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Home Clima e Sustentabilidade

Kungaka: o lagarto mais raro da Austrália tem menos de 20 indivíduos e luta para não desaparecer antes de ser estudado

Batizado pelos aborígenes Wiimpatja de "o oculto", o Liopholis mutawintji viveu décadas confundido com outra espécie e hoje sobrevive isolado em um único desfiladeiro, sob pressão de predadores e mudanças climáticas

Escrito por: Agronamidia Revisão: Derick Machado
17 de maio de 2026
in Clima e Sustentabilidade
Foto: Tom Parkin, CC BY-ND

Foto: Tom Parkin, CC BY-ND

Um lagarto que passou décadas invisível para a ciência foi finalmente descrito como uma espécie própria no oeste de Nova Gales do Sul, na Austrália. Ele vive entre os paredões de arenito vermelho do Parque Nacional de Mutawintji e é conhecido pelos aborígenes Wiimpatja pelo nome kungaka, que significa “o oculto”. Agora batizado oficialmente de Liopholis mutawintji, o animal carrega uma história de isolamento geográfico que remonta a períodos muito mais úmidos da história do continente australiano — e a sua sobrevivência atual depende de ações urgentes e coordenadas.

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A descoberta foi publicada no The Conversation por Warlpa Thompson, proprietário aborígine do Parque Nacional Mutawintji, junto com Jodi Rowley, curadora de Biologia da Conservação de Anfíbios e Répteis do Museu Australiano, e Thomas Parkin, pesquisadora em Herpetologia da mesma instituição. Durante anos, acreditava-se que o animal fosse simplesmente uma população isolada do lagarto-de-cauda-branca-do-sul (Liopholis whitii), espécie distribuída por habitats rochosos do sudeste australiano. A reclassificação só foi possível após análises genéticas combinadas ao estudo detalhado das variações morfológicas do corpo.

Três espécies onde havia uma

“Por meio da análise de sua genética e variações na forma do corpo, confirmamos que este lagarto é, na verdade, três espécies distintas. Duas delas ocorrem em grandes áreas do sudeste da Austrália. A terceira — o kungaka — é restrita ao Parque Nacional Mutawintji, a cerca de 500 km de seus parentes mais próximos”, explicam Rowley e Parkin.

Essa distância geográfica de meio milhar de quilômetros em relação aos parentes mais próximos não é apenas um dado cartográfico: ela revela a trajetória evolutiva do animal. O kungaka representa uma linhagem ancestral que provavelmente se formou quando o continente ainda era mais úmido. À medida que a Austrália secava progressivamente, a espécie encontrou refúgio nos ambientes rochosos de Mutawintji, onde permaneceu isolada e, consequentemente, invisível para a taxonomia científica por décadas.

Menos de 20 indivíduos no mundo

O que torna a situação ainda mais delicada é o tamanho estimado da população. Os pesquisadores calculam que existam menos de 20 indivíduos do kungaka na natureza, todos concentrados em uma pequena e isolada área de desfiladeiro dentro do parque nacional. Essa densidade mínima coloca a espécie em um dos patamares mais críticos dentro da biologia da conservação, onde qualquer perturbação ambiental ou redução no sucesso reprodutivo pode ser suficiente para inviabilizar a sobrevivência da espécie.

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Aliás, as ameaças já estão presentes e ativas. Uma das principais é o pastejo excessivo de cabras selvagens, que destroem a vegetação e pisoteiam as formações rochosas das quais o kungaka depende diretamente para abrigo, termorregulação e proteção contra predadores. Sem essa estrutura rochosa intacta, o animal fica exposto a temperaturas extremas e vulnerável a predadores introduzidos, como gatos e raposas. Além disso, as mudanças climáticas intensificam a frequência e a severidade das secas na região, pressionando ainda mais o habitat já limitado da espécie.

Ação integrada como única saída

“Existe uma responsabilidade compartilhada na proteção e conservação do kungaka. Precisamos controlar cabras, gatos e raposas, procurar por populações adicionais e monitorá-las a longo prazo. Dado o tamanho extremamente pequeno da população, ações como a reprodução em cativeiro podem ser necessárias”, afirmam os autores.

A reprodução em cativeiro, citada pelos pesquisadores como possibilidade concreta, representa uma medida de segurança utilizada em casos extremos de risco de extinção. Programas desse tipo já salvaram espécies de répteis australianos de desaparecerem completamente, e a aplicação dessa estratégia ao kungaka dependeria de um esforço conjunto entre gestores do parque, comunidades aborígines e instituições científicas.

Nesse contexto, o papel dos aborígenes Wiimpatja vai além do simbólico. A própria nomenclatura popular da espécie veio dessa comunidade, e a gestão compartilhada do parque entre o governo e os proprietários tradicionais da terra é parte da estrutura que viabiliza qualquer programa de conservação eficaz na região.

“A sobrevivência deste lagarto singular dependerá de parcerias colaborativas sustentadas e de longo prazo”, concluem Rowley e Parkin.

A descoberta do Liopholis mutawintji reforça o que biólogos da conservação já sinalizavam: habitats rochosos isolados em zonas áridas guardam uma diversidade subestimada, frequentemente invisível até que estudos genéticos de alta resolução sejam aplicados a populações que, à primeira vista, parecem conhecidas. No caso do kungaka, o nome escolhido pelos Wiimpatja resumiu, sem querer, décadas de ciência: o oculto ficou oculto por tempo demais.

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