A Embrapa está construindo uma inteligência artificial generativa voltada exclusivamente ao produtor rural brasileiro. O objetivo é claro: transformar décadas de pesquisas acumuladas pela empresa estatal em respostas técnicas precisas, acessíveis e confiáveis para quem está no campo tomando decisões todos os dias.
O projeto começou a ser estruturado em outubro do ano passado e reúne pesquisadores de 17 unidades da Embrapa, além de 20 especialistas da Embrapa Agricultura Digital. A iniciativa não parte do zero tecnológico. Os pesquisadores vão adaptar modelos de IA com código aberto já consolidados, como o Gemma, do Google, e o DeepSeek, calibrando-os com o vasto acervo técnico-científico da empresa para que as respostas tenham a densidade e a precisão que as ferramentas generalistas hoje disponíveis no mercado não conseguem oferecer.
“Não vamos desenvolver [a IA] do zero, não teríamos esse recurso. Vamos adaptar [a IA existente] para responder com mais precisão”, explica Kleber Sampaio, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital e um dos responsáveis pelo projeto.
Culturas estratégicas abrem o caminho
A escolha das culturas que integram esta primeira fase do projeto não foi aleatória. Mandioca, batata-doce, sistemas agroflorestais e aquicultura foram selecionadas justamente por sua relevância para a agricultura familiar e para regiões com menor acesso à assistência técnica especializada. Concentrar o treinamento inicial em um grupo menor de culturas é uma decisão técnica deliberada: quanto mais restrito e qualificado o material de treino, menor o risco das chamadas “alucinações”, que são respostas incorretas ou sem fundamento que qualquer IA generativa pode produzir quando consultada fora de sua base de conhecimento real.
Ao longo dos quatro anos previstos para o desenvolvimento, especialistas de cada área vão selecionar os materiais mais relevantes publicados pela Embrapa e cruzá-los com o banco de perguntas e respostas já registrado pela instituição. Esse processo de curadoria é o que diferencia a proposta de qualquer chatbot agrícola disponível atualmente. Depois do treino, os pesquisadores ainda vão validar as respostas geradas, verificando se as recomendações técnicas seguem sendo válidas e cientificamente embasadas.
“Vamos comparar nosso sistema com a IA genérica e ver qual se saiu melhor, se a nossa ou se a resposta padrão do Gemini. Temos a sensação que a nossa vai ser melhor, porque estamos preocupados em usar o material selecionado para fazer esse trabalho. Vamos fazer uma série de avaliações sobre a clareza [das respostas], concisão, se o sistema não alucinou, e comparar”, afirma Sampaio.
O gargalo histórico da extensão rural no Brasil
A extensão rural sempre foi um dos maiores desafios estruturais da agropecuária brasileira. A relação entre técnicos disponíveis e produtores atendidos nunca foi suficiente, especialmente nas regiões mais remotas do país, onde pequenos agricultores precisam tomar decisões de manejo sem acesso a orientação especializada. É exatamente nesse vazio que a IA da Embrapa pretende atuar.
A tecnologia está sendo desenvolvida para funcionar como instrumento de extensão rural digital e se integrar ao programa Ater+Digital, iniciativa conjunta do Ministério do Desenvolvimento Agrário e do Ministério da Agricultura que já disponibiliza plataformas com informações de manejo e gestão para produtores. A IA entra como camada de inteligência conversacional sobre essa estrutura já existente, permitindo que o produtor faça perguntas específicas e receba orientações técnicas contextualizadas, algo que nenhuma plataforma informativa estática consegue oferecer.
Diferencial que não existe em nenhum modelo no mundo
O mercado de agtechs já conta com algumas startups que oferecem chatbots voltados ao agronegócio. A diferença da proposta da Embrapa está na profundidade do processo de validação. Cada resposta que o sistema vai gerar passará pelo crivo de especialistas que conhecem tanto o material de origem quanto as condições reais de aplicação no campo. Nenhum modelo existente, seja no Brasil ou no exterior, opera com esse nível de curadoria humana especializada integrado ao ciclo de treinamento da IA.
“Nosso modelo tem especialistas envolvidos tanto na seleção do material como na avaliação do modelo. Esse diferencial, sabemos, não existe em nenhum modelo no Brasil nem no mundo”, destaca Kleber Sampaio.
Ao final do desenvolvimento, o plano é licenciar o código para empresas privadas, que poderão levar a tecnologia diretamente ao produtor por meio de aplicativos, plataformas digitais ou serviços de assistência técnica. Dessa forma, a Embrapa não apenas desenvolve a ferramenta, mas cria um modelo de disseminação escalável, capaz de multiplicar o alcance do conhecimento técnico acumulado pela instituição em décadas de pesquisa aplicada ao campo brasileiro.



