Quem cresceu no Vale do Itajaí conhece bem o papel do pepino à mesa. Seja no recheio da maionese de domingo ou no clássico “pão picante” das festas de família, o legume carrega consigo um traço forte da herança cultural alemã que moldou a região. O que muita gente não sabe é que esse mesmo pepino, tão presente na tradição local, está entre as hortaliças que mais recebem agrotóxicos no país. O motivo é direto: praga e doença atacam a cultura com frequência e intensidade, e os produtores precisam reagir.
Para mudar essa equação, dois pesquisadores da Estação Experimental de Itajaí (EEI), vinculada à Epagri, decidiram trabalhar juntos. Alexandre Menezes, entomologista, e Alexandre Visconti, fitopatologista, estão à frente do projeto “Manejo sustentável integrado de pragas e doenças para a produção de pepinos para conserva”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa de Santa Catarina (Fapesc). O trabalho teve início em janeiro e parte de uma proposta clara: encontrar alternativas biológicas eficazes para as duas principais ameaças ao pepino na região, a broca-das-cucurbitáceas e a mancha-zonada.
A vespa que combate a praga antes do dano acontecer
A estratégia de Menezes para enfrentar a broca-das-cucurbitáceas passa longe do inseticida convencional. O pesquisador trabalha com o controle biológico por meio de uma vespa parasitoide da espécie Trichogramma pretiosum, um inseto que age de forma precisa: deposita seus ovos dentro do ovo da praga e, ao se desenvolver, elimina o hospedeiro antes mesmo que a lagarta cause qualquer estrago na lavoura. Na primeira fase dos experimentos, quatro cartelas contendo 12 mil adultos da vespa foram instaladas numa área de 300 m² de cultivo aberto.
O pesquisador também testou o uso de armadilha luminosa para monitorar a população da praga no campo, mas a broca não foi atraída pela luz nessa tentativa. A ferramenta considerada mais eficaz para esse fim seria o feromônio sexual sintético, mas há um obstáculo técnico: o produto não tem disponibilidade comercial no Brasil para essa espécie.
“A estratégia mais efetiva para monitoramento populacional da praga é com feromônio sexual sintético, mas ainda não há disponibilidade comercial no caso da broca no Brasil. Está nos planos, a partir de setembro, quando o frio arrefecer, iniciar um experimento utilizando mariposas fêmeas, que exalam feromônios naturais. Contudo, esta estratégia só é possível com a criação do inseto em laboratório e sempre tentamos reproduzir no campo a mesma realidade das propriedades rurais”, explica Menezes.
Bactéria como escudo contra a mancha-zonada
Enquanto Menezes trabalha com a praga, Visconti concentra sua atuação na principal doença foliar que assola os pepinais: a mancha-zonada. A abordagem escolhida por ele combina dois caminhos. O primeiro é a aplicação de um produto comercial à base de Bacillus amyloliquefaciens, uma bactéria com ação fungicida reconhecida. O segundo é o uso de um biofertilizante aeróbico desenvolvido pelo próprio pesquisador, testado em duas concentrações diferentes para avaliar comparativamente a severidade da doença e a eficácia de cada insumo biológico.

O parâmetro de sucesso, nesse contexto, não é a eliminação total da doença, mas a capacidade de manter a planta produtiva até o fim do ciclo.
“No sistema de produção orgânico, não existe controle absoluto. O importante é que a planta se mantenha sadia até o final da colheita, que no caso do pepino é bem rápido, cerca de 40 dias”, afirma Visconti.
Ao longo de dois anos, estão previstos mais dois ciclos de cultivo, que vão permitir ajustar rotas e identificar os principais gargalos nas estratégias em uso. O processo iterativo é parte central da metodologia: cada colheita gera dados que alimentam a próxima rodada de decisões.
A pressão do mercado e da legislação
O projeto vai além da motivação científica. Visconti aponta que a indústria processadora de pepinos também passou a cobrar soluções mais limpas depois que o legume foi incluído na lista de culturas de alto risco sanitário pelo Ministério Público Estadual, dentro do Programa de Resíduo de Agrotóxico na Lavoura. Isso criou uma pressão real sobre toda a cadeia produtiva, da lavoura ao pote nas prateleiras.
Ao mesmo tempo, o crescimento do mercado de alimentos orgânicos tem acelerado a transição de produtores da região da Grande Florianópolis, que migraram do sistema convencional para o orgânico nas últimas safras. Para o pesquisador, essa mudança melhora a qualidade de vida tanto de quem consome quanto, especialmente, de quem planta e lida diariamente com os insumos na lavoura.
Novos espaços para uma ciência que está crescendo
Os próximos experimentos vão ganhar uma estrutura física ampliada. Duas novas estufas estão sendo construídas em uma área recém-incorporada à EEI, como parte da reforma e expansão da Unidade de Fitossanidade e Desenvolvimento de Bioinsumos (UNIBIO). O complexo inclui ainda uma casa de vegetação climatizada e duas estufas menores, voltadas ao controle e avaliação dos testes em andamento.
No espaço reformado, serão cultivados e avaliados parasitoides, fungos e bactérias aplicados em hortaliças orgânicas, em resposta a uma demanda que a sociedade já deixou de sussurrar para dizer em voz alta: alimentos mais saudáveis, produzidos com menos química e mais inteligência agronômica. O pepino para conserva, com toda a sua carga cultural e comercial, é o ponto de partida.




