de estimação quanto às competições de canto. A valorização cultural dessas espécies, sobretudo no Centro e Sudeste do Brasil, contribuiu historicamente para a captura intensa. O bicudo é admirado não apenas pela qualidade vocal, mas também pela aparência marcante e pela facilidade de adaptação ao cativeiro — características que, paradoxalmente, aceleraram seu declínio na natureza.

Os números são alarmantes. Pesquisas indicam que restem, no máximo, cerca de 3.000 bicudos adultos em vida livre no planeta. No Brasil, as estimativas recentes apontam algo em torno de 100 indivíduos maduros na natureza. Esse cenário evidencia que a pressão da captura ultrapassou qualquer limite sustentável.

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Entretanto, o problema não se restringe a uma única espécie. Devido à similaridade fenotípica — especialmente entre fêmeas — outras cinco aves do gênero Sporophila também passaram a receber proteção internacional reforçada: o curió (Sporophila angolensis), o bicudo-de-bico-preto (Sporophila atrirostris), o bicudo-do-norte (Sporophila crassirostris), o papa-capim-de-bico-grosso (Sporophila funerea) e o papa-capim-de-nicarágua (Sporophila nuttingi). Muitas vezes, a dificuldade de identificação correta facilita a chamada “lavagem” de espécimes, permitindo que aves capturadas ilegalmente sejam comercializadas como se tivessem origem regular.

Com a inclusão dessas espécies no Anexo 2 da Cites, o comércio internacional passa a depender de comprovação rigorosa de que os animais foram obtidos de forma legal e sustentável. Embora nem todas estejam formalmente classificadas como ameaçadas no mesmo grau que o bicudo, a medida busca justamente impedir que o declínio populacional avance até um ponto irreversível. Trata-se de uma estratégia preventiva, baseada no princípio de que o controle deve anteceder o colapso.

Júlia Damo ressalta que a inclusão no apêndice da Cites é essencial para fortalecer a cooperação internacional e evitar distorções no mercado. A circulação de aves brasileiras no exterior, apesar da proibição interna de captura, demonstra que o tráfico transnacional persiste e exige ação coordenada entre países. Portanto, o endurecimento das regras não atua apenas como barreira comercial, mas como instrumento de rastreabilidade e responsabilização.

Além disso, a decisão sinaliza um movimento mais amplo de reconhecimento da biodiversidade brasileira como patrimônio global. O canto dessas aves não representa apenas valor cultural ou estético; ele cumpre função ecológica relevante na dinâmica dos ecossistemas, seja na dispersão de sementes ou no equilíbrio das cadeias alimentares. Quando uma espécie desaparece, o impacto não se limita ao silêncio na paisagem sonora, mas se estende a todo o sistema natural.

Assim, ao reforçar o controle sobre o comércio internacional, a comunidade global reconhece que a preservação dessas espécies depende tanto de fiscalização quanto de mudança de comportamento. O desafio agora é garantir que as novas regras sejam efetivamente implementadas e que a cooperação entre as nações impeça que a captura ilegal continue a transformar melodias da natureza em mercadoria clandestina.

Fonte: Ibama

  • Derick Machado

    Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em agronegócio. Acompanha de perto as principais pesquisas, tecnologias e movimentos de mercado que impactam produtores rurais brasileiros, com base em fontes institucionais como Embrapa, Cepea/Esalq, MAPA e IBGE.

    E-mail:  contato@agronamidia.com.br

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